Numa noite sem nuvens, longe da cidade, a pessoa olha para cima e sente o que todo mundo sente: é muito pequena. Depois, no mesmo instante, lembra de algo que fez de errado naquele dia e que ninguém viu. E sente outra coisa, mais difícil de nomear.
Os dois sentimentos não têm nada a ver um com o outro. Ou parece que não têm.
Immanuel Kant juntou os dois numa frase, em 1788: “Duas coisas enchem a mente de admiração: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim”. A versão completa é maior, e diz mais.
Quem foi Immanuel Kant antes desta reflexão?
Kant nasceu em 22 de abril de 1724, em Königsberg, então na Prússia, hoje Kaliningrado, na Rússia. Filho de um artesão que fazia arreios, estudou e deu aulas na universidade da cidade, e nunca se afastou dela mais do que algumas dezenas de quilômetros em toda a vida, segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy.
Publicou a Crítica da razão pura em 1781, aos 57 anos, e a Crítica da razão prática, sobre moral, em 1788. Morreu em 12 de fevereiro de 1804. A frase do céu estrelado foi gravada, em versão resumida, numa placa junto ao seu túmulo, encostado à catedral de Königsberg.
O que Kant quis dizer com céu estrelado e lei moral?
A frase abre a “Conclusão” da Crítica da razão prática. Na tradução de Valerio Rohden, Kant diz que duas coisas enchem o ânimo de admiração e respeito sempre novos e crescentes, quanto mais a reflexão se ocupa delas: o céu estrelado sobre ele e a lei moral nele.
Kant explica, nas linhas seguintes, o contraste. O céu mostra ao ser humano seu lugar num universo imenso, no qual ele é um ponto que some. A lei moral mostra o oposto: que esse mesmo ponto carrega algo que não depende do tamanho do universo, a capacidade de reconhecer o que deve fazer, independentemente do que quer fazer.
A “lei moral” não é um mandamento religioso nem um código. Para Kant, é o que ele chama de imperativo categórico: agir só segundo regras que se poderia querer que valessem para todos. Quem sente o peso disso, ele diz, sente a própria dignidade.
Por que o céu e a consciência aparecem juntos?
Os dois sentimentos que a frase junta produzem efeitos parecidos na vida comum:
- Ambos tiram a pessoa do centro: o céu, pelo tamanho; a consciência, por exigir algo que não é o próprio interesse.
- Ambos crescem com a atenção: quanto mais se olha, mais se vê, e é isso que Kant diz na parte cortada da frase.
- Ambos não pedem plateia: as estrelas estão lá sem ninguém olhar; a lei moral vale mesmo quando ninguém vai saber.
- Ambos são universais: o céu é o mesmo para todos; a lei moral, para Kant, também.
O que a frase não significa?
Não é uma frase religiosa, embora pareça. Kant não diz que a lei moral vem de Deus; diz que ela é um fato da razão, algo que cada pessoa encontra em si quando pensa com honestidade sobre o que deve fazer.
Também não é um elogio à contemplação. A admiração pelo céu, Kant escreve na mesma conclusão, pode se perder em astrologia e superstição; a admiração pela lei moral pode virar fanatismo. O remédio, para ele, é a ciência num caso e a reflexão crítica no outro.
Onde a frase aparece na obra?
Na “Conclusão” da Crítica da razão prática (1788), primeiro parágrafo. É um dos trechos mais citados de toda a obra de Kant e um dos poucos em que ele escreve em primeira pessoa e em tom quase lírico. A versão brasileira de referência é a de Valerio Rohden.
Por que essa reflexão de Kant continua atual?
Nunca se soube tanto sobre o tamanho do universo, e nunca foi tão comum concluir disso que nada importa. Kant faz o movimento inverso: quanto maior o céu, mais surpreendente é que um ser tão pequeno carregue uma lei que não depende de tamanho nenhum.
A pergunta que fica não é se você acredita em lei moral. É outra: da última vez que fez a coisa certa sem ninguém ver, o que foi que você sentiu, e por que isso parecia maior do que você?
