A reunião está no fim quando o chefe se vira para o analista e diz, na frente de todo mundo: “Isso está errado, eu já expliquei isso três vezes”. Ninguém aprende nada naquele instante. O analista só aprende que não vai perguntar de novo.
A cena tem versões domésticas. O pai que compara o boletim do filho com o do sobrinho. O professor que ri de uma dúvida “básica” e a turma inteira decide que é melhor ficar calada.
Em todas elas, alguém usa o que sabe como arma. É exatamente contra isso que Mário Sérgio Cortella costuma dizer, em suas palestras: “O conhecimento serve para encantar as pessoas, não para humilhá-las”.
Quem é Mário Sérgio Cortella?
Cortella nasceu em Londrina, no Paraná, em 5 de março de 1954. Formou-se em Filosofia e fez mestrado e doutorado em Educação na PUC-SP, onde deu aulas de 1977 a 2012. Seu doutorado teve como orientador Paulo Freire, de quem foi secretário-adjunto e, depois, sucessor: em 1991 e 1992, Cortella foi secretário municipal de Educação de São Paulo, na gestão de Luiza Erundina.
É autor de mais de 40 livros, entre eles A escola e o conhecimento (1998), Qual é a tua obra? (2007) e Por que fazemos o que fazemos? (2016). Nos últimos anos, tornou-se um dos palestrantes mais requisitados do país e mantém o Canal do Cortella, no YouTube, onde publica trechos de aulas e conversas.
O que Cortella quis dizer com encantar?
A palavra não é decorativa. Cortella vem de uma tradição, a de Paulo Freire, em que ensinar não é depositar conteúdo em alguém, e sim provocar em outra pessoa a vontade de saber. Encantar, nesse sentido, é fazer o outro querer continuar.
Humilhar produz o efeito contrário: encerra a conversa. Quem foi exposto para de perguntar, e quem para de perguntar para de aprender. A frase, portanto, não é um conselho de boas maneiras. É uma regra sobre para que serve o conhecimento quando ele está em circulação entre pessoas.
Em Educação, escola e docência, Cortella dá nome a esse princípio: humildade pedagógica. A ideia é que só ensina bem quem aceita que também está aprendendo, e que ninguém detém o saber a ponto de poder usá-lo para diminuir alguém.
Como reconhecer quando o conhecimento vira humilhação?
O problema raramente é o conteúdo da correção. É o formato. Alguns sinais aparecem com frequência em casa, na escola e no trabalho:
- A plateia é o alvo real: a correção acontece em público quando poderia ser feita em particular.
- A pergunta vira julgamento: “você não sabia disso?” substitui a explicação.
- A comparação entra no lugar do critério: “o seu primo já faz isso” não ensina nada sobre a tarefa.
- A piada fecha a porta: o riso diante de uma dúvida garante que ela não será repetida.
- A memória vira acusação: “eu já expliquei três vezes” transfere a culpa de quem não conseguiu ensinar para quem não conseguiu entender.
O que a frase não significa?
Encantar não é suavizar tudo. Cortella não defende que erros sejam ignorados nem que o professor deixe de corrigir para não constranger. A correção continua existindo; o que muda é o objetivo.
Corrigir para que a pessoa acerte na próxima é ensinar. Corrigir para que todos vejam quem sabe mais é outra coisa, e o filósofo dá a ela o nome direto: humilhação. A diferença está em quem sai maior da cena, o aprendiz ou quem corrigiu.
Mas Cortella realmente disse essa frase?
Sim, com uma ressalva. A frase é dele, no sentido de que ele a repete em palestras e ela é citada com seu nome há anos, inclusive em texto acadêmico sobre seus discursos em vídeo. O que não se localizou foi a origem exata: em qual livro, aula ou gravação ela apareceu pela primeira vez.
Por isso, o mais correto é dizer que é uma frase que Cortella costuma usar, e não citá-la como trecho de determinada obra. Quem quiser ouvi-la na voz dele encontra variações no Canal do Cortella.
Por que essa reflexão de Cortella continua atual?
Nunca houve tanta gente sabendo tanto e tão disposta a mostrar. A correção pública virou gênero de conteúdo, e a dúvida alheia virou matéria-prima para quem quer parecer inteligente.
A frase de Cortella devolve uma pergunta simples para quem ensina, chefia ou cria filhos: da última vez que você corrigiu alguém, a pessoa saiu sabendo mais ou saiu sabendo que você sabe mais? Se foi a segunda opção, o conhecimento não serviu para o que deveria.
