Antes das anilhas e das competições, a força de Willian Brito Piovezan era medida em sacos de cimento. Nos canteiros de obra de Nova Granada, no interior de São Paulo, o então servente chamou atenção ao carregar quatro sacos de 50 kg de uma só vez. Eram 200 kg sobre o corpo, em cenas que começaram a ganhar atenção nas redes sociais e transformaram Bitelo em uma figura conhecida muito além da construção civil.
Anos depois, os quatro sacos de cimento já não bastariam para medir a força de Bitelo. Seria preciso dobrar a quantidade e acrescentar mais 20 kg para chegar ao peso que ele retirou do chão em 7 de agosto de 2026, na Islândia: 420 kg no levantamento terra, durante o Iceland’s Strongest Man.
O levantamento ganhou outra dimensão por causa de quem acompanhava tudo de perto. Hafþór Júlíus Björnsson, o islandês que viveu o personagem “Montanha” em Game of Thrones, havia erguido os mesmos 420 kg na prova. Quando Bitelo completou o movimento e soltou a barra, Hafþór abriu um sorriso, aplaudiu o brasileiro e foi até ele para um abraço.
Da construção ao powerlifting
Antes de existir plataforma, anilha ou juiz, levantar peso já fazia parte da rotina de Bitelo, só que de outro jeito. Dos 12 aos 23 anos, ele trabalhou como servente ao lado do pai e de outros familiares, carregando materiais e ajudando em obras em Nova Granada, no interior de São Paulo.
Foi nesse ambiente que a força começou a virar atração. Os quatro sacos de cimento de uma vez se tornaram a cena mais conhecida, mas estavam longe de ser a única. Em outras gravações, Bitelo aparecia levantando mesas de bilhar, estruturas usadas nas obras e até partes de veículos.
Por algum tempo, aquilo ainda era força bruta transformada em desafio e conteúdo para as redes sociais. Não havia tentativa válida, comando de árbitro ou preocupação com técnica de competição.
Essa mudança veio entre o fim de 2023 e o início de 2024. Bitelo passou a treinar para o powerlifting e levou para uma barra regulamentada a força que, até então, havia sido construída durante suas jornadas de trabalho.
Agachamento, supino e levantamento terra entraram na rotina. Poucos meses depois, ele já estaria disputando sua primeira competição.
Estreia com 331 kg
Bitelo precisou de poucos meses para trocar os vídeos de força pelas primeiras marcas oficiais. Em junho de 2024, entrou em sua primeira competição documentada e já levantou 331 kg no terra, resultado que veio acompanhado dos títulos nas categorias Open e Júnior do Campeonato Brasileiro.
Quatro meses depois, a barra ficou mais pesada e o cenário mudou de país. Na Eslováquia, durante o Mundial da GPC, ele chegou a 315 kg no agachamento, 190 kg no supino e 350 kg no levantamento terra. A soma de 855 kg garantiu a vitória na categoria Open até 140 kg.
A partir dali, os saltos ficaram menores no calendário e maiores na barra. Em 2025, vieram 370 kg no Arnold Sports Festival South America, depois 385 kg na Polônia e 390 kg em Balneário Camboriú. Em pouco mais de um ano, os 331 kg da estreia já pareciam o ponto de partida.
Barreira dos 400 kg
A marca que parecia inevitável apareceu em junho de 2026. Durante uma competição em Fortaleza, Bitelo completou pela primeira vez um levantamento terra de 400 kg.
Na mesma disputa, fez 350 kg no agachamento e 212,5 kg no supino. A soma chegou a 962,5 kg.
Menos de dois meses depois, a viagem à Islândia colocou outros 20 kg na barra. Bitelo foi convidado apenas para a prova de levantamento terra do Iceland’s Strongest Man, portanto não disputou o título geral do evento.
Quando os 420 kg deixaram o chão, Bitelo alcançou a maior marca competitiva divulgada de sua carreira.
Mesma carga do Montanha
O momento ganhou outra dimensão porque, naquela mesma prova, Hafþór Björnsson também chegou aos 420 kg. Pela primeira vez, Bitelo dividia a plataforma com um dos maiores nomes do esporte e colocava na barra exatamente a mesma carga.
A comparação, porém, precisa de contexto. Os 400 kg alcançados em Fortaleza haviam sido registrados no powerlifting. Já os 420 kg da Islândia vieram em uma prova de strongman, modalidade com regras e critérios diferentes. Por isso, a marca não se transforma automaticamente em um novo recorde federativo do powerlifting.
Ainda assim, foi o maior peso já levantado por Bitelo em competição: 20 kg acima do resultado que havia alcançado apenas dois meses antes.
O recorde absoluto, ainda está em outro patamar. Em 2025, Hafþór ergueu 510 kg no levantamento terra e levou a marca mundial a um nível que poucos atletas sequer conseguem perseguir.
O peso de uma trajetória
Bitelo ainda está longe desses 510 kg, mas já percorreu uma distância enorme desde os dias em que sua força era medida em sacos de cimento. Os quatro que o fizeram conhecido somavam 200 kg. Na Islândia, seria preciso colocar oito deles no chão e acrescentar outros 20 kg para chegar ao peso da barra.
Depois de retirar os 420 kg do chão, Bitelo soltou o peso e se levantou. Do outro lado da plataforma, o homem conhecido mundialmente como Montanha já vinha em sua direção para aplaudi-lo e abraçá-lo.
A força que um dia era medida em sacos de cimento passou a ser contada em anilhas, recordes e viagens que levaram Bitelo do canteiro de obras, no interior de São Paulo, à mesma plataforma de um dos maiores nomes do esporte.






