Na volta ao campus de Tallaght, em Dublin, Davy encontrou algo que havia começado semanas antes com um escaneamento do próprio braço. Aos 4 anos, acompanhado da mãe, Nicola, e da irmã gêmea, Daisy, ele tinha passado pelo laboratório para que estudantes registrassem suas medidas em três dimensões.
O reencontro trouxe uma peça feita para caber nele e também para parecer familiar: um braço protético com visual inspirado no Homem-Aranha, personagem de que Davy é fã. Quem transformou as medidas em um objeto real foram as estudantes de Design Biomédico Aoife O’Donnell e Áine Hughes, com o grupo voluntário 3D Assist, da Technological University Dublin.
A entrega ainda guardava outra surpresa. Ao lado da versão temática estavam mais dois braços preparados para Davy, para que ele pudesse ter alternativas em diferentes atividades. A universidade não detalhou publicamente a função de cada modelo, mas confirmou que as peças extras fizeram parte do presente.
Medidas viraram modelo
Antes de qualquer impressão, a equipe precisava entender as medidas de Davy.
Na primeira visita ao campus, o menino passou por um escaneamento 3D completo; O procedimento permitiu registrar as dimensões necessárias para desenvolver uma peça ajustada ao corpo dele, em vez de simplesmente partir de um tamanho padronizado.
Com essas informações no computador, o desenho podia ser adaptado antes mesmo de chegar até à impressora. Esse processo ganha uma importância particular na infância, quando as medidas mudam conforme a criança cresce.
A TU Dublin explica que o uso do escaneamento permite personalizar os dispositivos sem abandonar a proposta de fabricação de baixo custo do projeto.
No caso de Davy, a personalização foi além das dimensões. O braço ganhou o desenho inspirado no Homem-Aranha, aproximando uma peça funcional de um personagem que já fazia parte das referências do menino.
Três braços na entrega
Aoife e Áine poderiam ter encerrado o trabalho na primeira versão. Preferiram preparar mais duas.
A universidade informou apenas que os modelos adicionais dariam a Davy opções para atividades diferentes. Não explicou quais tarefas correspondiam a cada braço, portanto não é possível atribuir funções específicas às peças.
O trabalho foi realizado pelo 3D Assist, iniciativa voluntária ligada à Escola de Engenharia Mecânica da TU Dublin. A própria universidade informa que a fabricação para Davy foi paga com recursos levantados pelos estudantes voluntários.
Para a família, felizmente, não houve cobrança.
Projeto passou de 60
Davy não foi o primeiro a sair do projeto com uma peça feita especialmente para seu corpo.
O 3D Assist funciona há mais de uma década e já entregou mais de 60 mãos e braços protéticos impressos em 3D para crianças e famílias na Irlanda e no Reino Unido. E o melhor de tudo é que os dispositivos são produzidos gratuitamente.
Cada caso começa antes da impressora. É preciso obter medidas, escolher ou adaptar o modelo, produzir as partes e fazer os ajustes necessários para o usuário.
A universidade já informou que a produção de um dispositivo pode levar aproximadamente duas a três semanas, dependendo do caso.
A fabricação digital também permite retornar ao arquivo posteriormente e fazer novas alterações, algo especialmente útil quando quem usa a peça ainda está crescendo.
Peças têm limites
Apesar de serem chamadas de próteses pelo projeto e pela universidade, essas peças não devem ser confundidas com sistemas médicos mais avançados.
O material do 3D Assist ressalta que os modelos têm limitações e foram pensados para determinadas tarefas. Algumas versões podem auxiliar no manuseio de objetos, mas não substituem todos os recursos oferecidos por próteses clínicas mais complexas.
A proposta está justamente em criar dispositivos relativamente simples, personalizados e de baixo custo para crianças que possam se beneficiar deles.
Isso também muda o trabalho dos estudantes. Em vez de desenvolver uma peça apenas para cumprir uma etapa acadêmica, eles precisam levar em conta quem estará do outro lado da bancada, com medidas, necessidades e rotina próprias.
Do escaneamento ao braço
Para Aoife e Áine, o trabalho começou com números e um modelo digital. Para Davy, a narrativa foi diferente: começou com uma visita à universidade ao lado da mãe e da irmã.
Semanas depois, as duas partes da história se encontraram no laboratório.
O braço precisava ter as medidas certas, ser montado e funcionar dentro dos limites para os quais havia sido projetado. Mas havia um detalhe que dizia respeito somente à criança que iria levá-lo para casa.
Por fim, o que começou com um escaneamento de laboratório terminou semanas depois nas mãos de uma criança de 4 anos, transformado em algo feito para acompanhar não só o tamanho do seu braço, mas também a imaginação da sua infância.






