Tainá Ribeiro Grisalt, de 34 anos, natural de Curitiba, já venceu o câncer duas vezes. Para celebrar a última quimioterapia, Tai resolveu fazer algo diferente: decorar um carro e sair pelas ruas de Florianópolis pedindo para as pessoas celebrarem a sua conquista na última sexta-feira (21).
Tainá é gestora de Moda e Marketing Digital, nasceu em Curitiba e se mudou para Florianópolis. Segundo ela, a história com o câncer começou no dia 28 de dezembro de 2018, aos seus 27 anos.
“Naquele dia, descobri que tinha leucemia promielocítica aguda (LPA), um tipo de leucemia muito grave e que precisava ser tratado com rapidez” disse Tainá.
A doença é um tipo raro e grave de câncer no sangue e na medula óssea que impede o amadurecimento correto de células de defesa chamadas promielócitos. Segundo Tainá, ela foi internada no Hospital Universitário (HU) de Florianópolis no mesmo dia em que recebeu o diagnóstico e só conseguiu sair 28 dias depois.
“Depois daquela primeira internação, vieram meses de tratamento. Foram aproximadamente seis meses de quimioterapia intravenosa, divididos em quatro ciclos, que eu costumava chamar de “quimioterapia vermelha”, totalizando 12 dias de quimioterapia intravenosa” afirmou.
Dificuldades na primeira batalha
Durante a primeira etapa do tratamento, Tainá teve que interromper a quimioterapia oral antes do tempo previsto, por causa dos efeitos colaterais. Para ela, uma das partes mais difíceis da primeira batalha foi lidar com a perda do cabelo.
“Naquela época, a touca de resfriamento ainda não era algo comum como é hoje. Eu não tinha muitas alternativas para tentar preservar os meus cabelos e fiz o que estava ao meu alcance para resistir até o último fio. Foi um processo muito difícil emocionalmente. O cabelo, principalmente para uma mulher, acaba tendo uma relação muito grande com a nossa identidade e com a forma como nos enxergamos. Eu tentei resistir o máximo que consegui, mas chegou o momento em que não tinha mais como esconder a realidade do tratamento”
Fotos despertaram uma nova versão
Em conversa com o NSC Total, Tainá contou que uma sessão de fotos realizada por um amigo da irmã dela mudou toda a sua visão e autoestima.
“Ele queria fazer um ensaio comigo careca. Eu aceitei. E foi durante aquelas fotos que aconteceu algo muito importante para mim: Pela primeira vez, eu me enxerguei bonita mesmo sem cabelo. Foi como se eu tivesse descoberto uma outra versão de mim. Eu percebi que a doença tinha tirado o meu cabelo, mas não tinha tirado quem eu era. Aquelas fotos acabaram se tornando uma lembrança muito forte daquela primeira batalha”
Segundo Tainá, o tratamento quimioterápico do primeiro câncer durou cerca de um ano e meio.
Segunda batalha: o câncer de mama
Em 2026, aos 34 anos, Tainá precisou ouvir novamente a palavra câncer. Desta vez, o diagnóstico foi de câncer mama, do subtipo luminal.
“Foi um daqueles momentos em que parece impossível acreditar que você está vivendo aquilo novamente. Eu já conhecia hospital, tratamento, quimioterapia, os efeitos colaterais e o medo. Mas nunca imaginei que precisaria enfrentar tudo outra vez.”
Tainá precisou fazer uma cirurgia para retirar o tumor e, 18 dias depois, precisou passar por uma segunda cirurgia por causa de uma hemorragia interna. Na segunda cirurgia, mais de 600 ml de sangue foram retirados e Tainá precisou ficar internada no hospital por mais alguns dias novamente.
Depois da cirurgia, o material retirado foi encaminhado para um patologista e mais de 10 pontos multifocais foram encontrados no quadrante que havia sido retirado pela mastologista. Diante desse novo cenário, a possibilidade da quimioterapia voltou a ser discutida.
“Precisei fazer o exame Oncotype, que foi enviado para os Estados Unidos. Foram dias muito difíceis esperando o resultado, porque ele ajudaria a definir se eu realmente precisaria fazer quimioterapia e qual seria a estratégia”
“O resultado, junto com a minha idade, eu tinha menos de 50 anos, mostrou uma probabilidade mais alta de o câncer voltar no futuro. Por isso, a quimioterapia entrou no meu tratamento como uma forma de prevenção, para diminuir o risco de uma nova ocorrência da doença”
Tainá deveria fazer seis sessões de quimioterapia. Enquanto se preparava para lutar a sua segunda batalha contra o câncer, a gestora de Marketing ainda teve que tomar uma decisão sobre seu futuro:
“Também precisei pensar em uma questão muito importante para mim: a possibilidade de ser mãe no futuro. Fiz a preservação da minha fertilidade e consegui congelar 27 óvulos. Para mim, isso representa muito mais do que um número. Foi uma forma de preservar uma possibilidade de futuro em meio a um momento em que tantas coisas estavam sendo decididas por causa da doença” afirmou.
