Sobre a escrivaninha do quarto, as lembranças de uma trajetória que começou muito antes da universidade são espalhadas. Cartas celestes cobertas por pontos abstratos ao olho leigo, certificados de olimpíadas científicas, uma esfera de vidro com um líquido azul que simula um objeto usado para compreender as coordenadas do céu e um globo terrestre rabiscado e com barbantes amarrados dividem espaço com diplomas e correspondências de universidades americanas.
Cada objeto guarda uma etapa da formação de Helena Buschermöhle, pesquisadora de 26 anos, nascida em Blumenau, que aprendeu cedo a procurar respostas mesmo quando não havia ninguém por perto capaz de ensiná-la.
A esfera celeste, por exemplo, foi uma ferramenta importante nos treinamentos para as seletivas das olimpíadas de astronomia. Com ela, a jovem estudava a posição das estrelas e tentava compreender como orientar um telescópio para encontrar um determinado ponto no céu. Já as cartas celestes, impressas em folhas A3, exigiam reconhecer constelações, identificar estrelas e aprender a distinguir o céu de diferentes épocas do ano. Os foguetes, construídos com garrafas PET e canos de PVC, ainda estão lá, justamente porque faziam parte das provas práticas que poderiam aproximá-la de uma vaga na equipe brasileira de olimpíadas internacionais.
Até hoje os pais se lembram das viagens de carro aos fins de semana para testar os lançamentos.
Longas jornadas na biblioteca
Aqueles materiais ainda estão guardados com carinho na casa dos pais. A pesquisadora os apresenta enquanto relembra os anos em que passava longas jornadas estudando, muitas vezes na biblioteca da Universidade Regional de Blumenau (Furb), que fica pertinho dali. Era onde encontrava livros, resolvia provas antigas e tentava preencher as lacunas de uma formação que não tinha professor especializado em astronomia.
Helena, porém, não desistiu do sonho só por não ter alguém que a segurasse pela mão e a guiasse pelo caminho até a ciência.
Hoje, depois de se formar em Engenharia Mecânica e astrofísica pela Universidade Tufts, em Massachusetts, nos Estados Unidos, e de trabalhar com pesquisa sobre planetas que orbitam duas estrelas, Helena está de volta ao Brasil. Ela cursa mestrado em Computação Aplicada no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos, com foco em inteligência artificial para tecnologias espaciais.
Confira algumas fotos da trajetória da cientista
Trinta anos de provas e incontáveis horas de estudo autodidata
A astronomia entrou na vida de Helena ainda na infância. Ao escolher os cadernos da escola e pensar sobre qual matéria merecia o caderno mais bonito, percebeu que gostava especialmente de Geografia. O motivo estava no conteúdo das primeiras aulas, o Sistema Solar. A curiosidade por diferentes assuntos já fazia parte da rotina, mas foi no primeiro ano do ensino médio, no Colégio Sagrada Família, que ela encontrou uma maneira de aprofundar o interesse pelo espaço.
Um professor de Física apresentou a Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA) e, logo, ela começou a se informar mais sobre e estudar por conta própria. Em um sebo próximo à escola, comprou três almanaques de astronomia. Na internet, recorria a páginas de consulta, livros e materiais disponíveis sobre cada tema do programa. Na primeira participação, conquistou uma medalha de bronze, a primeira da história da escola naquela competição.
No ano seguinte, decidiu estudar de maneira ainda mais profunda. Encontrou um estudante do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), em Florianópolis, que já havia se destacado na olimpíada e pediu orientações pelas redes sociais. Ela conseguiu provas de aproximadamente três décadas e passou a resolvê-las sozinha, pesquisando tudo o que não compreendia, quando chegava em casa da escola. Se aparecia uma questão sobre equinócios, por exemplo, precisava pausar e descobrir o conceito antes de seguir em frente.
Uma pioneira desde a infância
Em uma prova sobre as fases da Lua, ela se deparou com um assunto que não havia estudado o suficiente. Em vez de desistir, ela desenhou o fenômeno inteiro na mesa para tentar entender a relação entre as posições dos astros. No fim, acertou a questão e conquistou a medalha de ouro, que também foi a primeira da escola naquela categoria. Aos poucos, a menina se consolidava cada vez mais como uma pioneira, uma tendência que a acompanha profissionalmente até hoje.
A partir dali, vieram outras etapas. Ela foi selecionada para a Jornada Espacial, uma semana de atividades em São José dos Campos, com visitas a instituições ligadas à ciência e à pesquisa aeroespacial, entre elas o INPE e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Foi o primeiro contato com o instituto em que hoje estuda. Na época, a experiência também mostrou que havia um caminho possível para continuar perto da astronomia, embora o Inpe não oferecesse uma graduação convencional na área.
