Frase do dia do Estoicismo: ‘Não são as coisas que perturbam os homens, mas as opiniões que eles têm sobre as coisas’ – a reflexão de Epicteto sobre culpa e julgamento

Quase todo mundo cita a primeira linha do capítulo 5 do Manual e para por ali: a terceira é a que separa quem começou a aprender de quem já aprendeu

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Busto ou representação clássica de Epicteto, ou, na ausência

Epicteto nasceu escravo no século 1 e ensinou filosofia depois de libertado. (Foto: Reprodução)

O e-mail chega às onze da noite com três linhas secas e nenhuma saudação. Em quinze minutos, quem recebeu já montou a história inteira: o chefe está insatisfeito, a promoção não vem, alguém falou alguma coisa. Nada disso estava no e-mail. O e-mail tinha três linhas. O resto foi construído no intervalo entre ler e responder.

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Epicteto trabalhava com essa distinção como quem separa duas pilhas. De um lado, o que acontece. Do outro, o que a pessoa conclui a partir do que aconteceu. A primeira pilha não admite negociação. A segunda é inteiramente sua, e é ali que ele localiza tanto o sofrimento quanto a saída.

Não são as coisas que perturbam os homens, mas as opiniões que eles têm sobre as coisas.

A ideia atravessou dois mil anos e reapareceu em consultório. O modelo que Albert Ellis desenvolveu na década de 1950, base da terapia cognitivo-comportamental, separa o evento ativador, a crença sobre ele e a consequência emocional, e sustenta que a emoção decorre da crença e não do evento. Ellis reconhecia a dívida abertamente. A frase de Epicteto é citada até hoje na literatura da área como antecedente direto do método.

A passagem abre o capítulo 5 do “Encheirídion”, o manual que reúne os ensinamentos dele. Vale registrar que Epicteto não escreveu nada. Nasceu escravo, foi libertado, abriu escola, e tudo o que temos foi anotado pelo aluno Arriano a partir das aulas. O capítulo continua depois da frase famosa, e ninguém costuma citar o que vem depois: acusar os outros pelos próprios males é próprio de quem não se instruiu; acusar a si mesmo é próprio de quem começou a se instruir; não acusar nem a si nem aos outros é próprio de quem já se instruiu.

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É essa terceira parte que impede a leitura fácil. A frase não diz que basta mudar a interpretação para o problema sumir, nem que quem sofre escolheu sofrer. Se dissesse, a autoacusação seria o estágio final, e Epicteto a coloca no meio do caminho, como progresso e não como chegada. Transferir a culpa de fora para dentro não é o objetivo. É apenas a segunda de três posições, e a terceira dispensa a culpa por completo.

Vale reparar em qual das três posições você ocupa com mais frequência. E vale saber que a resposta mais desconfortável, a do meio, é a que Epicteto trata como sinal de que alguém está no caminho certo.

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