Nova batalha e novos ensinamentos
Durante a nova batalha contra a quimioterapia, o corpo de Tainá estava mais fragilizado, o que fez com que ela apresentasse muitos efeitos colaterais.
“Foram dias de muita dor, náusea, fraqueza e dificuldade até para fazer coisas simples. Tive momentos em que caminhar era difícil, em que não conseguia me alimentar ou beber água direito e em que meu corpo simplesmente parecia não dar conta de mais nada”
Após algumas sessões, Tainá precisou enfrentar a queda de cabelo novamente. Mas, dessa vez, a realidade era diferente:
“Eu já tinha vivido aquilo uma vez. Tentei preservar os fios utilizando a touca de resfriamento, mas, em determinado momento, percebi que não conseguiria evitar a queda. Então decidi raspar a cabeça. E fiz isso ao lado do meu pai” relembra.
“Foi um momento muito doloroso, mas também muito simbólico. Na primeira vez, eu tinha tentado resistir até o último fio de cabelo. Na segunda, eu já sabia que meu cabelo não definia quem eu era. De certa forma, aquela primeira experiência tinha me ensinado a me enxergar além do cabelo”
Presente especial
No dia 20 de julho de 2026, Tainá ganhou um presente inesquecível, segundo ela: um ensaio de fashion photos feito por mulheres que se uniram para fazer com que ela se sentisse mais bonita e confiante.
“Naquela fase, eu estava vivendo um momento muito difícil. Estava tomando muitos medicamentos, corticoide, estava inchada, sem conseguir treinar e sem reconhecer o meu próprio corpo. Era muito estranho olhar para o espelho e não enxergar a pessoa que eu conhecia. E, naquele dia, alguma coisa despertou novamente dentro de mim. Eu me senti mulher. Me senti bonita. Me senti especial”
“Aquelas mulheres me ajudaram a lembrar que eu continuava sendo eu. Foi muito simbólico porque, anos antes, um ensaio também tinha sido o momento em que eu consegui me reconhecer bonita sem cabelo. Dessa vez, quase oito anos depois, aconteceu novamente. Foi como se uma parte daquela mulher que existia antes da doença estivesse despertando outra vez” relembrou.
No dia 20 de agosto de 2026, Tainá fez sua quarta e última sessão de quimioterapia.
“Para mim, foi o encerramento de um capítulo que ocupou uma parte enorme da minha vida. Essa foi a minha segunda experiência com o câncer. Primeiro, a leucemia promielocítica aguda, descoberta em dezembro de 2018, aos 27 anos. Agora, o câncer de mama, aos 34. Mas eu não gosto de contar essa história apenas como uma história de doença. Porque, no meio de tudo isso, também existe uma história de vida” disse.
Comemoração no trânsito
Nas redes sociais, Tainá publicou um vídeo mostrando que comemorou a última quimioterapia de forma diferente: ela decorou um carro e pediu para motoristas de Florianópolis buzinarem para celebrar.
Nos comentários, amigos e familiares comemoraram a vitória de Tainá. Para ela, a família e os amigos foram grandes pilares que a ajudaram a ter forças para lutar contra o câncer e lidar com a recuperação.
“Coragem mesmo com medo”
Para Tainá, a grande lição após vencer essas duas batalhas foi aprender que coragem não significa não ter medo.
“Coragem é continuar mesmo com medo. É levantar nos dias em que você não queria levantar. É entrar no hospital sabendo que vai ser difícil e, ainda assim, seguir” diz.
“Quando olho para tudo o que aconteceu, não penso apenas no câncer. Penso em tudo que sobrevivi, em tudo que precisei aprender e na oportunidade de continuar vivendo. E talvez essa seja uma das maiores coisas que eu gostaria que as pessoas entendessem quando ouvirem a minha história: o câncer faz parte da minha trajetória, mas ele não é a minha identidade “
Agora, depois de concluir a quimioterapia, Tainá ainda deverá passar por radioterapia e hormonioterapia para continuar o tratamento.
“A última quimioterapia encerrou um capítulo. Agora começa outro: o de reconstruir a vida depois de tudo isso, enquanto ainda concluo as próximas etapas do tratamento. Ainda existe tratamento pela frente. Mas existe também vida pela frente. E, depois de tudo que vivi, essa é a parte da história que eu mais quero contar.”






