Existe uma pergunta que costuma travar qualquer resposta: por que essa pessoa, e não outra. Vale para uma amizade que durou trinta anos e vale para uma relação que ninguém de fora entende.
Montaigne enfrentou exatamente essa pergunta ao tentar explicar sua amizade com Étienne de La Boétie. E desistiu, por escrito: “Se me forçam a dizer por que eu o amava, sinto que isso não se pode exprimir senão respondendo: porque era ele, porque era eu”.
A frase é a definição de amizade mais citada da literatura ocidental. Também é uma confissão de fracasso.
Quem foi Montaigne antes desta frase
Michel de Montaigne nasceu em 1533, no castelo da família, perto de Bordeaux, na França. Foi magistrado, prefeito de Bordeaux e viveu num período de guerras religiosas violentas.
Inventou um gênero: o ensaio, do francês essai, tentativa. A ideia era escrever a partir de si mesmo, sem sistema, sem conclusão obrigatória, testando o que pensava. Os Ensaios tiveram várias edições em vida, e ele nunca parou de reescrevê-los.
Conheceu Étienne de La Boétie em 1558, quando ambos já eram adultos, e o perdeu poucos anos depois, em 1563. A leitura corrente entre estudiosos é que os Ensaios funcionam como uma espécie de túmulo, um monumento àquela amizade. O livro que fundou o gênero nasce de uma perda.
O que Montaigne quis dizer com “porque era ele, porque era eu”
O trecho começa com uma distinção dura. Ele diz que aquilo que normalmente chamamos de amigos e amizades são apenas conhecimentos e familiaridades formados por alguma ocasião ou conveniência.
Depois descreve o que viveu com La Boétie em outros termos: as duas almas se misturam e se confundem de tal modo que não é mais possível encontrar a costura que as uniu. E é aí que vem a recusa. Perguntado sobre o motivo, ele responde que não há como exprimir.
O ponto filosófico está na recusa. Montaigne está dizendo que essa amizade não se explica por qualidades. Não é “porque ele era inteligente” ou “porque tínhamos os mesmos interesses”. Se fosse, qualquer pessoa com aquelas qualidades serviria. A resposta aponta para a pessoa específica, e para ninguém mais.
A frase foi montada em etapas
Aqui está o detalhe que quase nenhuma versão em português menciona.
As duas orações não nasceram juntas. Elas foram acrescentadas uma depois da outra no chamado Exemplar de Bordeaux, o volume em que Montaigne anotava correções à mão, em adição posterior a 1588. E, juntas, formam um alexandrino.
Isso muda a leitura de duas maneiras. Primeiro, mostra que ele continuou trabalhando naquela passagem por anos, muito depois da morte do amigo. Segundo, sugere que a solução encontrada foi sonora, não argumentativa: quando o argumento não veio, veio o verso.
A frase mais famosa sobre amizade da história é, tecnicamente, uma anotação de margem.
O que essa amizade não recomenda
É aqui que a citação costuma ser mal usada. Ela vira legenda de aniversário, prova de que existe uma pessoa certa esperando por cada um.
O capítulo diz o contrário. Montaigne trata esse tipo de vínculo como raríssimo, quase um acidente, e insiste que não se confunde com as relações comuns. Ele não recomenda buscar isso. Apenas registra que aconteceu com ele, uma vez, e que terminou cedo.
Vale também dizer o que a passagem exige, e que a versão romântica omite:
- Não há garantia de reciprocidade só porque o sentimento é intenso.
- Não há critério prévio. Se houvesse lista de requisitos, ele teria respondido a pergunta.
- Não há substituição. A frase nomeia duas pessoas específicas, não um tipo.
- Não há permanência. Durou cerca de quatro anos, e o restante da obra convive com a ausência.
Onde a frase aparece na obra
O trecho está no livro I dos Ensaios, no capítulo “Da amizade”. A numeração varia: aparece como capítulo 28 na maioria das edições modernas e como 27 na edição de 1595, preparada por Marie de Gournay após a morte do autor. Ao citar, o mais seguro é indicar o título do capítulo, e não só o número.
Não há disputa de autoria aqui. O que existe é uma história de versões, e ela é parte do sentido: a frase definitiva sobre amizade foi acrescentada tarde, por alguém que ainda não tinha terminado de entender o que viveu.
Por que essa reflexão continua atual
A pergunta que Montaigne recusou responder é a mesma que as relações contemporâneas tentam responder o tempo todo. Aplicativos organizam pessoas por critérios. Perfis listam atributos. A lógica é a da compatibilidade: encontrar quem preenche os requisitos.
Ele aponta para outro lugar. As relações que mais importam costumam ser justamente as que não passariam por um filtro, porque o que as sustenta não é uma qualidade, e sim uma pessoa.
Fica a pergunta que ele deixou sem resposta, e que continua difícil: se alguém pedisse agora que você justificasse a relação mais importante da sua vida, o que você conseguiria dizer que não fosse uma lista de qualidades intercambiáveis?
