A Estrela, fabricante de alguns dos mais icônicos brinquedos já lançados no Brasil, como a boneca Susi e o Banco Imobiliário, anunciou na última quinta-feira (20) que protocolou no dia 14 de agosto seu plano de recuperação judicial junto à 1ª Vara Cível da Comarca de Três Pontas, em Minas Gerais. O documento revela como a companhia pretende driblar uma crise que a arrastou para uma dívida de R$ 109,3 milhões.
No plano, a Estrela diz que o processo de recuperação judicial não servirá apenas para a reorganização do passivo, mas também como uma “oportunidade para promover uma ampla revisão de sua estrutura operacional, financeira e comercial” para retomar a competitividade nos próximos anos.
Relembre alguns dos brinquedos clássicos da Estrela
O documento define pelo menos 12 estratégias macro, listadas abaixo:
1. Redução de custos e adequação da estrutura operacional
Segundo a Estrela, o objetivo é promover uma “revisão criteriosa” de sua estrutura de custos fixos, buscando mais eficiência operacional e adequação de despesas ao atual nível da atividade. Não estão descartadas a formação de unidades produtivas isoladas (UPIs), que podem incluir a venda de ativos.
2. Gestão de rentabilidade por produto e cliente
A companhia diz que vai aprofundar a análise da rentabilidade individual de produtos e clientes para identificar oportunidades de melhoria de margens financeiras. Isso pode incluir revisão de condições comerciais, adequação de portfólio e otimização de canais de distribuição, mas sem comprometer a qualidade dos produtos associados à marca.
3. Ampliação de distribuição por meio do canal B2B
A Estrela informa que pretende ampliar presença junto a pequenos e médios comerciantes por meio de uma operação B2B (business to business, ou seja, com vendas para outras empresas em vez de vendas para o consumidor final) integrada à sua plataforma de comércio eletrônico.
“A iniciativa permitirá aumentar a capilaridade da distribuição dos produtos Estrela, alcançar clientes atualmente não atendidos diretamente pela estrutura comercial tradicional e explorar novos mercados com uma estrutura operacional mais eficiente”, vislumbra a companhia.
4. Fortalecimento dos canais digitais e da comunicação com o consumidor
Considerando o crescimento de grandes plataformas digitais e marketplaces como Mercado Livre e Amazon, a Estrela diz que pretende ampliar sua estratégia de comunicação direta com o consumidor. Entre as iniciativas previstas está a produção de vídeos, demonstrações e conteúdos relacionados aos produtos, inclusive com participação dos próprios colaboradores da companhia.
5. Exploração do mercado kidults e valorização do patrimônio histórico da marca
Outra estratégia da empresa, que completará 90 anos em 2027, é ampliar a atuação no mercado conhecido “kidults”, formado por consumidores adultos interessados em brinquedos, colecionáveis e produtos associados à memória afetiva. Para isso, itens que marcaram diferentes gerações devem ser relançados.
A Estrela já fez uma experiência nesse segmento com o relançamento da boneca da apresentadora Xuxa. No comércio eletrônico da companhia, a disponibilidade do produto se esgotou em menos de duas horas.
6. Manutenção e modernização das fábricas
A Estrela não pretende se desfazer das suas duas fábricas, instaladas em Três Pontas (MG) e Itapira (SP). Pelo contrário. A companhia pretende buscar apoio de instituições de desenvolvimento, como o BNDES, para obter linhas de financiamento destinadas à modernização do parque industrial, para aumentar a produtividade e reduzir custos de fabricação.
7. Reestruturação das fontes de financiamento
No plano de recuperação judicial, a Estrela informa que vai buscar substituir, de forma gradativa, estruturas de financiamento de curto prazo e elevado custo financeiro por linhas com prazos mais longos e custos mais compatíveis com sua geração operacional de caixa. O objetivo é enfrentar o elevado custo do capital de giro e a pressão sobre a geração de caixa, um problema observado nos últimos anos.
8. Redução dos efeitos da sazonalidade por meio da produção para terceiros
A Estrela diz que pretende estruturar uma equipe dedicada à ampliação da produção de brindes e produtos para terceiros, com foco especialmente no primeiro semestre do ano.
“A utilização da capacidade produtiva nesse período deverá contribuir para geração adicional de receitas, melhor absorção dos custos fixos industriais e redução da necessidade de contratação de capital de giro nos meses de menor faturamento”, detalha a companhia no plano de recuperação judicial.
Seria uma maneira de enfrentar a sazonalidade do mercado de brinquedos, concentrada principalmente no segundo semestre, em datas como Natal e Dia das Crianças.
9. Licenciamento das marcas Estrela
A partir de 2027, a companhia pretende ampliar a exploração econômica de seu portfólio de marcas, incluindo licenciamentos de produtos Falcon, Autorama e Susi, entre outros. A ideia é criar novas fontes de receita por meio de pagamento de royalties, sem necessidade proporcional de investimentos em produção, estoques e capital de giro.
10. Reestruturação do modelo de importação
Outra estratégia inclui a revisão da estratégia de importação, reduzindo gradativamente a necessidade de operações diretas e avaliando parcerias com tradings – que poderiam assumir os custos relacionados à importação e estruturar o financiamento dos produtos quando eles desembarcarem no Brasil.
A medida, para a Estrela, ajudaria a reduzir a necessidade de capital de giro empregada antecipadamente nas importações, com maior compatibilidade entre os desembolsos financeiros e o ciclo de venda dos produtos.
11. Expansão da Editora Estrela Cultural
Segundo a empresa, a Editora Estrela Cultural, uma das frentes de crescimento do negócio, deve ampliar seu catálogo de literatura infantojuvenil e fortalecer participações em licitações públicas, além de instituições privadas de ensino.
“O projeto busca integrar duas competências historicamente associadas à Estrela – ler e brincar –, incentivando a interação entre crianças e suas famílias”, menciona a companhia.
12. Desenvolvimento da Estrela Beauty
A Estrela Beauty, uma linha de cosméticos desenvolvidos para o público infantil, continuará tendo peso na estratégia. Mas a expansão será revista, para reduzir a necessidade de investimentos próprios.
Em vez de priorizar a abertura de lojas e quiosques próprios em shoppings, a Estrela quer ampliar presença por meio do modelo “store in store”, com espaços da Estrela Beauty em operações de terceiros, reduzindo custos de implantação e manutenção dos pontos.






