Cavalo premiado é resgatado de matadouro clandestino duas semanas após se aposentar e expõe falha no sistema

Cavalo campeão de 40 corridas some do sistema oficial de fiscalização e é achado vivo em um matadouro clandestino apenas 2 semanas após a aposentadoria

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Duas semanas. Foi esse o tempo que separou a última vitória de Cheonhaengchaet de um matadouro clandestino/Foto: Divulgaçã/Pickpik

Duas semanas. Foi esse o tempo que separou a última vitória de Cheonhaengchaet de um matadouro clandestino em Jeju. O cavalo disputou 40 corridas entre 2023 e 11 de julho de 2026, acumulando cerca de R$ 550 mil (146,75 milhões de wons) em prêmios. Essa carreira que deveria garantir a um animal uma aposentadoria tranquila.

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Em 16 de julho, cinco dias depois de sua última corrida, ele foi oficialmente aposentado. No papel, o destino parecia certo: “uso de sela”, categoria reservada a cavalos que passam a viver como montaria, longe da competição. Era o final feliz previsto pelo sistema.

Mas a realidade seguiu outro roteiro. Em 31 de julho, apenas 15 dias depois, voluntários das ONGs Jeju Vegan e Jeju Haengbogine Association entraram em uma fazenda no interior de Jeju e encontraram Cheonhaengchaet ao lado de outros três cavalos aposentados e um bode preto. Ao redor, carcaças de equinos abatidas ilegalmente, sinal de que o local funcionava havia tempo como matadouro clandestino.

Como um cavalo premiado foi parar em um matadouro clandestino?

Nos registros oficiais da Associação Coreana de Corridas de Cavalos (KRA), a estatística parece animadora: 1.156 cavalos se aposentaram no último ano contabilizado, e 545 deles teriam sido convertidos para uso de sela uma taxa de conversão de 47,1%. No papel, quase metade dos cavalos aposentados ganha uma segunda vida.

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O problema está no que essa estatística não mostra. Ela nasce inteiramente da declaração do proprietário do animal (mazu) no momento da aposentadoria, uma palavra, sem qualquer checagem posterior sobre onde o cavalo está, o que faz ou se ainda está vivo.

Foi por essa brecha que Cheonhaengchaet passou: existiu no papel como “cavalo de sela”, enquanto na prática seguia para uma fazenda ligada ao abate ilegal. E ele não é o primeiro sinal de alerta. Em abril, a Jeju Vegan já havia visitado um haras onde o sistema registrava 156 cavalos aposentados e não encontrou um único animal no local.

Foi essa distância entre a estatística e a realidade que levou a Jeju Vegan a agir. Em 24 de agosto, a ONG protocolou um pedido de auditoria pública junto ao Conselho de Auditoria e Inspeção da Coreia do Sul, questionando tanto o cálculo do índice quanto seu uso em avaliações oficiais. A resposta da KRA foi direta: a posse dos cavalos pertence aos proprietários, e a entidade não tem autoridade legal para intervir.

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Resgate ou descaso? A disputa sobre quem chegou primeiro

Se a estatística já divide opiniões, o próprio resgate de Cheonhaengchaet virou outro campo de batalha. Nos comunicados oficiais, a KRA descreveu uma operação eficiente: um sistema de resgate emergencial acionado em parceria com o governo de Jeju e abrigos de proteção, que teria salvado os quatro cavalos encontrados no local.

As ONGs que primeiro chegaram à fazenda contam uma versão bem menos harmoniosa. Nos dias 3 e 4 de agosto, elas dizem ter tentado contato repetidas vezes com o centro de monitoramento de proteção a cavalos e não ter conseguido resposta alguma. Foi a prefeitura de Jeju, segundo as organizações, quem finalmente conseguiu que o proprietário abrisse mão da posse dos animais, encaminhados depois a um centro de treinamento da Universidade de Jeju.

Pressionada, a KRA admitiu uma falha técnica na linha de atendimento emergencial justamente nos dias 3 e 4 mas insiste que já sabia do caso desde 1º de agosto, quando teria sido avisada por uma linha direta e repassado a situação ao abrigo local, solicitando o resgate.

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O que esse caso revela sobre o setor de corridas na Coreia do Sul

No fim, a trajetória de Cheonhaengchaet funciona como um espelho para todo o sistema. Um índice de “conversão para uso de sela” que não verifica sobrevivência nem paradeiro deixa margem para que outros animais premiados desapareçam do radar institucional em poucas semanas, exatamente como quase aconteceu aqui.

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