Depois, vieram as seletivas para as olimpíadas internacionais. O processo reunia provas teóricas e atividades práticas, como reconhecimento de cartas celestes, orientação de telescópios e construção de foguetes. A preparação era extensa e exigia conhecimentos que ultrapassavam o currículo escolar, mas uma teimosia aliada com uma curiosidade latente motivava a garota a seguir mesmo assim.

Divulgação em massa da olimpíada aos colegas
Houve uma seleção em que não conseguiu a classificação esperada. No período seguinte, voltou à escola e passou a divulgar a OBA para estudantes mais novos. Visitou turmas do oitavo ano para explicar a competição e incentivar a participação. No ano seguinte, o interesse havia crescido a ponto de a escola precisar usar o auditório para acomodar os participantes. Outros alunos também conquistaram medalhas.
“Geralmente eram cinco pessoas fazendo prova, mas, naquele ano, a gente teve que fazê-la no auditório porque não tinha cadeira suficiente para colocar todo mundo. Foi muito legal, tivemos muitas mais medalhas, não só as minhas. Teve gente ganhando medalha de ouro, eu não consegui ouro, mas consegui bronze. Fiquei muito feliz, e isso já foi uma realização de um sonho meu, que era ver mais pessoas indo bem, conseguindo oportunidades dentro da OBA”, expressa.
Ela continuou a preparação e voltou a participar da seleção internacional no último ano do ensino médio. O treinamento envolveu provas longas, exercícios de astronomia e atividades práticas. Ao chegar à etapa final, percebeu também as dificuldades enfrentadas pelas poucas meninas presentes. Em uma seleção com 29 alunos, por exemplo, apenas três seriam meninas e ela seria a única catarinense. Porém, elas encontravam apoio umas nas outras.
Helena conta que uma das selecionadas que conheceu na competição continua sendo sua amiga e, hoje, estuda Geofísica na Universidade de São Paulo (USP), além de participar de uma iniciativa voltada a aproximar meninas das áreas de ciência e tecnologia.
O apoio que não vinha em forma de aula
Se Helena aprendeu astronomia por conta própria, isso não significa que tenha percorrido o caminho sem ajuda. Cheia de gratidão, ela conta com carinho como a família ofereceu as condições e o apoio para que ela pudesse se dedicar completamente aos estudos.
O pai, César, é fã de carteirinha da filha. Quando ela começava os estudos, ele chegou a se acostumar a dirigir de Blumenau a Florianópolis depois do trabalho para levá-la às aulas noturnas de Astronomia de Posição com um eletricista do Instituto Federal que também era astrônomo amador. Em casa, a mãe, Vera, cuidava de todas as tarefas que permitiam à filha dedicar todas as horas do dia ao estudo e à preparação.
“Se eu consegui estudar 12 horas por dia é porque meus pais trabalhavam de 10 a 12 horas por dia para me dar estabilidade suficiente para eu conseguir só estudar”, resume a pesquisadora.
Os professores também a incentivavam, mesmo sem saber exatamente como orientar uma estudante que buscava uma formação tão incomum. Uma coordenadora do ensino médio, lembra Helena, repetia que ela conseguiria chegar longe. Quando a família não podia arcar com os custos de alguns treinamentos, a escola ajudou a viabilizar parte da participação. Essa autonomia construída nesses anos seria importante novamente quando surgiu a possibilidade de estudar nos Estados Unidos.
A ideia não nasceu de um plano antigo. A jovem diz que é difícil sonhar com uma oportunidade cuja existência sequer se conhece. Durante as seletivas de astronomia, começou a encontrar estudantes que usavam a experiência em olimpíadas como parte de candidaturas a universidades americanas. Foi assim que percebeu que estudar fora talvez fosse possível.
Em outubro de 2016, pouco antes de concluir o ensino médio, ouviu do pai a história de um estudante que havia seguido um caminho semelhante e estava prestes a ingressar em Harvard. Helena se interessou, mas tinha uma preocupação imediata: como a família pagaria por uma universidade no exterior?
A explicação sobre os programas de auxílio financeiro das instituições americanas mudou a perspectiva. Em vez de descartar a ideia por causa do custo, ela começou a pesquisar o processo seletivo. Fez uma viagem com o pai a Curitiba para conversar com uma profissional que explicou como funcionavam as candidaturas, as redações pessoais, os exames e a documentação necessária.
Como faltavam apenas dois meses para o prazo de inscrição, decidiu adiar a candidatura por um ano. Esse período, conhecido como gap year, permitiria concluir as etapas das olimpíadas e preparar os documentos para as universidades.
