A panela passou a noite sobre o fogão. Quando a família percebeu o esquecimento, a avó de Aviana Machnes, que vive com demência de início precoce, já havia deixado a cozinha sem lembrar que ainda estava cozinhando.
Dessa vez, ninguém se feriu e o episódio não terminou em incêndio. Para a neta, porém, o susto deixou uma preocupação: a avó poderia repetir o mesmo gesto quando estivesse sozinha ou quando ninguém percebesse a tempo.
Aviana tinha 14 anos e cursava o 9º ano em Montreal, no Canadá. Depois de procurar uma solução que pudesse evitar esse tipo de acidente, decidiu reunir sensores, fios e um alarme para construir a própria.
O problema estava em casa
Escolher o tema da feira de ciências não foi difícil. A adolescente já havia visto dentro de casa como uma tarefa repetida durante anos poderia se tornar perigosa após uma falha de memória.
O risco não estava apenas na panela ou no fogão ligado. Ele aparecia quando a pessoa começava a cozinhar, saía do ambiente e não se lembrava de que havia deixado alguma coisa funcionando.
Aviana precisava encontrar uma forma de reconhecer exatamente esse momento. O aparelho não deveria disparar apenas porque o fogão estava ligado, mas perceber quando ele continuava consumindo energia sem ninguém por perto.
Dois sensores e um alarme
A resposta veio da combinação de duas informações. Um sensor de corrente identifica quando o equipamento permanece ligado, enquanto detectores de movimento verificam se existe alguém na cozinha.
Quando o consumo de energia continua por um período prolongado e nenhum movimento é registrado no ambiente, o sistema dispara um alarme. O aviso tenta chamar alguém antes que o esquecimento provoque um acidente.
Separadamente, os sinais seriam insuficientes. Uma cozinha vazia não representa perigo quando os aparelhos estão desligados, e um fogão funcionando pode significar apenas que alguém está preparando uma refeição.
Aviana batizou o aparelho de Forget Me Not, expressão que pode ser traduzida como “não se esqueça de mim”. A função do protótipo cabe no nome: emitir o lembrete que faltou quando uma tarefa foi deixada pela metade.
Oito prêmios na feira
O projeto foi apresentado na feira regional de ciência e tecnologia de Montreal. Mesmo concorrendo com estud
antes mais velhos, Aviana conquistou o primeiro lugar geral entre participantes do ensino secundário e do nível colegial.
Em um vídeo divulgado pela escola, a adolescente contou que recebeu oito prêmios. Entre eles estava uma bolsa de estudos da Universidade Concordia.
Jesse Clair, um dos professores de ciências da jovem, disse à Global News que o trabalho mostra como estudantes podem usar aquilo que aprendem para enfrentar problemas reais. No caso de Aviana, o problema tinha nome, rosto e fazia parte de sua família.
A premiação também ampliou os planos para o Forget Me Not. A estudante passou a considerar uma patente, a criação de um aplicativo para celular e o uso do sistema em instituições de longa permanência.
Segurança sem proibição
A demência não retira todas as habilidades de uma pessoa ao mesmo tempo. Alguém pode continuar sabendo como ligar o fogão e preparar os ingredientes, mas esquecer minutos depois que deixou uma panela no fogo.
Por isso, a Sociedade de Alzheimer do Canadá recomenda que mudanças na casa mantenham o equilíbrio entre segurança e independência. Restrições excessivas podem afastar a pessoa de atividades que ela ainda consegue realizar.
A necessidade de soluções desse tipo alcança milhões de famílias. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 57 milhões de pessoas viviam com demência no mundo em 2021, com quase 10 milhões de novos casos registrados por ano.
O projeto de Aviana tenta preservar uma parte da rotina da avó sem ignorar os riscos. Em vez de impedir o uso da cozinha, o aparelho procura avisar quando algo foi esquecido.
Ideia é só o começo
O Forget Me Not continua sendo um protótipo escolar e ainda não está disponível para compra. Antes de chegar às casas ou instituições de cuidados, o dispositivo precisará avançar em desenvolvimento, testes e nas etapas necessárias para uma eventual patente.
Ainda não há preço ou previsão de lançamento. Mesmo assim, aquela panela já levou a ideia para muito além da cozinha da família e mostrou que o susto poderia se transformar em uma solução para outras pessoas.
O que ficou
Aviana não pode impedir que a demência apague partes da memória da avó, nem estar ao lado dela durante todo o dia. O que fez foi transformar o medo daquela noite em um aviso para os momentos em que a família estiver longe.
Forget Me Not significa “não se esqueça de mim”. O nome descreve o aparelho, mas também o gesto da adolescente: diante de uma doença que leva memórias pouco a pouco, Aviana encontrou uma forma de mostrar à avó que ela continua sendo cuidada, e acima de tudo, lembrada.






