Há lugares que parecem resistir ao tempo. Endereços que se tornam testemunhas das mudanças da cidade. Em Blumenau, que completa 176 anos nesta quarta-feira (2), não é diferente. Alguns comércios carregam décadas de histórias. São lojas, restaurantes e cafés onde gerações se encontram e clientes viram amigos.
No coração do município, a relojoaria e ótica Universal nasceu de uma sociedade entre genro e sogro. São 55 anos na Rua XV de Novembro, embora a loja tenha começado do outro lado da via, em um pequeno espaço de 10 metros quadrados. A empresa foi criada pelo avô e pelo pai de Alexandre Ranieri Peters.
Do outro lado da rua, quando a loja ainda estava começando, trabalhava Alex Evaristo. Foi com o salário de balconista de lanchonete que ele juntou dinheiro para comprar os primeiros óculos na Universal. Parcelou a conquista no carnê. O primeiro de mais de 70 que guarda até hoje de recordação.
O crediário, aliás, é uma das mudanças que Peters acompanhou ao longo das décadas. Para ele, o pagamento no cartão acabou diminuindo uma relação próxima que existia entre vendedor e comprador.
Comércios que viram ponto obrigatório
Mais adiante, ainda na Rua XV, outra tradição permanece de portas abertas. Desde 1982, o União Lanches reúne fregueses que, com o tempo, deixaram de ser apenas clientes.
Sérgio Luiz Zen chegou como funcionário e, sete anos depois, comprou a lanchonete. Hoje, a gestão é familiar. E, daquelas mesas, o empreendedor viu Blumenau se transformar. Ele lembra de uma Rua XV diferente, com mais turistas, principalmente argentinos, e do vapor Blumenau funcionando, com bandinha tocando.
André Goede da Silva foi ao local pela primeira vez aos 18 anos, depois de sair do alistamento do Exército. Parou para fazer um lanche e, desde então, continua voltando.
Torta famosa de Blumenau

Saindo da Rua XV e seguindo pelo Centro, outra parada é o Cafehaus Glória, dentro do hotel. Ali, as memórias também fazem parte do cardápio.
Patrícia Mueller Weiers frequentava o café desde o namoro com o marido. Depois, voltou para tomar o primeiro café após o resguardo do nascimento do filho. Anos mais tarde, o lugar ganhou outro capítulo da história da família: o bolo do aniversário de 25 anos de casamento foi feito ali.
A história do café começou com a família de Lothar Klemz. No fim da década de 1970, o hotel precisava de um espaço maior para servir o café da manhã aos hóspedes. A confeitaria também já recebia encomendas para casamentos, comunhões e outras celebrações.
O que inicialmente atendia hóspedes e encomendas acabou sendo aberto ao público.
E deu certo.
Entre os quitutes que ajudaram a construir essa história está a famosa Torta Glória. A sobremesa com morangos chegou até o programa Mais Você, da Ana Maria Braga, depois que a receita venceu uma votação feita pelos telespectadores no início dos anos 2000. O que muita gente não sabe é que a receita original levava uva. A troca de fruta veio depois.
Outro acerto.
Personagens da história catarinense
Também no Centro, a Casa Brueckheimer completa em 2026 80 anos. O nome do calçadão Eugênio Brueckheimer faz homenagem a um dos fundadores do comércio.
A história começou com o pai e o tio de Eugênio Filho, que trabalhavam no segmento calçadista, como representantes e fabricantes de calçados. Quando abriram a loja, o negócio vendia de tudo um pouco: produtos de sapataria, estofaria, tecidos e até um pequeno segmento de material de construção.
Com o passar dos anos, a cidade e o varejo mudaram. A loja também. Hoje, é especializada em linhas e aviamentos. A família, porém, continua presente. Eugênio chegou ao negócio em 1996, mas praticamente todos os familiares já passaram por ali. Até amigos da fizeram parte dessa trajetória. Entre eles, Hercílio Deeke, que foi prefeito de Blumenau e governador de Santa Catarina, chegou a ser sócio do pai de Eugênio.

Mas a história de Blumenau não está apenas no Centro.
No Garcia, a Churrascaria Tiefensee guarda uma história que começou em tom de lazer, em 1933.
O avô de Priscila Tiefensee tinha uma padaria ao lado e começou a assar costela para os amigos. Era mais um Stammtisch do que uma churrascaria. Aos poucos, a carne fez sucesso e o espaço passou a receber o público.
De lá para cá, o lugar cresceu, mas manteve a essência: decoração rústica, mesas de madeira e as tradicionais toalhas.
Às quartas-feiras, Valdir João Voltolini sai do escritório de contabilidade, na Velha, para almoçar ali. É um hábito de 40 anos. Ele já levou a família e mantém a quarta-feira como compromisso.
“É sagrado”, afirma.
Talvez seja justamente essa a característica que une todos esses endereços: não são apenas lugares para comprar algo, comer ou tomar um café. São espaços onde as pessoas voltam porque mexem com a memória afetiva delas. Não é apenas o produto vendido, a receita ou a tradição, mas sim a capacidade de fazer com que alguém se sinta em casa…
…Em Blumenau.
