Existe uma distância confortável entre a pessoa e quase todo problema do mundo. A miséria de uma cidade, o abandono de alguém, uma crueldade cometida por um desconhecido. São coisas que se lamenta sem que ninguém precise assinar embaixo, porque não há como estabelecer culpa individual.
O escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821 a 1881) escreveu uma linha que fecha essa distância:
Cada um de nós é culpado diante de todos, por todos e por tudo.
A passagem está em “Os Irmãos Karamázov”, publicado em folhetim entre 1879 e 1880. Foi o último romance de Dostoiévski, que morreu poucos meses depois de concluí-lo.
A frase costuma ser atribuída ao stárets Zósima, o monge idoso do livro, e ele de fato a repete. Mas não é dele. Zósima está citando o próprio irmão mais velho, Markel, que morreu de tuberculose aos dezessete anos.
Markel havia sido, até adoecer, um rapaz irritado e desdenhoso, que zombava da religião e maltratava a criadagem. Nas últimas semanas de vida, mudou. Passou a pedir perdão aos criados, a olhar os pássaros pela janela, a dizer à mãe que não valia a pena chorar. É nesse estado que ele formula a frase, no leito de morte, para uma família que não entende o que está acontecendo com ele.
A linha quase sempre circula até “por tudo”. No romance, ela não termina ali. Markel acrescenta que é culpado diante de todos, por todos e por tudo, e mais do que os outros.
Esse acréscimo desmonta a leitura confortável. Sem ele, a frase distribui a culpa por igual, o que é outra maneira de diluí-la: se todos são culpados de tudo, ninguém é culpado de nada em particular. Com ele, a conta volta para quem fala.
E há a ironia estrutural, que o romance inteiro constrói: “Os Irmãos Karamázov” é um livro sobre um assassinato em que o homem condenado não é o que matou. Um irmão desejou a morte do pai, outro forneceu o argumento intelectual, um terceiro executou. A frase de Markel é a chave de leitura de todo esse arranjo.
Cento e quarenta anos depois, a linha aparece em discursos, epígrafes e textos sobre responsabilidade coletiva, quase sempre sem o “mais do que os outros” no fim.
É justamente esse pedaço que a impede de ser uma frase confortável. Sem ele, ela absolve todo mundo. Com ele, ela não absolve quem está falando.
