À primeira vista, era apenas um pequeno retrato antigo. Um homem barbudo, cabelos desalinhados e uma enorme gola de renda. Mas havia algo naquele rosto que chamou atenção de um padre em uma loja de antiguidades na Inglaterra.
Foi por isso que o padre Jamie MacLeod decidiu comprar a pintura. Pagou 400 Libras (cerca de R$ 2.900) pelo quadro e levou a obra para casa. O que ele não sabia naquele momento é que aquela escolha aparentemente simples faria com que uma pintura esquecida por décadas voltasse a ocupar um lugar importante na história da arte.
Durante cerca de 12 anos, o retrato permaneceu com MacLeod. E, nesse período, ninguém parecia imaginar que o pequeno quadro escondia uma história muito maior.
Um quadro antigo que ninguém conseguia enxergar direito
A pintura tinha um problema que dificultava ainda mais a descoberta. Em algum momento depois da década de 1630, ela havia recebido várias camadas de tinta por cima da pintura original.
Era como se a verdadeira obra estivesse escondida sob uma espécie de máscara. Por causa disso, estudiosos de Anthony van Dyck não haviam reconhecido o trabalho como sendo do artista.
O quadro continuava ali, aparentemente comum, esperando que alguém olhasse para ele de outra maneira. Até que MacLeod decidiu levá-lo a um programa de televisão.
O momento em que tudo começou a mudar
O retrato reapareceu no BBC Antiques Roadshow, programa britânico em que pessoas levam objetos antigos para serem avaliados por especialistas.
Foi ali que a história começou a tomar outro rumo. A apresentadora Fiona Bruce ficou impressionada com a pintura e pediu que o especialista em arte Philip Mould desse uma olhada mais cuidadosa da obra.
O que parecia ser apenas uma avaliação de um quadro antigo se transformou em uma investigação. E quanto mais os especialistas observavam, mais interessante aquela pintura ficava.
O resto escondia a assinatura de um grande mestre
A confirmação veio depois de uma análise mais detalhada. O quadro foi autenticado como uma obra de Anthony van Dyck, um dos grandes pintores do século 17.
Um dos elementos que ajudaram na identificação foi uma característica bastante específica da preparação da tela. A pintura apresentava uma técnica incomum.
Com uma camada de lavagem cinza sobre uma base vermelha, e o mesmo método aparecia em outros estudos ligados ao artista. Foi Christopher Brown, autoridade mundial em Van Dyck, quem ajudou a autenticar a obra.
De repente, aquele quadro comprado por 400 libras tinha uma nova história para contar.
E ainda tinha outro segredo
A descoberta não parava na assinatura de Van Dyck. Os especialistas perceberam que o pequeno retrato era, na verdade, um estudo a óleo para uma obra muito maior.
Tratava-se de um estudo relacionado ao retrato coletivo dos Magistrates of Brussels, uma pintura que acabou sendo destruída durante um ataque francês à cidade, em 1695.
Ou seja, o quadro encontrado pelo padre era uma das poucas peças sobreviventes relacionadas a uma obra que já não existe. Outro três estudos relacionados ao mesmo trabalho ainda sobrevivem.
Dois se encontram no Ashmolean Museum e outro pertence a uma coleção particular. O pequeno retrato, não era apenas um pintura antiga. Era também uma espécie de janela para uma obra perdida.
De 400 libras para até 500 mil
Foi então que veio a parte capaz de transformar qualquer compra casual em uma história extraordinária. A pintura que custou cerca de £400 passou a ter uma estimativa de venda de até 500 mil (mais de R$ 3 milhões).
A obra seria colocada em leilão pela Christie’s em julho de 2014. Mas o padre não pensava apenas no dinheiro. MacLeod pretendia usar esse valor da venda para comprar um conjunto novo de sinos para a Whaley Hall, uma casa de retiro ecumênica em Derbyshire.
A intenção era que os novos sinos estivessem prontos para tocar em 2018, no centenário do fim da Primeira Guerra Mundial.
Depois de tantos anos, o quadro já não era simplesmente um objeto antigo encontrado em uma loja. Era uma pintura que havia acompanhado MacLeod por mais de uma década até ser reconhecida como uma rara obra de Van Dyck e colocada diante de especialistas em arte.
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