Quando saiu do Jardim Rio Branco, em São Vicente, no dia 3 de abril, Georgios Aciro Sarmento Beinis tinha uma bicicleta usada, R$ 48 na conta e um destino definido: Ushuaia, no extremo sul da Argentina. Aos 30 anos, havia deixado o trabalho de ajudante de pedreiro para cruzar a América do Sul pedalando. Meses depois, já na província de Mendoza, surgiu um problema fora do roteiro: sua conta bancária foi bloqueada.
A decisão começou a ser construída cerca de um ano antes da partida. Georgios acompanhava relatos de pessoas que percorriam o continente de bicicleta, pesquisava rotas e tentava entender como transformar aquele desejo em um plano possível. Em abril, pediu demissão, pegou a estrada e aceitou viajar com recursos mínimos.
O valor disponível não permitia uma jornada confortável. Para economizar, ele passou a dormir em barraca, procurar locais onde pudesse acampar e contar com o apoio de seguidores para comprar comida, equipamentos e peças. A rotina incluiu refeições simples, longos deslocamentos e a necessidade de resolver cada problema conforme ele aparecia.

Uma bicicleta no limite
A Azulzinha, como Georgios chama a bicicleta, deixou de ser apenas o meio de transporte e passou a concentrar boa parte das dificuldades do percurso. Marchas, freios, pneus, rodas e bagageiro apresentaram problemas em diferentes momentos.
Depois de percorrer 20 quilômetros a partir de San Luis, ele teve um pneu furado e precisou voltar pelo mesmo caminho. Em uma bicicletaria, o dono reconheceu o viajante pelas redes sociais e entregou os parafusos necessários para o reparo. Mais adiante, uma seguidora ajudou com um pneu novo para a parte dianteira.
Os defeitos, porém, não interromperam o trajeto. Durante a passagem pelas Altas Cumbres, na Argentina, Georgios empurrou a bicicleta por cerca de 100 quilômetros em uma região a aproximadamente 2.850 metros de altitude. Em outro dia, percorreu 140 quilômetros em dez horas para chegar a San Luis.

O frio desacelerou o ritmo
As montanhas trouxeram outro tipo de dificuldade. As roupas levadas do Brasil não eram suficientes para as temperaturas da região, e o ciclista precisou improvisar camadas para continuar protegido. Chegou a usar quatro calças, três blusas, várias meias e um cachecol ao mesmo tempo.
Depois, conseguiu comprar roupas térmicas, incluindo calça, blusa e luvas. A mudança ajudou a enfrentar o frio, mas não eliminou o desgaste de pedalar por estradas extensas, carregar equipamentos e montar a barraca ao fim do dia.
Dinheiro ficou inacessível
Em 15 de agosto, surgiu o problema mais delicado da viagem. Segundo o relato feito por Georgios a A Tribuna, a instituição financeira bloqueou a conta que concentrava dinheiro suficiente para aproximadamente dois meses de percurso. Até então, ele não havia recebido uma explicação para a medida.
O bloqueio também atingiu os valores enviados por seguidores via Pix e o dinheiro arrecadado em rifas para ajudar a custear a expedição. Sem conseguir movimentar o saldo, Georgios passou a usar outra conta para converter os recursos em pesos argentinos.
Ele levantou a possibilidade de uma denúncia ou de um estorno, mas a causa não havia sido confirmada, segundo relato acessível do caso publicado pelo Cidade a Cidade.
Ainda faltam quilômetros
Em 27 de agosto, Georgios estava em Pareditas, na província de Mendoza, e calculava que ainda precisava percorrer cerca de 3,1 mil quilômetros até Ushuaia. Se as condições climáticas permitissem, estimava concluir o trecho em aproximadamente 30 dias.
A viagem também carrega uma história familiar marcada por mudanças. Nascido na Grécia, Georgios foi criado em São Vicente desde os três anos. O pai morreu quando ele ainda era criança, e o irmão, que vive no Jardim Rio Branco, tornou-se seu principal vínculo familiar próximo.
Depois de tantos quilômetros, a viagem passou a ser medida por coisas menores e concretas. “Feliz no simples”; um banho quente, uma tomada para carregar equipamentos ou a ajuda de alguém desconhecido ganharam mais importância durante o percurso. Em um relato publicado por A Tribuna, Georgios resumiu o que encontrou na estrada:
“A felicidade está nas pequenas conquistas, não apenas no destino.”