Mais uma vez, Helena passou longas horas na biblioteca da Furb. Estudava para as competições, se preparava para os exames americanos, recorria a livros emprestados e usava plataformas gratuitas na internet para praticar matemática e inglês. Nunca precisou pagar por aulas particulares de inglês, como conta, orgulhoso, o pai. Quando precisava de ajuda com o exame de proficiência, recorria ao professor do cursinho em que estudava com bolsa.
A Universidade Tufts sempre esteve no coração da jovem como o lugar ideal para estudar. Em uma primeira aplicação, ela chegou a ser aprovada, mas sem uma bolsa de estudos. Por isso, precisou escolher outra universidade americana em que tinha conseguido, o Agnes Scott College, uma instituição feminina na região de Atlanta. Helena recebeu uma bolsa que cobria os custos da educação, moradia e alimentação. A experiência incluiu também uma atividade humanitária na Guatemala.

Depois, ela decidiu tentar uma transferência para a Universidade Tufts.
A candidatura exigiu mais uma tentativa. O prazo para transferência já havia passado quando procurou a instituição. Por isso, em um ato de bravura, acordou por volta das três horas da manhã, fez as malas, viajou para Boston e passou cinco noites dormindo no chão do alojamento de um estudante brasileiro enquanto tentava conversar com o setor de admissões.
Primeiro, entrou na lista de espera. Mais tarde, recebeu a notícia da aprovação, acompanhada de um pacote de auxílio financeiro que cobria a mensalidade e incluía recursos para despesas de manutenção. Foi o que ela descreveu, em tom de brincadeira, como uma bolsa de “120%” porque, além de pagar a universidade, o auxílio ajudava a custear a vida nos Estados Unidos.
Em 2020, quando uma reportagem anterior do NSC Total acompanhou a trajetória, Helena estava no início da graduação em Tufts e trabalhava no Centro de Astrofísica de Harvard. Em uma sala conhecida como Plate Stacks, eram guardadas placas fotográficas de vidro usadas historicamente para registrar observações astronômicas. Ao olhar para os registros, ela conseguia ver anotações feitas à mão por mulheres que ajudaram a construir o conhecimento moderno sobre as estrelas e, agora, ela também trabalhava lá.
Orbitando entre duas estrelas
Na graduação, Helena dividiu a formação entre engenharia mecânica e astrofísica. A engenharia ocupava a maior parte do currículo, enquanto a astronomia aparecia como uma área de especialização. A escolha também tinha um lado prático. Como estudante internacional nos Estados Unidos, encontrava restrições para trabalhar em determinados setores aeroespaciais, especialmente em atividades relacionadas a foguetes e projetos sujeitos a regras específicas de segurança.
Ter uma formação em engenharia parecia uma maneira de ampliar as possibilidades profissionais caso a carreira acadêmica não desse certo. A jovem sabia que a astronomia era competitiva e que as vagas para pesquisadores eram limitadas. Queria continuar na área, mas também precisava pensar na própria independência financeira e no apoio à família. Em 2023, encontrou um projeto de pesquisa que aproximava matemática, física, programação e astronomia. O tema eram os planetas circumbinários, corpos que orbitam duas estrelas ao mesmo tempo.
A maior parte dos planetas conhecidos gira em torno de uma única estrela, como a Terra em torno do Sol. Nos sistemas circumbinários, a presença de dois astros torna a dinâmica orbital mais complexa. A detecção também pode ser mais desafiadora porque, quando um planeta passa diante da estrela, o brilho observado diminui um pouco, o que permite identificar o chamado trânsito. Já em sistemas com duas estrelas, os intervalos entre esses eventos podem variar, o que dificulta a identificação automática desses planetas.
Embora milhares de exoplanetas tenham sido encontrados, os planetas circumbinários conhecidos são apenas algumas dezenas. Por isso, para identificá-los, os pesquisadores precisam analisar sinais que nem sempre se encaixam nos padrões usados pelos programas convencionais. Novamente, Helena se viu orbitando ao redor do pioneirismo.
A cientista se interessou pelo problema e passou a trabalhar com simulações numéricas. No projeto, investigou um sistema formado por duas estrelas, um planeta que orbitava ambas e uma possível lua ao redor desse planeta. A pergunta era se uma lua conseguiria permanecer em órbita enquanto o planeta migrava para regiões mais próximas das estrelas.
Alguns planetas circumbinários conhecidos estão em regiões que, sob certas condições, podem permitir a existência de água líquida. Embora os planetas detectados sejam gigantes gasosos, luas rochosas poderiam, em tese, oferecer ambientes interessantes para investigar a possibilidade de vida. Até agora, porém, nenhuma foi confirmada.
