A fome pode diminuir a dor? Cientistas encontram um ‘interruptor’ no cérebro ligado à sobrevivência 

Estudo identificou neurônios que permanecem ativos durante a dor prolongada e podem ser modulados por sinais de fome, sede e medo. 

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A dor persistente pode continuar mesmo depois que o estímulo inicial desaparece, uma das questões investigadas pelos cientistas. (Foto: Wikimedia Commons)

Sentir dor depois de uma lesão faz parte do mecanismo de defesa do organismo. O problema aparece quando o incômodo continua mesmo depois que o estímulo inicial desaparece. Agora, uma equipe internacional de cientistas encontrou no cérebro um grupo de neurônios que ajuda a explicar esse processo e que também pode reduzir temporariamente a percepção da dor persistente.

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A pesquisa, liderada por cientistas da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, identificou neurônios localizados no núcleo parabraquial lateral, uma região do tronco cerebral. Essas células possuem receptores Y1 e participam da forma como o cérebro mantém e modula estados de dor prolongada. O trabalho foi publicado na revista científica Nature.

Quando a dor continua

A dor crônica se diferencia da dor aguda justamente pela duração. Enquanto a dor aguda costuma funcionar como um alerta diante de uma lesão ou doença, a dor persistente pode permanecer por mais de três meses e continuar mesmo depois da recuperação do tecido.

Os pesquisadores observaram a atividade dos neurônios Y1R em modelos pré-clínicos com ratos. Para isso, acompanharam alterações de cálcio dentro das células, uma forma de identificar quando os neurônios entram em atividade.

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O resultado revelou uma diferença importante. Em situações de dor aguda, os neurônios respondem enquanto o estímulo está presente. Já nos modelos de dor prolongada, eles continuaram ativos mesmo quando a lesão inicial deixou de ser o estímulo imediato.

O papel da fome

A descoberta ganhou outro aspecto quando os cientistas perceberam que os mesmos neurônios também recebem sinais ligados a necessidades básicas do organismo.

Fome, sede e medo podem fazer o cérebro priorizar uma necessidade de sobrevivência em detrimento da dor persistente. Nesses momentos, outras áreas liberam o neuropeptídeo Y, conhecido como NPY, que atua sobre os receptores Y1 e reduz a atividade associada à dor prolongada.

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A lógica faz sentido dentro do mecanismo de sobrevivência. Se um animal precisa procurar alimento ou escapar de uma ameaça, permanecer concentrado em uma dor que já não representa um perigo imediato poderia atrapalhar sua reação.

Os experimentos mostraram que estados de fome, sede e medo conseguiram reduzir respostas relacionadas à dor prolongada nos modelos estudados. O efeito, porém, não ocorreu da mesma forma diante de estímulos dolorosos agudos.

Um possível caminho

A identificação dos neurônios Y1R abre uma possibilidade para compreender melhor por que algumas dores continuam mesmo quando não existe uma lesão evidente no local inicialmente afetado.

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A pesquisa não apresentou um tratamento pronto para pacientes nem significa que seja possível simplesmente desligar a dor crônica em pessoas. Os experimentos ocorreram em modelos animais e servem para investigar os mecanismos envolvidos.

O estudo também levanta uma questão mais ampla sobre a própria função da dor. Em vez de funcionar como um sinal isolado, ela pode ser ajustada pelo cérebro conforme outras necessidades do organismo ganham prioridade.