Sete em cada 10 mulheres vítimas de feminicídio em Santa Catarina foram mortas por homens com quem mantinham ou haviam mantido uma relação íntima. Os dados fazem parte de um levantamento feito pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) e apontam que os chamados feminicídios íntimos representam a maioria dos casos de assassinato de mulheres registrados em Santa Catarina entre 2020 e 2024.
O documento define feminicídio íntimo como a morte de uma mulher praticada por uma pessoa com quem a vítima mantinha uma relação íntima de afeto, atual ou passada. Conforme a pesquisa, que integra o Mapa do Feminicídio, lançado pelo MPSC em 30 de março de 2026, 71% das vítimas foram assassinadas por companheiros, cônjuges, ex-companheiros, ex-cônjuges ou parceiros com quem mantinham algum vínculo de intimidade.
Ao analisar de forma mais específica a relação entre autores e vítimas, o estudo mostra que companheiros ou cônjuges responderam por 40,8% das ocorrências. Ex-companheiros ou ex-cônjuges representaram outros 23,1%. Somados, esses dois grupos foram responsáveis por 63,9% dos feminicídios analisados.
A diferença entre esse percentual e os 71% ocorre porque a classificação de feminicídio íntimo é mais abrangente e considera também outros tipos de relações de intimidade. O conceito também inclui vínculos afetivo-sexuais esporádicos ou fora de um relacionamento formal.
Violência pode começar antes do crime
Um dos pontos destacados pelo estudo é que o feminicídio muitas vezes é precedido por sinais de violência. Casos anteriores de violência doméstica, brigas frequentes e relacionamentos marcados por controle podem indicar um risco maior para a mulher.
Em diversos casos, antes do crime acontecer, a mulher já sofreu outras violações, como insultos, ameaças e agressões físicas. Segundo o Mapa, essas agressões podem se tornar cada vez mais graves até resultar na morte da vítima.
“E esses sinais de violência não se restringem à agressão física. Muitas trajetórias começam ou são acompanhadas por comportamentos de controle, ciúme excessivo, isolamento da mulher de familiares e amigos, vigilância, ameaças, humilhações, violência psicológica, patrimonial ou sexual. Um momento especialmente sensível é o rompimento da relação”, explica a promotora de Justiça do MPSC Chimelly Marcon, que coordenou a elaboração do estudo.
“A separação pode representar a perda do controle que o agressor exercia sobre a vítima e funcionar como fator de escalada da violência, sobretudo quando surgem ameaças de morte, perseguição ou a ideia de que a mulher não teria o direito de terminar aquela relação”, completa.
Conforme destacou a promotora, prevenir o feminicídio exige que os sinais anteriores sejam levados a sério e que a resposta estatal não dependa exclusivamente da iniciativa da própria vítima. É preciso uma rede preparada para identificar fatores de risco, acolher sem julgamento, compartilhar responsabilidades e agir de forma coordenada.
“Quando sabemos que a violência frequentemente deixa rastros antes de se tornar letal, reconhecer esses rastros e intervir a tempo passa a ser uma das tarefas fundamentais da prevenção”, diz Chimelly, que complementa:
Um dos principais ensinamentos do Mapa é que precisamos ampliar a capacidade de reconhecer o risco antes que a violência alcance seu estágio letal. Nem sempre essa mulher chegará primeiro à polícia ou ao sistema de Justiça. Ela pode procurar uma unidade de saúde, a assistência social, a escola dos filhos, conversar com familiares, amigos ou colegas de trabalho. Cada um desses contatos pode constituir uma oportunidade de identificação e proteção.
Oeste e Serra concentram maiores taxas
O Mapa do Feminicídio também identificou áreas de Santa Catarina classificadas como “corredores do fenômeno feminicida”. Um deles está no Oeste, abrangendo municípios entre Xanxerê e São Miguel do Oeste, onde estão algumas das maiores taxas de letalidade feminina observadas no período, sendo de 6,98 e de 5,50 respectivamente.
Outro corredor se estende entre Lages e Curitibanos. A região apresenta indicadores proporcionalmente superiores aos encontrados no litoral e nos grandes centros urbanos. Em Lages, por exemplo, a taxa é de 2,75.
Embora cidades maiores possam concentrar números absolutos mais elevados, o levantamento indica que o risco proporcional de uma mulher ser vítima de feminicídio é maior em municípios menores e com menor densidade demográfica.
O estudo também mostra que, embora o feminicídio atinja mulheres de diferentes classes sociais, ele é mais frequente entre aquelas em situação de maior vulnerabilidade. A maioria das vítimas tinha renda familiar por pessoa de até cinco salários mínimos, baixa escolaridade e trabalho informal ou sem vínculo empregatício.