À medida que o planeta se aproxima das estrelas, as forças gravitacionais podem desestabilizar a órbita de uma lua e comprometer a permanência no sistema, conforme explica Helena. O trabalho da cientista consistia em simular diferentes configurações para avaliar as condições em que essas luas poderiam sobreviver. O estudo deu origem a um artigo científico desenvolvido com outros pesquisadores, que ela assina com orgulho.
Entre maio de 2024 e maio de 2025, ela trabalhou em tempo integral no projeto como assistente de pesquisa em Tufts. Foi uma etapa importante, mas também trouxe uma percepção sobre o próprio trabalho. Helena passava boa parte do tempo programando, analisando dados e desenvolvendo ferramentas computacionais.
A constatação ajudou a orientar a decisão seguinte. Se a computação já era indispensável à pesquisa astronômica, ela queria aprofundar os conhecimentos nessa área e aprender a usar métodos capazes de analisar volumes ainda maiores de dados.
A escolha também se conectava a um desejo antigo. A pesquisadora queria voltar ao Brasil e contribuir para o desenvolvimento da ciência no país. O INPE, que conhecera ainda na Jornada Espacial, oferecia a possibilidade de continuar estudando o espaço sem se afastar da computação.

A volta ao Brasil e a ciência com inteligência artificial
No mestrado em computação aplicada do INPE, ela trabalha com métodos de inteligência artificial e aprendizado de máquina para analisar grandes conjuntos de dados astronômicos. Entre as fontes possíveis estão informações de missões espaciais como Kepler e TESS, que observaram estrelas em busca de sinais de planetas e outros fenômenos.
O objetivo é desenvolver ferramentas que ajudem a identificar padrões, classificar sistemas e investigar comportamentos que poderiam passar despercebidos em análises convencionais. Agora, a cientista se aproxima da astronomia, mas por outro caminho. Em vez de trabalhar apenas com simulações físicas de sistemas planetários, ela investiga como algoritmos podem contribuir para encontrar respostas em grandes volumes de observações.
A pesquisa ocorre em um momento de transformação acelerada. A jovem conta que participou de conferências sobre inteligência artificial e astrofísica em 2024 e, também, neste ano e percebeu uma mudança significativa no debate em apenas dois anos. Se antes o aprendizado de máquina aparecia sobretudo como mais uma ferramenta para analisar dados, hoje a discussão inclui sistemas generativos capazes de escrever código, automatizar etapas de experimentos e auxiliar no desenvolvimento de pesquisas.
O avanço também provoca perguntas sobre o papel dos cientistas. Se modelos de linguagem conseguem produzir código rapidamente e executar tarefas que antes consumiam semanas, o que continuará dependendo da formação humana? Para Helena, ainda é cedo para responder.
Ela considera que existe uma janela em que a inteligência artificial pode acelerar a produtividade sem substituir o trabalho intelectual necessário para formular uma pergunta científica, construir uma hipótese e desenhar um experimento. A partir do momento em que os sistemas também forem capazes de propor perguntas relevantes e indicar novos rumos de investigação, a relação entre cientistas e máquinas poderá mudar de maneira mais profunda.
“Eu não sei, e acho que ninguém sabe”, diz sobre o futuro da ciência diante dessas ferramentas.
Por enquanto, entende que sua função continua sendo pensar nas pesquisas, elaborar hipóteses, planejar experimentos e manter a curiosidade que dá origem às descobertas.
O trabalho com dados e programação também aproxima Helena de outra questão. Quem consegue participar da produção científica? Para ela, o acesso à astronomia não depende apenas de capacidade ou interesse. É uma área que exige tempo, formação especializada, equipamentos, oportunidades e condições materiais para permanecer estudando durante anos.
A própria trajetória demonstra como esses fatores se combinam. A cientista teve apoio familiar, estudou em uma escola particular, recebeu bolsas e encontrou instituições capazes de oferecer recursos que não estariam disponíveis em qualquer contexto. Ao mesmo tempo, precisou construir grande parte da própria formação sem orientação especializada e procurar caminhos que não conhecia de antemão.
Tanto ela quanto o próprio pai destacam a importância de que mais mulheres consigam permanecer na ciência à medida que avançam da graduação para o mestrado e o doutorado. Embora perceba uma presença feminina maior em algumas áreas, Helena ainda vê diferenças numéricas e ambientes em que as mulheres podem se sentir deslocadas. No grupo brasileiro com o qual mantém contato na área de exoplanetas, as pesquisadoras são todas mulheres. A existência desses espaços de troca e apoio é, para ela, um sinal de mudança, mas não significa que a desigualdade tenha sido resolvida. O fato é: a ciência precisa de mais mulheres.
