Não existe oficina capaz de alcançar a Voyager 2. Lançada em 1977, a sonda está a mais de 21 bilhões de quilômetros da Terra, distância na qual até um comando de rádio leva quase 20 horas para chegar. Mesmo assim, engenheiros conseguiram “consertá-la”.
O conserto deve manter três instrumentos científicos funcionando por pelo menos mais um ano de missão. Sem a intervenção, a NASA esperava precisar desligar outro deles antes do fim de 2026, reduzindo ainda mais a capacidade científica da famosa sonda.
Missão Voyager
Energia virou problema
As Voyager não possuem painéis solares. Muito distantes do Sol, dependem de geradores termoelétricos de radioisótopos, que convertem em eletricidade o calor produzido pelo decaimento natural de plutônio levado a bordo desde o lançamento.
O sistema permitiu décadas de funcionamento, mas perde eficiência lentamente. Segundo a NASA, a potência elétrica disponível diminui cerca de quatro watts por ano, obrigando os engenheiros a decidir quais componentes realmente precisam continuar ligados.

Alguns aquecedores mantinham partes internas dentro de temperaturas aceitáveis, enquanto equipamentos antigos também produziam calor como efeito colateral. Simplesmente desligá-los poderia economizar energia e criar outro problema.
Quebra-cabeça térmico
A solução recebeu internamente o apelido de “Big Bang”. A equipe desligou dois aquecedores e um antigo gravador digital de fita e passou a utilizar outros componentes capazes de produzir o calor necessário, consumindo menos eletricidade.
Na prática, foi uma troca remota do sistema de aquecimento. O objetivo era encontrar uma combinação que liberasse energia suficiente para os instrumentos científicos, mas mantivesse partes vulneráveis da nave dentro das temperaturas toleradas.

O processo também exige paciência incomum. Com quase 20 horas de viagem do sinal em cada sentido, engenheiros podem esperar perto de 40 horas entre enviar determinada alteração e receber os dados capazes de mostrar se ela funcionou.
Não há possibilidade de corrigir imediatamente um comando inadequado. A equipe precisa trabalhar com modelos de temperatura, consumo e comportamento acumulados durante décadas antes de modificar uma máquina construída com tecnologia da década de 1970.
Feita para durar
Parte dessa longevidade nasce de decisões tomadas antes do lançamento. A Voyager 2 precisava sobreviver a uma viagem por Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, enfrentando anos de radiação, frio extremo e comunicações cada vez mais lentas.
Ela permanece até hoje a única espaçonave que visitou Urano e Netuno de perto. A missão planetária terminou há décadas, mas a robustez necessária para aquela viagem acabou transformando a sonda em um laboratório interestelar inesperadamente duradouro.
Para dimensionar a importância desses registros, imagens dos anéis de Netuno continuam ajudando a revelar detalhes de um planeta que nenhuma espaçonave visitou novamente desde a passagem da Voyager 2.

Os engenheiros agora estudam aplicar estratégia semelhante à Voyager 1, que está ainda mais distante. As duas naves não se comportam exatamente da mesma maneira após quase meio século, por isso cada ajuste precisa ser desenvolvido individualmente.












