Durante 27 anos, um Ford Mustang azul-claro permaneceu esquecido dentro de uma garagem nos Estados Unidos. Enferrujado, sem funcionar e coberto por objetos da família, o conversível parecia ter virado apenas um estorvo à espera de um destino.
A proprietária Gail Wise chegou a pedir ao marido que se desfizesse do carro. Tom Wise resistiu, ampliou a garagem para acomodá-lo e prometeu transformá-lo em seu projeto de aposentadoria. A decisão preservou um pedaço importante da história da Ford.
Somente depois de desmontar e restaurar o Mustang, o casal descobriu que o carro comprado quase por acaso em 1964 era o primeiro exemplar vendido nos Estados Unidos. Gail permanece como sua única proprietária mais de seis décadas depois, conforme história publicada pelo Chicago Sun-Times.
Mustang estava escondido sob uma lona
A história começou em 15 de abril de 1964. Aos 22 anos, Gail, que ainda usava o sobrenome Brown, trabalhava como professora do ensino fundamental e precisava de um carro para percorrer o trajeto entre sua casa e a escola.
Ela foi com o pai à concessionária Johnson Ford, em Chicago, procurando especificamente um conversível. Como não havia nenhum exposto, um vendedor decidiu mostrar algo guardado nos fundos da loja.
Debaixo de uma lona estava um Mustang conversível na cor Skylight Blue. O problema era que o modelo só seria apresentado oficialmente dois dias depois, em 17 de abril, durante a Feira Mundial de Nova York. A concessionária já havia recebido o carro, mas ainda não deveria vendê-lo — daí o “proibido”.
Gail se encantou com os bancos individuais, a alavanca de câmbio no assoalho e o visual esportivo. Comprou o Mustang sem fazer test-drive e sem negociar o preço: 3.447,50 dólares. O valor correspondia a quase 70% de seu salário anual de 5 mil dólares, e seu pai emprestou o dinheiro.
Ao deixar a concessionária, Gail chamou a atenção de motoristas e pedestres que ainda não conheciam o novo Ford. No dia seguinte, o conversível também virou atração no estacionamento da escola.
O carro hoje pode valer de 100 mil a 500 mil dólares — mais de R$ 2,5 milhões —, a depender da avaliação e da disposição para adquirir o item de colecionador.
Carro da família acabou abandonado
O Mustang foi usado normalmente por cerca de 15 anos. Depois do casamento de Gail com Tom, em 1966, também passou a transportar os quatro filhos do casal e enfrentou os rigorosos invernos da região de Chicago.
Com o tempo, a carroceria começou a enferrujar e o motor apresentou problemas. No fim da década de 1970, uma falha no acionamento do carburador fez Tom empurrar o carro para a garagem. Ele pretendia consertá-lo na semana seguinte, mas o serviço foi sendo adiado.
O Mustang permaneceu parado por 27 anos. Gail defendia que o carro fosse descartado para liberar espaço, enquanto o marido insistia que um dia faria a restauração. Tom chegou a construir uma extensão na garagem apenas para continuar guardando o conversível.
Em 2005, o casal finalmente decidiu entre vender o Mustang no estado em que estava ou recuperá-lo. A segunda opção venceu.
Restauração revelou a verdadeira história
O trabalho foi muito maior do que Tom imaginava. O carro estava bastante deteriorado e precisou ser praticamente desmontado. Motor, câmbio, interior e carroceria foram recuperados em um processo que custou aproximadamente 35 mil dólares e só terminou em 2008.
Foi durante as pesquisas por peças e informações que Tom encontrou reportagens sobre um homem que dizia possuir o primeiro Mustang vendido. O exemplar havia sido comprado em 16 de abril de 1964.
Tom se lembrou de que o carro de Gail tinha saído da concessionária antes. O casal ainda guardava o recibo, a nota fiscal e o manual original, documentos que comprovavam a compra realizada no dia 15.
A papelada foi analisada e a própria Ford reconheceu o conversível como o primeiro Mustang vendido oficialmente a um cliente nos Estados Unidos.
Embora seja frequentemente chamado de Mustang 1964 ½ por colecionadores, o carro foi registrado pela Ford como modelo 1965.




