Uma das fábricas mais importantes da história da Peugeot já tem data para desligar suas máquinas. A Stellantis encerrará em 30 de outubro de 2026 a produção de motores na unidade de Douvrin, no norte da França, após 57 anos de atividade.
O último propulsor a sair da linha será o 1.2 PureTech, motor de três cilindros que passou de premiado e celebrado pela eficiência a protagonista de uma das maiores crises de confiabilidade enfrentadas pelo grupo na Europa.
O fechamento também representa o fim de uma era industrial. Inaugurada em 1969, a fábrica produziu mais de 40 milhões de motores e chegou a empregar quase 6 mil pessoas.
O último ronco será do PureTech
A unidade de Douvrin atualmente monta apenas o EB2 de segunda geração, nome interno do 1.2 PureTech equipado com correia dentada banhada no óleo do motor. A produção do diesel 1.5 BlueHDi, que também ocupava as linhas da fábrica, terminou em novembro de 2025.
A Stellantis já havia comunicado que encerraria a produção de motores a combustão no local, mas a data definitiva foi confirmada aos funcionários em julho.
O PureTech fabricado em Douvrin já deixou de ser oferecido em boa parte da Europa Ocidental. A produção da versão com correia ainda deve continuar por algum tempo em Tychy, na Polônia, para abastecer mercados específicos.
Seu sucessor é montado na fábrica de Trémery, também na França. Embora mantenha a arquitetura de três cilindros e 1,2 litro, o novo propulsor foi profundamente modificado e substituiu a correia banhada a óleo por uma corrente metálica.
De motor premiado a pesadelo para proprietários
O encerramento chama atenção pela trajetória contraditória do PureTech. A versão turbo conquistou o prêmio International Engine of the Year em sua categoria por quatro anos consecutivos, entre 2015 e 2018.
Com tamanho compacto, baixo consumo e bom torque, o motor passou a equipar dezenas de modelos das marcas Peugeot, Citroën, DS e Opel. O problema apareceu com o envelhecimento de parte da frota.
A correia dentada que trabalha em contato com o óleo podia sofrer degradação prematura. Fragmentos do componente corriam o risco de circular pelo sistema de lubrificação e obstruir o pescador de óleo, reduzindo a pressão e provocando danos mais graves. Também foram registradas reclamações relacionadas ao consumo excessivo de lubrificante.
A repercussão foi tamanha que a própria Stellantis criou uma política especial para consumidores europeus. Sob determinadas condições, gerações anteriores dos motores PureTech 1.0 e 1.2 receberam cobertura de até 10 anos ou 180 mil quilômetros. O grupo também abriu uma plataforma para pedidos de ressarcimento por reparos realizados anteriormente.
Fechamento não foi provocado pelos defeitos
Apesar do simbolismo de o PureTech ser o último motor produzido em Douvrin, o fechamento da fábrica não foi apresentado como consequência direta dos problemas de confiabilidade.
A decisão faz parte da redução da produção de motores a combustão e da reorganização industrial da Stellantis. O grupo concentra novos propulsores em outras unidades e direciona investimentos para carros eletrificados.
Ao lado da antiga fábrica funciona uma unidade de baterias da ACC, empresa formada por Stellantis, Mercedes-Benz e Saft, ligada à TotalEnergies. Cerca de 340 funcionários de Douvrin já foram transferidos para a operação de baterias, enquanto outros trabalhadores entraram em programas de mobilidade ou aposentadoria. Sindicatos locais ainda cobram soluções para parte da mão de obra.
PureTech também foi vendido no Brasil
O nome PureTech é conhecido por motoristas brasileiros. Em 2016, a PSA lançou uma versão 1.2 aspirada e flex no Peugeot 208 produzido em Porto Real (RJ). Posteriormente, o mesmo propulsor passou a equipar o Citroën C3.
Essa aplicação era diferente do 1.2 turbo europeu produzido em Douvrin, embora também adotasse uma correia dentada banhada a óleo. Na época do lançamento, a fabricante apresentava o 208 PureTech como um dos carros mais econômicos do país.
As gerações atuais de Peugeot 208 e Citroën C3 vendidas no Brasil não utilizam mais o 1.2 PureTech. Dependendo da versão, os modelos recebem os motores 1.0 Firefly ou 1.0 Turbo 200. Por isso, o fechamento da unidade francesa não terá impacto direto na produção dos carros novos comercializados por aqui.





