Peças de marfim de mamute encontradas na Alemanha preservam um mistério sobre seus criadores (Foto: Ralf Ehmann / University of Tübingen / URMU)
Duas esculturas de aves, pequenas o bastante para caber sobre uma unha, ficaram escondidas por 40 mil anos em uma caverna do sul da Alemanha. Feitas de marfim de mamute, elas preservam detalhes que permitem imaginar não apenas quais animais foram retratados, mas também seus movimentos.
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Os arqueólogos encontraram as peças em 2025, na caverna Hohle Fels, um dos sítios pré-históricos mais importantes da Europa. Uma ave parece repousar no solo, talvez sobre ovos. A outra abre as asas, como se estivesse voando, pousando ou exibindo-se. O achado se soma a outras descobertas arqueológicas em cavernas.
Como nasceu a arte na Europa há 40 mil anos
A história começa com duas aves de apenas alguns centímetros: uma parece repousar sobre o solo, enquanto a outra abre as asas e conserva riscos minúsculos semelhantes a penas (Foto: Ralf Ehmann, montagem URMU / Universidade de Tübingen)Para entender como objetos tão delicados surgiram, é preciso olhar sua matéria-prima: uma presa compacta que precisava ser dividida, reduzida e polida antes de revelar qualquer figura (Foto: Hannes Grobe / Wikimedia Commons)Transformar o marfim exigia lâminas, raspadores e buris como os usados por grupos aurignacianos, que dominavam cortes precisos muito antes do surgimento das ferramentas metálicas (Foto: Silar / Wikimedia Commons)O resultado desse trabalho aparece nesta ave aquática de cerca de 38 mil anos, encontrada antes das novas peças e representada com o corpo inclinado como se estivesse prestes a mergulhar (Foto: Catatine / Wikimedia Commons)Depois de registrar os animais, esses artistas voltaram o olhar para o próprio corpo e produziram esta figura feminina de quase seis centímetros, uma das representações humanas mais antigas conhecidas (Foto: Catatine / Wikimedia Commons)A imaginação foi além do que os olhos podiam observar: o Homem-Leão combina anatomia humana e cabeça de felino, indicando que a arte já criava seres inexistentes na natureza (Foto: Dagmar Hollmann / Wikimedia Commons)Essa liberdade para imaginar convivia com uma observação precisa da fauna, como mostra este mamute de 3,7 centímetros descoberto em 2006 entre materiais retirados da caverna Vogelherd em 1931 (Foto: Thilo Parg / Wikimedia Commons)A criação não permaneceu silenciosa: uma flauta de osso com cinco orifícios mostra que as comunidades de Hohle Fels também transformavam a paisagem da Era do Gelo em música (Foto: Tomatenpflanze / Wikimedia Commons)Nada disso nasceu em uma única oficina: Hohlenstein-Stadel integra uma rede de seis cavernas onde esculturas, adornos e instrumentos ficaram protegidos entre camadas de 43 mil a 33 mil anos (Foto: Thilo Parg / Wikimedia Commons)A sequência termina onde começou: no interior escuro de Hohle Fels, cujos sedimentos guardaram não apenas objetos, mas sinais de pessoas capazes de observar, imaginar e transmitir ideias há 40 mil anos (Foto: Franzfoto / Wikimedia Commons)
Mesmo com menos de 2,5 centímetros, as esculturas mostram olhos, bicos e marcas semelhantes a penas. Para os pesquisadores, esse cuidado revela a capacidade de observação e o domínio técnico dos primeiros artistas que viveram na região.
Arte em miniatura
As duas peças estavam na mesma camada de sedimentos e a cerca de 1,5 metro uma da outra. Como foram produzidas no mesmo período e seguem uma linguagem semelhante, os pesquisadores consideram possível que tenham saído das mãos da mesma pessoa.
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Nicholas Conard, arqueólogo da Universidade de Tübingen e diretor das escavações, destaca que as figuras não apresentam formas genéricas. “As esculturas não são altamente estilizadas, mas incluem muitas características específicas e únicas”, afirmou em comunicado da universidade.
Esses elementos ajudam a formular hipóteses sobre as espécies. A ave deitada pode representar uma lagópode, integrante da família dos galináceos. Ossos desse animal já apareceram nas camadas pré-históricas da própria caverna.
A lagópode-alpina é uma das espécies consideradas na tentativa de identificar a ave representada na escultura. (Foto: Chme82 / Wikimedia Commons)
A identidade da segunda peça permanece mais aberta. Ela também pode retratar uma lagópode, embora o formato permita considerar uma ave de rapina. A posição das asas ainda oferece diferentes leituras, entre voo, pouso e comportamento de corte.
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Caverna dos artistas
Hohle Fels integra um conjunto de seis cavernas do Jura da Suábia reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco. Escavações realizadas na região desde o século 19 encontraram objetos produzidos entre 43 mil e 33 mil anos atrás.
A caverna Bockstein faz parte do conjunto de cavernas e sítios com arte da Era do Gelo no Jura da Suábia. (Foto: Thilo Parg / Wikimedia Commons)
Entre os achados estão figuras de animais, adornos pessoais e instrumentos musicais. A concentração dessas peças transforma o local em uma referência para estudar como os primeiros Homo sapiens que chegaram à Europa registravam o ambiente e atribuíam significado ao mundo ao redor.
A caverna já havia revelado outra ave de marfim. O corpo da figura apareceu em 2001, enquanto a cabeça e o pescoço foram identificados no ano seguinte. Com quase cinco centímetros, ela lembra uma ave aquática prestes a mergulhar.
Escultura de uma ave aquática feita de marfim de mamute e encontrada em Hohle Fels a partir de fragmentos descobertos em 2001 e 2002. (Foto: Catatine / Wikimedia Commons)