Após 30 anos, engenheiro tenta pôr nos céus avião-arraia com janelas virtuais que promete gastar até 50% menos

Mark Page ajudou a criar o conceito nos anos 1990; agora a JetZero quer levar 250 pessoas em uma cabine sem janelas laterais

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Z4 terá telas ligadas a câmeras externas e promete cortar o gasto de combustível, mas ainda precisa provar a eficiência em escala real (Foto: Divulgação / JetZero)

Z4 terá telas ligadas a câmeras externas e promete cortar o gasto de combustível, mas ainda precisa provar a eficiência em escala real (Foto: Divulgação / JetZero)

Em fevereiro de 1996, o engenheiro aeronáutico Mark Page assinou um trabalho técnico sobre uma ideia ainda distante dos aeroportos: fundir fuselagem e asas até quase apagar a diferença entre as duas. O desenho era chamado de blended wing body.

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O trabalho naquela época avançou para modelos experimentais, mas nunca chegou à escala comercial. Trinta anos depois, Page voltou para essa ideia. Hoje, cofundador e diretor de tecnologia da JetZero, ele participa do desenvolvimento do Z4, um jato que lembra uma arraia e pretende estrear comercialmente no início dos anos 2030.

Como será voar nele

Se o Z4 chegar aos aeroportos como planejado, a experiência começará diferente antes mesmo da decolagem. Visto pelo terminal, o avião não terá o corpo comprido e estreito dos jatos atuais. De frente, lembrará uma enorme arraia pousada sobre a pista.

Ao entrar, a sensação também deve mudar. Em vez de uma cabine comprida, com fileiras seguindo por um único tubo, o passageiro encontrará um espaço muito mais largo, dividido em diferentes áreas, como se estivesse entrando em pequenos salões dentro da mesma aeronave.

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Durante a decolagem, porém, o princípio continua o mesmo, mas com uma diferença. Como grande parte do próprio corpo ajuda a mantê-lo no ar, a JetZero espera fazer a viagem gastando entre 30% e 50% menos combustível do que os demais aviões.

Esse desenho também não significa voos curtos. O Z4 foi pensado para transportar cerca de 250 passageiros por até 9,2 mil quilômetros, distância suficiente para ligar cidades separadas por um oceano sem transformar o projeto em um gigantesco avião de dois corredores.

E onde estão as janelas?

Depois de escolher seu assento em uma das salinhas, talvez venha a maior surpresa: não haverá uma janela como a conhecemos. Como muitos passageiros estarão longe das laterais, o projeto prevê substituir essa vista por telas conectadas a câmeras instaladas do lado de fora.

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Na prática, quem estiver sentado no centro poderá acompanhar a subida, enxergar o horizonte e observar cidades diminuindo lá embaixo por meio de imagens transmitidas para dentro da cabine.

A largura incomum também permitirá dividir os passageiros em seis setores, criar mais corredores e reduzir a quantidade de pessoas espremidas entre uma janela e o corredor. A JetZero ainda promete um compartimento de bagagem dedicado para cada assento.

Resta descobrir como o corpo humano reagirá a essa experiência. A preocupação não surgiu apenas com o Z4. Um estudo sobre aeronaves blended wing body, conduzido pelo engenheiro R. Wittmann, da Universidade Técnica de Munique, apontou que quem estiver mais distante do eixo central poderá sentir movimentos verticais maiores durante curvas.

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A pesquisa também concluiu que poucas janelas ou a ausência de uma referência externa poderiam provocar um ligeiro aumento do enjoo, embora telas mostrando a paisagem do lado de fora possam reduzir esse efeito.

O estudo não testou o Z4 e analisou uma configuração bem maior, portanto serve como indicação dos desafios que esse tipo de cabine terá de enfrentar, e não como previsão do que ocorrerá no avião da JetZero.

O teste decisivo

No deserto de Mojave, a Scaled Composites, subsidiária da Northrop Grumman, monta o Jet1, um demonstrador em escala real destinado a provar que o formato funciona fora das simulações.

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O primeiro voo está previsto para o quarto trimestre de 2027. O demonstrador usará motores Pratt & Whitney da família empregada no Boeing 757 e terá apenas o cockpit pressurizado, porque sua missão inicial será testar aerodinâmica, controles e desempenho.

O projeto recebeu um contrato de US$ 235 milhões da Força Aérea dos EUA em 2023. A JetZero também captou US$ 175 milhões em 2026 e começou a construir uma fábrica de US$ 4,7 bilhões em Greensboro, na Carolina do Norte.

Em julho, o Export-Import Bank dos EUA assinou uma carta de interesse para avaliar até US$ 3 bilhões em financiamento para o complexo. O documento é preliminar e não significa que o empréstimo já tenha sido aprovado.