Microrganismo “desconhecido” que causa cheiro e gosto na água muda tratamento em Joinville com sommeliers e implantação de carvão ativado

Rio Cubatão, que apresenta o problema, abastece mais de 75% da cidade

Compartilhe:

Microrganismo foi encontrado no Rio Cubatão (Foto: Mauro Schlieck, CVJ e Patrick Rodrigues, NSC Total)

Do alto da montanha na região da Serra Dona Francisca, o Rio Cubatão nasce e de lá corre em paralelo com a SC-418. Ao chegar em determinado ponto do percurso, suas águas são captadas, tratadas e, a partir disso, passam a encher as torneiras das casas de mais de 75% da população de Joinville. É lá no Rio Cubatão que também “mora” um microorganismo, que pode ser visto somente em microscópio, responsável por causar episódios de cheiro e gosto de terra na água limpa que chega nas casas e causam estranhamento no paladar, apesar de inofensivos à saúde pública. 

Continua após a publicidade

Apesar do tamanho, esse pequeno “ser” já foi capaz de causar uma verdadeira mudança na forma de tratar a água na cidade. Até sommelier de água Joinville ganhou. Carvão ativado também foi incorporado no sistema de tratamento, em um investimento de R$ 600 mil. Foi por causa desse microrganismo, ainda, que a Companhia Águas de Joinville passou a investir em uma nova pesquisa científica, que quer descobrir exatamente quem é ele, definindo-o em gênero e espécie para que, então, se possa descobrir o que provoca a sua incidência dentro do Rio Cubatão.

Como é feito o tratamento de água em Joinville

O que pode causa cheiro e gosto na água

Há inúmeros fatores que podem levar uma localidade a registrar cheiro e gosto na água tratada. É o que aponta o engenheiro sanitário e ambiental, especialista em tratamento de águas, Maurício Luiz Sens. Professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sens explica que essas ocorrências podem ser causadas por microalgas, cianobactérias e outros microrganismos.

Continua após a publicidade

A contaminação na água por esses microrganismos também pode ocorrer por inúmeros fatores. “Contaminação que acontece principalmente por pássaros. Eles migram de um lugar para outro e vão levando a contaminação. Mas, também, em regiões, às vezes industriais, pode haver lançamento de outros produtos. São milhares de novos produtos por ano que têm no mercado e tudo vira um resíduo que acaba um dia chegando na água, pelo menos em parte […] E a agricultura pelo de agrotóxico e também fertilizantes. Sempre, ao menos uma parte desses produtos, chega na água”, cita.

Em alguns casos, comenta a professora das disciplinas de Tratamento de Água e Operações Unitárias do curso de Engenharia Ambiental da Univille, Sandra Medeiros, o problema que causa esse cheiro e gosto também pode estar ao longo da tubulação que leva a água para as casas. 

“É uma das questões mais difíceis, realmente, desde a saída da ETA até a chegada na casa das pessoas, [a água] passa por muitos locais, há possibilidades de infiltração, que ao longo do tempo, isso vai acontecendo, então é muito difícil de você fazer, às vezes, essa localização, onde está o ponto na tubulação que ocorreu uma infiltração, por exemplo”, explica.

Como o professor Sens adiantou, em alguns locais já foi identificado que o cheiro e gosto na água foi causado por cianobactérias, como foi o caso do Rio de Janeiro no início de 2020, por exemplo. Entretanto, na ETA Cubatão, especificamente, já foi encontrado o que motiva o problema: trata-se de um microrganismo do grupo actinomiceto. Ainda não se sabe de qual gênero, espécie e por qual razão ele está no Rio Cubatão.

Continua após a publicidade

“Na maioria das grandes cidades, as estações de tratamento funcionam a partir de represas. É porque elas precisam concentrar a água para captar. Nós temos a benção de contarmos com um rio que fica a 10 quilômetros da nascente. Então ele é um rio de curso lótico, a gente diz, de corredeira. Então as condições para os microrganismos que produzem esse gosto e odor, aqui, na nossa situação da ETA Cubatão, são totalmente diferentes das condições da maioria das cidades onde são represas que abastecem”, enfatiza a bioquímica que conduz a pesquisa na Companhia Águas de Joinville, Liana Ruwer.

A especialista explica que, no caso de Joinville, esse microrganismo do grupo actinomiceto fica no rio e solta uma nanograma de molécula 2-MIB na água, o que gera o cheiro e o gosto de terra ou barro no líquido que a população bebe. Porém, ela enfatiza que ele não causa problemas de saúde, apenas o desconforto por conta do paladar. 

Continua após a publicidade

Por que isso não acontece na ETA Piraí?

O gerente da Água da Companhia, Lucas Emanuel Martins, explica que esses episódios de gosto e cheiro de terra na água não ocorrem na Estação de Tratamento Piraí porque o rio é um manancial da serra e quase não há nenhuma ocupação humana nele.

“É um manancial totalmente isento de influência humana e a qualidade da água é quase de uma nascente de fato. Já o Rio Cubatão, a bacia dele já está inserida numa área onde a gente tem várias contribuições dentro da bacia, seja de pessoas que estão morando aqui, de cultura, de criações de animais. Isso gera uma condição mais favorável para proliferação de microrganismos”, comenta.

Continua após a publicidade

O que pode ser feito para combater o gosto e cheiro na água

Os especialistas são unânimes em afirmar que o carvão ativado é uma das principais formas de combater este problema. Entretanto, ele pode ser usado de diversas maneiras.