Dois anos de dor
A formação de Helena também foi marcada por uma interrupção que alterou os planos. Durante a graduação, ela passou dois anos convivendo com dor crônica e consultando médicos sem conseguir um diagnóstico. O tumor ósseo benigno era raro e estava localizado no calcâneo cuboide, um osso do pé. A combinação entre a localização incomum, a idade e o quadro clínico tornou a identificação mais difícil.
Ela procurou diversos profissionais e passou por exames no Brasil antes de receber o diagnóstico nos Estados Unidos, com o auxílio de especialistas ligados à escola de medicina de Harvard. A doença exigiu duas interrupções dos estudos. A pesquisadora chegou a repetir o último ano da graduação porque passou uma parte significativa desse período em consultas, tratamentos e hospitais.
“Eu me recuso a acreditar que a carreira que eu sempre sonhei fazer desde criança acabou porque eu fiquei doente quando entrei na faculdade”, afirma.
O diagnóstico permitiu que ela fosse operada em maio de 2023. Segundo Helena, a cirurgia retirou completamente o tumor. Desde então, ela está em remissão, mas ainda não se considera curada porque precisa completar o período de acompanhamento indicado pelos médicos.
A experiência alterou sua relação com o futuro. Antes, havia cronogramas e expectativas sobre o que deveria alcançar em cada etapa. Depois da doença, passou a olhar para a carreira a partir das possibilidades que ainda tinha. O diploma de Tufts, o trabalho de pesquisa e o retorno ao Brasil vieram depois da cirurgia.
Ela reconhece que teve sorte ao receber atendimento especializado e contar com um plano de saúde ligado à universidade, que cobriu as despesas médicas. A doença foi um episódio grave, mas ocorreu em um lugar onde havia infraestrutura para investigar e tratar rapidamente. Para ela, essa diferença também ajuda a mostrar como o acesso a recursos pôde mudar o desfecho da trajetória.

Descobrir um planeta, abrir caminhos
A pergunta sobre onde pretende chegar nos estudos tem uma resposta imediata. Helena gostaria de descobrir um planeta. A curiosidade científica continua ali, assim como o desejo de entender sistemas que ainda não foram observados ou explicar fenômenos que permanecem em aberto. Mas, quando pensa no legado que gostaria de deixar, ela fala menos de uma descoberta individual e mais das oportunidades que poderiam surgir a partir de seu trabalho.
“Quantas Helenas existem que são mais brilhantes do que eu, mas não vão conseguir chegar e descobrir o mesmo planeta porque não tiveram a oportunidade?”, indaga.
Para ela, a ciência não deve ser avaliada apenas pelos artigos publicados ou pelos resultados de uma pesquisa. Também importa saber quem consegue chegar aos laboratórios, permanecer na universidade e construir uma carreira. Se puder desenvolver sistemas, criar oportunidades ou contribuir para que estudantes de trajetórias ainda menos favorecidas tenham acesso à pesquisa, considera que terá alcançado um objetivo importante.
A ideia de voltar ao Brasil acompanha a pesquisadora desde que começou a considerar uma carreira no exterior. Ela queria aproveitar a estrutura das universidades americanas, aprender e retornar para aplicar o conhecimento aqui. O caminho não foi simples e a doença acrescentou uma incerteza que não fazia parte dos planos iniciais. Ainda assim, ela continua interessada em construir uma carreira no país.
Entre as possibilidades, está se tornar professora. A cientista imagina que ver um aluno alcançar uma descoberta importante ou conquistar um prêmio seria uma realização tão significativa quanto obter reconhecimento pelo próprio trabalho. Formar pesquisadores, nesse sentido, seria uma maneira de multiplicar as oportunidades que recebeu e ajudar a construir uma comunidade científica mais diversa.
O livro Astronomia e Astrofísica, que o pai encontrou na biblioteca da USP e levou para ela durante os anos de preparação, continua entre os materiais de estudo. A obra passou pelas jornadas na biblioteca da FURB e permanece como uma companhia até na formação atual. O exemplar, gasto de tanto estudo, precisou ser encadernado novamente, mas não foi deixado para trás.
Hoje, Helena trabalha com ferramentas computacionais que ajudam a examinar quantidades enormes de dados sobre o universo. O horizonte da pesquisa se ampliou, mas a ideia de futuro continua ligada a uma questão que vai além do céu. Ela quer descobrir o que ainda não conhecemos e, especialmente, quer que outras pessoas também tenham a oportunidade de procurar.















