Lares de um só: SC lidera número de pessoas morando sozinhas, mas rotina revela o preço da independência

Número de pessoas morando sozinhas no Estado é o maior em 13 anos, segundo dados apresentados pelo IBGE

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Lares de um só cada vez mais catarinenses moram sozinhos, mas rotina revela o preço da independência

Venezuelano Alejandro Adams, de 28 anos, equilibra os prós e contras sobre viver sozinho em Blumenau. (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

Às 17h30min, a porta do apartamento se abre e, antes mesmo de pensar em descansar, Alejandro Adams começa a segunda jornada do dia. Tem roupa para lavar, comida para preparar, banheiro para limpar e a marmita do dia seguinte para organizar. Tudo depende dele. Aos 28 anos, o venezuelano que trabalha na área da tecnologia, em Blumenau, conhece bem a sensação de chegar cansado e descobrir que a casa inteira ainda espera por ele. Há seis anos ele mora sozinho, uma experiência que descreve como libertadora, mas que também cobra um preço alto.

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“As pessoas pensam muito na independência, mas pouco na realidade. Se eu pudesse dar um conselho para quem quer morar sozinho hoje é pensar muito bem se realmente precisa fazer isso. Se eu pudesse voltar no tempo, teria ficado um pouquinho mais com meus pais. Teria aproveitado um pouquinho mais, teria feito outros projetos, porque conciliar a vida de trabalho com a vida pessoal, o dia a dia é bem cruel“, aconselha.

Quem imagina a vida solo somente como um símbolo de autonomia dificilmente enxerga o acúmulo de pequenas tarefas que ocupam cada intervalo do dia. A cama desarrumada de manhã continua desarrumada à noite. O lixo não se tira sozinho. A roupa não aparece lavada e passada magicamente no guarda-roupa. Com isso, Alejandro aprendeu que viver sozinho exige menos perfeccionismo e mais estratégia. Em vez de tentar fazer tudo de uma vez, ele distribui as tarefas ao longo da semana. Na sexta-feira, por exemplo, antes de receber um amigo para colocar a conversa em dia, reserva algumas horas para organizar a casa.

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Natural de Caracas, na Venezuela, Alejandro chegou ao Brasil em 2018, aos 20 anos, para recomeçar a vida ao lado do pai, que já morava em Blumenau. Dividiu apartamento com familiares até conquistar a própria independência. Ele conta que montar a casa foi um processo lento, que levou mais de um ano. Primeiro vieram a cama, o fogão e a geladeira. O restante chegou aos poucos, quase sempre parcelado. Hoje, ao olhar para trás, diz que morar sozinho trouxe disciplina, responsabilidade financeira e uma nova percepção sobre o tempo, mas também o fez valorizar mais a convivência familiar e a presença de amigos.

“Uma coisa assim é verdade: morar sozinho é muito bom, é libertador, não troco por nada“, reflete.

Fora do trabalho, Alejandro encontra um contraponto para a rotina nos ensaios do Camerata Vocal de Blumenau, pelos quais ele espera ansiosamente. Alejandro canta em corais desde a infância e vê na música um espaço de convivência que ameniza o peso de uma rotina em que todas as responsabilidades passam por ele. Além disso, entendeu que morar sozinho não significa viver sozinho. A independência que buscou ao deixar a Venezuela se sustenta justamente na rede de amizades e afetos que construiu desde que chegou ao Brasil.

Confira as 10 capitais brasileiras com mais pessoas morando sozinhas

Número de unidades unipessoais triplicou na Capital em 13 anos

Santa Catarina registrou em 2025 o maior número de pessoas morando sozinhas em 13 anos, mostram os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados no começo deste ano. Em 2012, o percentual de lares unipessoais era de 11,6% (247 mil). No ano passado, o valor subiu para 18,3% (563 mil).  

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Em Florianópolis, esse aumento de unidades unipessoais mais que triplicou: de 23 mil em 2012 para 79 mil em 2025, o maior percentual de lares unipessoais entre as capitais do Brasil. O crescimento mais expressivo apresentado ao longo da série histórica foi de 2024 para 2025, quando atingiu a maior quantidade de lares unipessoais.

O aumento de pessoas morando sozinhas em Santa Catarina tem como um dos catalisadores a forte atratividade econômica do Estado, segundo Roberto Kern Gomes, Superintendente Estadual do IBGE em Santa Catarina. O especialista destaca que Santa Catarina registrou o maior saldo migratório do país, computando uma diferença positiva de 354 mil pessoas entre aqueles que decidiram adotar o Estado como lar e os que saíram dele.

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 “Normalmente, estes migrantes vêm primeiro em busca de trabalho e, na sequência, quando já estão estabilizados, trazem seus familiares. Esse intervalo temporal de transição e estabelecimento profissional faz com que milhares de novos moradores habitem, temporariamente ou de forma definitiva, residências individuais”, explica.

No estado catarinense, os homens são os que mais moram sozinhos, com 301 mil domicílios. As mulheres correspondem a 263 mil. A faixa etária predominante que reside neste tipo de domicílio é dos 30 aos 59 anos (48,7%). O aumento de pessoas morando sozinhas em Santa Catarina acompanha um crescimento nacional, que também dobrou o número de domicílios deste tipo, passando de 7,4 milhões em 2012 para 15,6 milhões em 2025.

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Municípios catarinenses com maior proporção de pessoas morando sozinhas

Pessoas de 60 anos ou mais que moram sozinhas

Balneário Camboriú é a cidade de Santa Catarina em que mais pessoas moram sozinhas, com 27,03% de todos os lares da cidade sendo ocupados por apenas um morador. Segundo o IBGE, a cidade do Litoral Norte de Santa Catarina tem 15.646 casas com apenas uma pessoa. A liderança do município pode ter relação com o número de idosos morando sozinhos no local.

De acordo com o Superintendente Estadual do IBGE em Santa Catarina, embora a cidade ocupe apenas a 12ª posição em população total no Estado, ela salta para o 6º lugar quando o recorte isola pessoas de 60 anos ou mais que moram sozinhas. São 5,5 mil idosos vivendo no município, superando pólos urbanos consideravelmente maiores em termos populacionais, como Itajaí, Chapecó, Lages e Palhoça.

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Marlene Kaltmeier está entre as idosas de Balneário Camboriú. Com 71 anos, ela vive sozinha na cidade há 47 anos, desde que se mudou de São Paulo para Florianópolis.

“Tenho total independência, fazendo meus próprios horários, inclusive das rotinas diárias. Tenho algumas limitações por causa de uma queda, mas o prazer de fazer o que eu quero na hora que eu quero supera tudo“, elabora.

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Apesar de gostar da liberdade que viver sozinha traz, ela destaca que é preciso adotar algumas medidas de segurança.

“Já foi uma cidade segura. Não saio de casa depois que escurece. Tenho grades, alarme e câmeras na casa. Fecho as portas às 18h”, relata.

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A expectativa do especialista do IBGE é de que a tendência dos moradores solitários continue crescendo em Santa Catarina. Isso porque a população do Estado vai aumentar nos próximos anos.

“Segundo as projeções do IBGE, o Estado deve passar de 10,5 milhões de habitantes na década de 60 deste século. Assim, este cenário pode continuar ocorrendo”, finaliza Roberto Kern Gomes.

Cidades com menor percentual de pessoas morando sozinhas