Frase de Arthur Schopenhauer, filósofo do pessimismo: “A riqueza é como a água do mar; quanto mais bebemos, mais sede sentimos”

O aforismo de 1851 tem uma segunda parte quase sempre cortada, e ela amplia a sede da riqueza para outra coisa que hoje se mede em seguidores

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Frase de Arthur Schopenhauer

A frase que serve para quem já mudou três vezes o valor que "resolveria a vida". (Foto: Reprodução)

Aos 25 anos, a pessoa tinha um número: “com cinco mil por mês, eu fico tranquilo”. Chegou lá. O número virou dez. Depois vinte. A cada meta batida, o “tranquilo” andou para a frente na mesma proporção, como uma linha de chegada com rodinhas.

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Isso não é falha de caráter nem falta de gratidão. É uma regra, e ela foi descrita com uma imagem precisa há mais de 170 anos.

Arthur Schopenhauer escreveu, em 1851: “A riqueza é como a água do mar; quanto mais bebemos, mais sede sentimos”. E emendou uma frase que quase ninguém cita: “O mesmo vale para a fama”.

Quem foi Arthur Schopenhauer antes desta reflexão?

Schopenhauer nasceu em 22 de fevereiro de 1788, em Danzig, hoje Gdansk, na Polônia, filho de um comerciante rico. A herança do pai, que morreu quando ele tinha 17 anos, permitiu que vivesse de renda a vida inteira, sem depender de cátedra ou de vendas, segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy.

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Sua obra principal, O mundo como vontade e representação, saiu em 1818 e foi ignorada por décadas. A fama só chegou em 1851, com Parerga e Paralipomena, coletânea de ensaios em que está o texto dos Aforismos para a sabedoria de vida. Morreu em 21 de setembro de 1860, em Frankfurt, onde viveu sozinho por quase trinta anos, na companhia de uma sequência de poodles.

O que Schopenhauer quis dizer com água do mar?

O aforismo aparece no capítulo “Do que alguém tem”, em que Schopenhauer discute o papel dos bens na felicidade. Ele não é contra o dinheiro; ao contrário, diz que a riqueza é útil justamente por libertar das necessidades e das pessoas. O que ele descreve é outra coisa: a impossibilidade de saciar o desejo por meio do objeto desejado.

Isso se liga ao centro da sua filosofia. Para Schopenhauer, o fundo de tudo é a vontade, um impulso cego e sem fim que se manifesta em cada ser vivo como desejo. Cada desejo satisfeito abre espaço para o próximo; a satisfação é sempre breve, e a falta é o estado normal. A água salgada é a imagem perfeita: parece matar a sede e a aumenta.

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Por que o dinheiro não sacia?

A imagem da água do mar explica situações que quase todo mundo reconhece:

  • A meta que anda: o valor que “resolveria” a vida sobe junto com a renda.
  • A comparação que muda de andar: quem sai do bairro passa a se comparar com o novo bairro.
  • O medo que cresce com o patrimônio: quanto mais se tem, mais há a perder, e a sede vira ansiedade.
  • O consumo que envelhece rápido: o carro novo vira carro em poucos meses.

Schopenhauer resumia isso com outra fórmula do mesmo livro: a riqueza é relativa ao que cada um espera, e a expectativa cresce com a posse.

O que a frase não significa?

Não é um elogio à pobreza. Schopenhauer viveu de herança, cuidou dos investimentos com atenção e escreveu que quem nasceu com fortuna e a perdeu sofre mais do que quem nunca a teve. A água do mar não é ruim; o erro é esperar que ela mate a sede.

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Também não é uma defesa do desapego total. O que o filósofo propõe, no mesmo capítulo, é uma correção de expectativa: usar a riqueza para reduzir sofrimento, não para buscar uma satisfação que ela não pode dar.

Onde a frase aparece na obra?

Em Aforismos para a sabedoria de vida, capítulo 3, dentro de Parerga e Paralipomena, volume 1 (1851). É um texto publicado em vida e revisado pelo autor. A tradução brasileira de Jair Barboza mantém a frase completa, com a menção à fama, que a versão das redes costuma cortar.

Por que essa reflexão de Schopenhauer continua atual?

A segunda parte do aforismo, a que fala da fama, ganhou uma tradução moderna: seguidores, curtidas, visualizações. Nenhuma dessas medidas tem ponto de saciedade, e quem as persegue conhece a sede de que Schopenhauer fala. O mecanismo é o mesmo do dinheiro, só que mais rápido.

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A pergunta que fica não é quanto você precisa para ficar tranquilo. É outra: quantas vezes esse número já mudou desde que você começou a persegui-lo, e por que acha que da próxima vez vai ser diferente?

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