Quem passa pela Rua Frederico Jensen, no bairro Itoupavazinha, precisa prestar atenção em cada metro do caminho. Onde deveria haver uma via em obras, há também buracos, trechos de chão irregular, poeira quando o tempo está seco e lama quando chove. A ciclovia desapareceu em alguns pontos e até o ponto de ônibus, segundo os moradores, deixou de oferecer uma estrutura adequada para quem espera pelo transporte.
Na manhã desta sexta-feira (21), comerciantes e moradores se reuniram para protestar depois de meses de transtornos e cobranças por uma solução para o trecho. A obra segue registrada pela prefeitura como “em andamento”, mas teve o ritmo afetado pelas consequências da Operação Ponto Final, do Gaeco, que ocorreu em maio. Os detalhes da investigação foram revelados à época com exclusividade pelo NSC Total Blumenau.
Para quem apenas atravessa a rua, o problema pode durar alguns minutos. Porém, para quem trabalha ali, a situação se repete todos os dias. Salões de beleza, restaurantes, postos de combustíveis, farmácias e outros estabelecimentos instalados ao longo da via convivem com a dificuldade de acesso dos clientes e a sujeira.
“Essa rua é uma vergonha porque eles começam tudo que é obra e não acabam uma sequer. Aqui, em dia de chuva, não se anda. O trânsito já é um caos porque é uma rua principal, de ida e volta, que vai para tudo que é lugar, e não são capazes de asfaltar esse pedaço. Horrível! Essa obra deve fazer cinco ou seis meses, já. A prefeitura não tá nem aí para nós”, desabafa a moradora da região Eliane Feldmann, de 61 anos.
Veja como foram os protestos e a situação da rua
Problemas para comerciantes e moradores
Os transtornos aparecem de diferentes formas ao longo da rua. Em dias secos, a passagem dos veículos levanta poeira, que invade todos as casas e estabelecimentos por perto. Quando chove, os trechos sem pavimentação acumulam lama e água. Buracos e desníveis dificultam a circulação de carros, motocicletas e bicicletas, enquanto pedestres precisam dividir espaços com os veículos em alguns pontos.
“É uma situação de calamidade pública real, uma situação totalmente abandonada pelo município. As crianças não têm acesso, os ciclistas não têm mais uma área de ciclovia, não existe nenhuma sinalização própria e, pior, o fato de a rodovia BR-470 estar em obras, ali no trevo, impulsiona todo o trânsito pesado para cá. O risco de vida é imediato, por isso a gente apresentou uma representação junto ao Ministério Público e exigimos imediatamente a finalização das obras”, explica a moradora Leila Franke, de 61 anos.
“Faturamento afetado”
O impacto também chega aos estabelecimentos comerciais. De acordo com os comerciantes e proprietários, a dificuldade de acesso causa prejuízo ao comprometer a circulação constante de pessoas pela região. Os comerciantes relatam que a situação tem provocado preocupação com o faturamento e, em alguns casos, levantado até a possibilidade de mudança de endereço caso não haja uma solução.
“A obra aqui na Itoupavazinha começou em março. A gente tá nessa situação, agora, quase em setembro e nada foi resolvido. A obra foi mal começada, o faturamento de todo o comércio foi afetado. Sempre digo que a gente tem uma cultura, como blumenauense, de querer tudo organizado, certinho, mas isso que a gente tem vivenciado todo dia é absurdo. Eu peço, por favor, a colaboração da prefeitura, de todo o poder público, para dar atenção a região Norte e resolver esse problema o quanto antes”, clama Josie Franke Gessner, de 41 anos, proprietária de uma cafeteria no local.
A prefeitura informou anteriormente que a reurbanização da Rua Frederico Jensen integra o pacote de investimentos do Corredor Norte. A obra tinha um contrato de R$ 11,5 milhões e permanece registrada como contrato em andamento. Inicialmente, o prazo da intervenção era até 2027, mas não há informações se esse cronograma foi alterado.
Em nota oficial, a prefeitura garantiu que a obra ainda está em andamento e confirmou que o contrato foi alvo de operação do Gaeco, mas que “imediatamente agiu para cobrar a continuidade dos trabalhos”. Além disso, destacaram que a fiscalização no local acontece de forma diária “para garantir a entrega rápida do serviço”.
“Pensando no bem-estar da população e, para conter a poeira gerada no local, vamos ampliar o número de caminhões-pipa para amenizar a situação”, termina a nota.
Entenda mais sobre a obra
A reclamação não começou no início deste ano com a obra. A Rua Frederico Jensen já era alvo de cobranças ainda mais antigas por causa das condições do pavimento, especialmente no trecho entre o início da via e a ligação com a Rua Ari Barroso. Os problemas de trafegabilidade já faziam parte da rotina de quem mora, trabalha ou passa pelo local.
A expectativa dos moradores era de que a reurbanização colocasse fim a parte desses problemas. Em março deste ano, a prefeitura iniciou a primeira etapa da obra, com previsão de intervenções em mais de um quilômetro, entre a Rua Doutor Pedro Zimmermann e a rotatória com as ruas Ari Barroso e Arno Delling.
O projeto previa melhorias na drenagem e na captação de água da chuva, recuperação do pavimento, calçadas e ciclovia. O investimento previsto foi de R$ 11,5 milhões, com recursos do Fonplata, dentro do pacote de obras do Corredor Norte.
Porém, o contrato da obra virou alvo da Operação Ponto Final, deflagrada pelo Gaeco em maio, que atingiu empresas e contratos relacionados a obras públicas em Blumenau e na região. A investigação apura suspeitas de um esquema envolvendo servidores públicos e empresários do setor de obras, com indícios de formação de cartel, fraude em licitações, superfaturamento e pagamento de propinas. A operação também determinou o bloqueio de mais de R$ 54 milhões em bens de investigados.

















