Ela assinou o contrato sentada à própria mesa de jantar, de madeira polida, dentro da casa que estava vendendo. Duas semanas antes, o imóvel tinha entrado no mercado. Vários compradores disputaram. Do lado de fora, o terreno de esquina com 774 metros quadrados descia na direção do rio Canning.
Elaine Keesing tem 102 anos e viveu setenta deles naquele endereço, o número 12 da Unwin Crescent, em Salter Point, subúrbio de Perth, na Austrália. Foi a primeira e única casa que teve. Ela e o marido a construíram em 1956. Segundo o Domain, portal que revelou a história, custou cerca de 4.300 dólares australianos.
O fogão a lenha
A casa nasceu com três quartos, uma sala, cozinha e um banheiro, o que era o padrão de uma boa residência na época. A varanda dos fundos só virou cômodo depois que a família comprou a primeira televisão.
O ponto de reunião era outro. “As famílias passavam mais tempo juntas, e a gente teve que aprender a se dar bem e a se respeitar”, disse Keesing ao Domain. O fogão a lenha, contou ela, era onde todos se juntavam para conversar e se aquecer, e ainda aquecia a água.
Dólares que não circulavam
Aqui entra a ressalva que muda a leitura do número. Em 1956, a Austrália não usava dólar. A moeda era a libra australiana, trocada pelo dólar apenas em fevereiro de 1966, na razão de uma libra para dois dólares. Toda cifra em dólares atribuída a uma construção de 1956 é, portanto, conversão feita depois.
Talvez por isso as fontes divirjam. O Domain registra cerca de 4.300 dólares. A revista People apurou cerca de 3.080, valor atribuído à própria Keesing.
Em qualquer das versões, a comparação com o presente é o que dimensiona a história: casas de quatro quartos em Salter Point costumam ser negociadas hoje acima de 2 milhões de dólares australianos, algo em torno de 7,3 milhões de reais pela cotação de 7 de setembro de 2026, de R$ 3,65 por dólar australiano. O bairro que tinha cara de vilarejo virou área residencial de alto padrão à beira-rio.
Três semanas para esvaziar
O preço final não foi divulgado. A corretora Cristina Spinella, da Ray White South Perth, conduziu a venda e classificou a negociação como uma das mais marcantes da carreira.
A parte difícil não foi o contrato. Foram as três semanas que a família teve para esvaziar setenta anos de móveis, documentos e história acumulada. Keesing descreveu o processo como um pesadelo para os parentes, que ainda assim deram conta.
Ela diz que chegou a hora de virar a página, e que o novo capítulo traz mais apoio para ela e mais liberdade para a família que a acompanhou por décadas.
O que ela avisou que vai sentir falta não é a casa. “Vou sentir muita falta do grande jardim em volta da casa, um prazer constante que mudava com o passar dos anos e das estações”, disse ela ao Il Messaggero.
O terreno que ela viu mudar por setenta estações seguidas continua ali. A partir de agora, muda para outra pessoa.
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