Lilia Cabral disse: “Minha autoestima sempre foi bem abalada, mas nunca deixei de ter força para lutar pelas coisas que queria”

Entenda por que a resposta que a atriz deu à Marie Claire separa duas coisas que quase todo mundo confunde, e por que essa separação muda o que se espera de si mesmo

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Atriz Lilia Cabral

Lilia Cabral estreou na televisão em 1981 e assinou com a TV Globo em 1984. (Foto: Manoella Mello, Globo)

Existe um tipo de pessoa que ninguém identifica de fora. Ela entrega o trabalho, sustenta a conversa difícil, aceita o convite que assusta. Por fora, parece resolvida. Por dentro, refaz o e-mail quatro vezes antes de enviar, revisa o que disse na reunião durante o resto do dia e nunca acha que o resultado foi suficiente. As duas coisas coexistem, e a segunda não impede a primeira.

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Quase todo vocabulário disponível trata isso como contradição. Se alguém age, presume-se confiança. Se alguém duvida de si, presume-se paralisia. Falta uma palavra para o estado intermediário, que é onde mora bastante gente: a pessoa que se avalia mal e faz assim mesmo. Sem essa palavra, quem está ali costuma concluir que é fraude, e quem observa de fora costuma concluir que é segurança.

Foi exatamente essa distinção que Lilia Cabral fez em 2023, ao ser perguntada pela revista Marie Claire se era insegura com alguma coisa. Ela não respondeu que não. Respondeu separando duas coisas.

Minha autoestima sempre foi bem abalada, mas nunca deixei de ter força para lutar pelas coisas que queria. Meus pais tentavam me deixar mal mas, inconscientemente, eu lutava para não absorver esse comportamento deles. Acho que, se eu fosse uma pessoa insegura, não teria feito tantas coisas na minha vida porque a insegurança é o primeiro passo para você desistir. E eu nunca desisti de nada.

Em qual das duas metades você se reconhece?

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O que essa declaração ensina sobre autoestima

A frase mais compartilhada dessa resposta é a última, sobre insegurança e desistência. Lida sozinha, ela soa dura e quase acusatória, como se dividisse o mundo entre quem tem confiança e quem abandona as coisas pelo caminho.

A primeira frase desmonta essa leitura. Ao dizer que a própria autoestima sempre foi bem abalada, Lilia se coloca do lado de quem duvida de si, não do lado de quem nunca duvidou. E ainda assim conclui que não é insegura. O que ela está separando, portanto, não é gente forte de gente fraca. É a avaliação que alguém faz de si mesmo, que pode ser péssima, do comportamento que decorre disso, que pode ser outro.

A ilusão da confiança versus a evidência do que foi feito

O modelo de autoconfiança que circula em conteúdo motivacional funciona em uma ordem específica: primeiro a pessoa se convence do próprio valor, depois age. Quem não completa a primeira etapa fica esperando.

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A ordem que aparece na resposta dela é inversa. A autoestima permaneceu abalada, e o critério de avaliação passou a ser outro: o que foi efetivamente feito. Ela não afirma ter se sentido capaz. Afirma que fez tantas coisas que a hipótese da insegurança não se sustenta diante do histórico. É um argumento baseado em registro, não em sensação.

A diferença é prática. Sentimento sobre si mesmo oscila com o dia, o cansaço e o comentário da manhã. Aquilo que já foi feito não oscila.

Os sinais de que as duas coisas não são a mesma

Vale reparar em três marcadores que a resposta dela oferece, e que costumam ser confundidos.

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O primeiro é a origem. Ela atribui a autoestima abalada ao comportamento dos pais, algo que veio de fora e que ela diz ter combatido inconscientemente para não absorver. Não é traço nato nem falha de caráter.

O segundo é a permanência. O verbo que ela usa é “sempre foi”, no presente contínuo da vida inteira, e não “eu era”. Não há relato de cura, e sim de convivência.

O terceiro é o resultado. Trinta novelas, treze peças, dez filmes, uma estreia na TV em 1981 e um contrato com a Globo em 1984. Duas indicações ao Emmy Internacional de melhor atriz. A primeira protagonista de novela veio aos 54 anos, em “Fina Estampa”, e ela conta que duvidou até o último momento de que aconteceria. Duvidar até o fim e ir assim mesmo é precisamente o comportamento que a resposta descreve.

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Você pode gostar de ver também a frase do dia da filosofia: “A atenção é a forma mais rara e mais pura da generosidade”, a reflexão de Simone Weil sobre o que realmente se dá a alguém.