Não basta decolar, pousar e transportar passageiros com segurança. Para ganhar os céus das grandes cidades, o “carro voador” da Embraer também terá que mostrar que sua passagem não transformará a rotina de quem estiver embaixo em uma sucessão de zumbidos.
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) colocou em consulta os critérios que pretende usar para certificar o ruído do Eve 100, aeronave elétrica de pouso e decolagem vertical desenvolvida pela Eve Air Mobility, empresa controlada pela Embraer.
A proposta detalha uma bateria de medições durante decolagens, aproximações, sobrevoos e voos estacionários. Os resultados serão parte do processo de certificação necessário para que o modelo possa transportar passageiros comercialmente.
A preocupação tem uma razão simples: diferentemente dos aviões, que concentram o barulho nos arredores dos aeroportos, os eVTOLs foram pensados para operar a partir de pequenos terminais urbanos, os chamados vertiportos. Eles poderão, portanto, circular com frequência sobre áreas residenciais, comerciais e regiões movimentadas das cidades.
Como será o teste do barulho
O plano elaborado pela Anac prevê pelo menos seis decolagens, seis aproximações e seis sobrevoos válidos. Cada passagem será captada simultaneamente por três estações de medição: uma abaixo da trajetória da aeronave e outras duas posicionadas a 150 metros de cada lado.
No sobrevoo, o Eve 100 deverá passar a aproximadamente 150 metros do solo. Durante a aproximação, a medição será feita com a aeronave a cerca de 120 metros de altura, com o trem de pouso aberto e na configuração prevista para a chegada ao vertiporto.
A aeronave terá que repetir as passagens dentro de limites rígidos de velocidade, altitude, peso, trajetória e rotação das hélices. Temperatura, umidade, vento e até o tamanho da grama ao redor dos microfones poderão influenciar a validade do teste.
A proposta ainda determina medições próximas ao local de pouso e decolagem. Nesse caso, um microfone será instalado a aproximadamente 61 metros do ponto de operação, distância pensada para registrar o ruído ouvido nas imediações de um futuro vertiporto.
O trecho mais curioso envolve o voo estacionário. O Eve 100 terá que permanecer parado no ar por períodos de 30 segundos, virado para diferentes direções e em posições variadas em relação aos microfones. A intenção é descobrir como o som se espalha enquanto os oito rotores trabalham para sustentar a aeronave.
Essas medições adicionais não terão um limite obrigatório nesta etapa, mas ajudarão a Anac a avaliar o impacto do barulho sobre as comunidades e a preparar regras gerais para outros eVTOLs. A agência receberá contribuições para a proposta até 8 de agosto. Os critérios ainda podem ser alterados antes da publicação definitiva.
Eve promete ser mais silencioso que helicóptero
O Eve 100 utiliza oito rotores dedicados à decolagem e ao pouso, além de uma hélice traseira responsável por impulsioná-lo durante o deslocamento horizontal. Quando entra em voo de cruzeiro, a sustentação passa a ser feita pelas asas e os rotores verticais deixam de trabalhar.
Essa arquitetura deve reduzir principalmente o ruído durante o trajeto, quando a aeronave já está distante do vertiporto. Os motores elétricos e a menor velocidade nas pontas das pás também ajudam a evitar o som pulsante característico dos helicópteros.
A fabricante estima que o Eve 100 produza cerca de 62 dB(A) em voo de cruzeiro, a 305 metros de altura e aproximadamente 185 km/h. Na comparação apresentada pela própria empresa, um helicóptero de motor único chegaria a 72 dB(A) nas mesmas condições.
A estimativa, contudo, ainda precisa ser confirmada pelos ensaios realizados com as aeronaves destinadas à certificação. Além disso, o indicador usado pela Anac considera não apenas a intensidade, mas também a duração e as características mais incômodas do som.
A Eve chegou a realizar um estudo com mais de 100 participantes em cidades dos Estados Unidos. Com óculos de realidade virtual e simulações sonoras, os voluntários avaliaram a passagem de eVTOLs e helicópteros em áreas urbanas e residenciais. Segundo a empresa, o modelo elétrico provocou índices menores de incômodo.
Quando o “carro voador” começará a operar
O primeiro protótipo em escala real iniciou os voos em dezembro de 2025, nas instalações da Embraer em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo. Até maio, havia completado 59 voos e encerrado a fase de testes em baixa velocidade e voo estacionário.
A próxima etapa envolve a transição entre a sustentação feita pelos rotores e o voo apoiado nas asas. A empresa também planeja produzir seis protótipos compatíveis com a configuração final para a campanha de certificação.
A expectativa atual é obter a certificação, iniciar as primeiras entregas e colocar o Eve 100 em serviço em 2027. O modelo terá autonomia projetada de 100 quilômetros e começará transportando quatro passageiros, além do piloto. Uma futura versão autônoma poderá levar até seis ocupantes.





