Uma experiência de estresse durante a adolescência pode deixar efeitos no cérebro por mais tempo do que quando o mesmo tipo de situação acontece na fase adulta. É o que aponta uma pesquisa conduzida pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.
O estudo observou alterações persistentes na atividade cerebral de ratos submetidos a situações repetidas de estresse durante a adolescência. Nos animais adultos, as mudanças provocadas pelo mesmo protocolo foram temporárias e apresentaram maior recuperação.
Os resultados ajudam a explicar por que a adolescência pode representar um período especialmente sensível para o cérebro. Nessa fase, algumas estruturas responsáveis pelo equilíbrio da atividade neural ainda passam por um processo intenso de maturação.

O cérebro ainda está em formação
A pesquisa analisou o córtex pré-frontal medial, região relacionada à tomada de decisões, ao controle emocional e ao comportamento. Os pesquisadores queriam entender por que uma situação estressante pode produzir efeitos diferentes dependendo da fase da vida em que acontece.
Nos animais que passaram pelo estresse durante a adolescência, as alterações permaneceram por semanas após o fim da exposição e continuaram presentes na fase adulta.
Já entre os animais adultos, as modificações observadas foram temporárias. O resultado sugere que o cérebro maduro apresenta maior capacidade de recuperação diante daquele protocolo de estresse.
A disputa entre aceleração e freio
Para entender o mecanismo, os cientistas observaram dois grupos de células cerebrais. Os neurônios excitatórios funcionam como uma espécie de acelerador, enquanto os neurônios inibitórios atuam como um freio sobre a atividade cerebral.
Esse equilíbrio ajuda a manter as redes neurais funcionando de maneira coordenada. No entanto, os animais expostos ao estresse durante a adolescência apresentaram aumento persistente da atividade dos neurônios excitatórios e alterações prolongadas nos neurônios inibitórios.
A pesquisa também identificou mudanças nas chamadas oscilações gama, padrões rítmicos de atividade elétrica que participam da comunicação entre diferentes regiões do cérebro.
Nos animais submetidos ao estresse na adolescência, essas oscilações apresentaram uma redução duradoura no córtex pré-frontal medial. Para os pesquisadores, a alteração pode indicar prejuízo na coordenação das redes neurais.
Relação com a saúde mental
Isso não significa que todo adolescente exposto ao estresse desenvolverá um transtorno mental. O próprio estudo destaca que os resultados apontam para um aumento de vulnerabilidade associado à exposição prolongada ao estresse durante uma fase sensível do desenvolvimento cerebral.
A pesquisa também reforça o interesse em estratégias de prevenção e cuidado durante a adolescência. Segundo os pesquisadores, identificar pessoas com maior responsividade ao estresse e oferecer suporte para lidar com situações adversas pode ajudar a reduzir o risco de evolução para esses transtornos.
O trabalho foi publicado na revista Cerebral Cortex e foi conduzido pela pós-doutoranda Flávia Verza, sob coordenação do professor Felipe Villela Gomes, da FMRP-USP.
Observação: o estudo foi realizado em ratos. Portanto, os resultados ajudam a investigar mecanismos cerebrais relacionados ao estresse, mas não permitem afirmar que os mesmos efeitos ocorrerão necessariamente em todos os seres humanos.






