Sigmund Freud disse: “O homem enérgico e que é bem-sucedido é o que consegue transformar em realidades as fantasias do desejo” – a reflexão do criador da psicanálise sobre desejo

Do ponto de vista clínico, a frase não é conselho de sucesso: é a abertura de uma explicação sobre como a fantasia frustrada se transforma em sintoma

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Sigmund Freud ministrou as Conferências Introdutórias na Universidade de Viena entre 1915 e 1917. (Foto: Reprodução)

Há um tipo de frase que sobrevive na internet porque parece dizer o contrário do que diz. Esta é uma delas. Solta, ela funciona como slogan de produtividade: quem tem energia realiza, quem não tem fica sonhando. Colada de volta ao parágrafo em que Freud a escreveu, ela deixa de ser um elogio a quem consegue e vira a primeira linha de uma explicação sobre o que acontece com quem não consegue.

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O tema do trecho não é sucesso. É fantasia. Freud está descrevendo o que ele considerava uma operação básica do funcionamento mental: a pessoa é obrigada, pela realidade, a abrir mão de satisfações que deseja, e cria internamente um território onde essas satisfações continuam existindo. Devanear sobre um desejo produz alguma satisfação real, mesmo que quem devaneia saiba perfeitamente que aquilo não aconteceu.

O homem enérgico e que é bem-sucedido é o que consegue transformar em realidades as fantasias do desejo.

A frase aparece na conferência 23, intitulada “Os Caminhos da Formação dos Sintomas, parte do ciclo que Freud ministrou em Viena e publicou em 1917. E ela não encerra o parágrafo. O que vem logo em seguida é a bifurcação: quando essa transformação falha, seja por resistência do mundo externo, seja por fragilidade do próprio sujeito, a pessoa começa a se afastar da realidade e a se retirar para o território da fantasia. É desse afastamento que Freud faz derivar a formação do sintoma neurótico.

Vale reparar na estrutura da sentença. Ela não define o bem-sucedido pelo resultado obtido, e sim por uma capacidade de conversão. “Transformar em realidades as fantasias do desejo” descreve um trânsito entre dois territórios, não uma conquista. O sujeito que Freud descreve não é o que deseja mais forte nem o que trabalha mais horas. É o que consegue fazer o desejo atravessar a fronteira em direção ao mundo, em vez de mantê-lo circulando internamente.

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O mesmo trecho oferece uma terceira saída, que costuma ser a parte mais citada por quem trabalha com arte. Freud escreve que existe um caminho de volta da fantasia para a realidade, e esse caminho é a arte. O artista, na descrição dele, converte as próprias fantasias em obra em vez de convertê-las em sintoma. As três possibilidades ficam assim desenhadas: realizar, adoecer ou criar.

Nada disso funciona como receita, e é bom que não funcione. Freud não está distribuindo um método para virar alguém enérgico, e o texto não sugere que quem não realiza seja preguiçoso ou fraco de vontade, já que ele nomeia a resistência do mundo externo como uma das causas do fracasso. O que a passagem oferece é um mapa de destinos possíveis para um desejo que não coube na realidade. Quando o afastamento se torna persistente e passa a atrapalhar a vida cotidiana, quem ajuda é um profissional de saúde mental, não uma frase.

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