“Nós podemos usar o carvão ativado em pó ou granular. O em pó é hoje mais utilizado porque se eu já tenho uma estação de tratamento de água, é muito mais fácil colocar o carvão ativado em pó, adaptar e começar a lançar o pó no início do tratamento. Ele vai ficar no processo de decantação e filtração. Ele captura o poluente, todos esses agrotóxicos, fármacos, metais pesados e essas microalgas e cianobactérias”, explica Sens.

Continua após a publicidade

Porém, é um serviço caro, afirma. O professor conta que há poucos produtores no mercado, o que encarece a compra do material.  Porém, essa seria a solução mais rápida e que pode ser aplicada no tratamento.

Ainda, Sens afirma que há outras possibilidades como o carvão ativado granular, do qual é defensor. Diferente do em pó que é adicionado nas etapas já existentes do tratamento, o granular vira uma etapa à parte. Por isso, é mais díficil adicioná-lo em uma estação já existente. Ele pode ser indicado para estações que ainda estão em construção.

Continua após a publicidade

“Vamos supor que eu tenho uma poluição maior agora, esse carvão ativado granular no final do tratamento, ele vai fazendo o seu papel e tirando contaminantes que nós nem sabemos que têm na água porque essas substâncias orgânicas são mais sofisticadas. Precisa de cromatografia, absorção atômica, técnicas que as estações de tratamento de água não dispõem, tem que tirar a amostra e mandar fazer a análise, e ela é cara. Então, se eu tenho esse carvão ativado granular no final, mesmo que eu tenha uma poluição no rio que eu não sei, esse carvão ativado vai estar fazendo o serviço”, comenta.

Há também a possibilidade de outros processo, entretanto, é necessário checar sua viabilidade.

Continua após a publicidade

“São mais caros. Um é ultravioleta, um processo oxidativo avançado, uma tecnologia de membrana, só que aí, dificilmente você vai encontrar uma ETA com essas tecnologias. Elas são muito mais caras e trariam um custo maior para para o município”, ressalta a professora Medeiros.

O que tem feito sido feito para combater o gosto e cheiro na água em Joinville

Conforme o gerente da Águas de Joinville, foram investidos R$ 600 mil para incorporar o carvão ativado no tratamento de água na cidade. Em pó, ele é aplicado no início do tratamento.

Continua após a publicidade

Ruwer explica que esse microrganismo do grupo actinomiceto solta uma nanograma de molécula que gera o cheiro. Enquanto o indivíduo fica no rio, a molécula vem pra água. O carvão ativado adsorve a molécula, ou seja, ela gruda na superfície do carvão e ele fica “para trás” na etapa do decantador ou do filtro.

Para construir toda a estrutura que vai abrigar e incluir o carvão em pó foram investidos mais de meio milhão de reais. O espaço ficou pronto em maio deste ano. Entretanto, o custo é ainda maior. “Em termos de produto, hoje a gente paga em torno de R$ 11 o quilo do carvão ativado e a gente usa em torno de quatro toneladas por dia de carvão. Ele aumenta o nosso custo de insumos em quase seis vezes no período que está sendo usado. Então ele é um custo bem elevado. Por isso que ele não é colocado sempre”, cita Martins.

Continua após a publicidade

O carvão ativado é colocado no tratamento quando é identificado gosto e cheiro na água. Funcionários da Companhia foram treinados para se tornarem uma espécie de sommelier, para provar, degustar e analisar o gosto e cheiro da água.

Como funciona o “sommelier” de água

Os funcionários recebem cerca de seis copos de água. Eles vão analisar o cheiro e gosto de cada um. Enquanto em um copo é colocado água ultrapura, nos outros são dispostos água direto da captação, água tratada da torneira, sem o carvão ativado, e água com o microrganismo que gera o problema. Sem saber qual copo é qual, eles analisam para ver quais apresentam o cheiro e o gosto.

Continua após a publicidade

Pesquisas

Além disso, a Companhia Águas de Joinville tem investido em pesquisas, tanto de qualidade da água, a partir de uma empresa terceirizada, quanto para identificar qual é o causador do problema. 

Feita por empresa contratada, uma das pesquisas serve para analisar o processo de tratamento, indicar o que pode ser feito para melhorias. Para isso, estão fazendo simulações do tratamento, identificar se o cheiro e gosto ficam na água e, também, testar e definir dosagens de produtos químicos da estação.

Continua após a publicidade

“Estamos tentando identificar a sazonalidade dele, mas a gente precisa entender primeiro qual que é o microrganismo, depois quais são os mecanismos de reprodução dele, o que que ele gosta de se alimentar, qual que é a condição que ele gosta para se reproduzir, para daí, se a gente conseguir, entender o porquê que em algumas épocas do ano ele se reproduz mais e gera mais essa essa molécula 2-MIB, que é o que faz a gente identificar o gosto de terra”, cita Martins.

O que se sabe até o momento é o grupo do qual o microrganismo faz parte, que é o actinomiceto. Porém, ainda não se sabe o gênero e espécie dele, o que está sendo estudado no momento.

Continua após a publicidade

Após essas descobertas, a intenção é atuar na causa da proliferação do microrganismo. Enquanto a pesquisa avança, a companhia segue a aplicação do carvão ativado de forma esporádica. Se a população sentir o cheiro ou gosto na água, pode notificar a Companhia por meio do autoatendimento ao cidadão. Mas, devido aos investimentos, os moradores devem ser cada vez menos impactados pelo problema.