Antes de o sol alcançar as montanhas do norte da Espanha, pequenos grupos de visitantes já posicionam binóculos e câmeras diante das encostas. A maioria permanece a uma distância segura, sob orientação de guias, à espera de um movimento entre as árvores. O que procuram é um dos animais mais difíceis de observar na Europa: o urso-pardo cantábrico.
Há cerca de quatro décadas, a atitude seria muito mais improvável. A população desses ursos havia caído para aproximadamente 60 exemplares nos anos 1980, segundo reportagem publicada pelo. A caça, a perda de habitat e a divisão dos grupos sobreviventes colocavam a espécie diante do risco de desaparecer da região.
Atualmente, a estimativa apresentada pelo jornal britânico se aproxima de 500 animais nas montanhas cantábricas. A recuperação criou um novo desafio para as comunidades locais: permitir que moradores e turistas acompanhem o retorno dos ursos sem acostumá-los à presença humana.
Proteção mudou ameaça iminente
A Espanha proibiu a caça ao urso em 1973, mas a população não se recuperou imediatamente. O avanço tornou-se mais perceptível a partir da década de 1990, com fiscalização, restauração de habitats e programas de acompanhamento conduzidos por governos regionais e organizações como a Fundación Oso Pardo.
Parte dos animais vive nas montanhas das Astúrias, onde o Parque Natural de Somiedo reúne vales, florestas e áreas elevadas usadas pelos ursos para procurar alimento. Mães com filhotes e indivíduos mais jovens estão entre os mais procurados pelos visitantes, embora nenhum avistamento seja garantido.
A observação costuma começar cedo ou avançar até o final da tarde, períodos em que os animais podem se movimentar com maior frequência. Guias recorrem a telescópios para evitar aproximações e procuram impedir que grupos bloqueiem rotas naturais ou invadam áreas sensíveis.
Turismo que exige distância
O aumento dos avistamentos beneficia hospedagens, restaurantes e pequenos negócios de vilarejos próximos. A presença dos animais passou a integrar a identidade turística de uma região que, durante anos, acompanhou o declínio da espécie.
Essa aproximação também traz diversos riscos. Ursos que encontram alimento perto de casas ou perdem o receio das pessoas podem se aproximar de povoados sem medo. Em 2025, seis animais habituados à presença humana foram capturados e afastados de áreas povoadas nas Astúrias, conforme informou a Fundación Oso Pardo.
O turismo responsável depende, portanto, da mesma cautela que permitiu a recuperação. Os visitantes devem manter distância, evitar ruídos, não oferecer comida e respeitar as zonas de acesso restrito. A proposta não consiste em perseguir o animal até conseguir uma fotografia, mas em observar a paisagem e esperar que ele apareça por conta própria.
O retorno do urso-pardo modificou a economia, a rotina e os costumes da região montanhosa. Entretanto, a espécie permanece vulnerável e ainda enfrenta problemas como o isolamento genético entre grupos, a baixa sobrevivência de filhotes e os conflitos em áreas habitadas.
O mesmo encontro que atrai turistas às montanhas espanholas só se tornou possível após décadas de proteção. Preservar essa distância será decisivo para que os ursos continuem ocupando o território que quase perderam.









