Mulher que viveu há 30 mil anos deixou em caverna francesa uma pista que muda a compreensão sobre os contatos entre antigos habitantes da Europa 

Análise de três genomas pré-históricos ajuda a rever a ideia de isolamento entre comunidades da Idade da Pedra

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Caverna de Isturitz, no sudoeste da França, preservou vestígios humanos que ajudaram cientistas a identificar conexões genéticas entre populações europeias de 30 mil anos atrás. (Foto: Reprodução/Wikimedia Commons)

Um osso de cerca de 30 mil anos encontrado em uma caverna no sudoeste da França trouxe uma pista sobre a história dos primeiros humanos modernos na Europa. Ao examinar o material, cientistas descobriram que a mulher à qual ele pertenceu reunia marcas genéticas de populações do oeste e do centro-leste europeu, regiões que até então eram consideradas pouco conectadas durante aquele período.

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A descoberta integra um estudo publicado na revista Science Advances. Os pesquisadores compararam o DNA de três pessoas que viveram na Europa pré-histórica, em territórios que hoje fazem parte da França, da Espanha e da Itália. O resultado sugere que as relações entre essas comunidades eram mais complexas do que indicavam as análises anteriores.

Uma pista guardada na França

A peça decisiva veio da caverna de Isturitz, onde foram encontrados restos mortais de uma mulher que viveu há aproximadamente 30 mil anos. O DNA preservado no osso permitiu aos pesquisadores investigar as origens de seus ancestrais.

A maior parte da composição genética da mulher estava associada às populações do oeste europeu. Havia, porém, uma contribuição ligada a grupos que viveram mais a leste, incluindo regiões centrais do continente.

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Segundo a pesquisa, os modelos genéticos situam essa troca de ancestralidade entre 31.500 e 32.500 anos atrás. Uma das explicações consideradas é o deslocamento de grupos humanos do leste em direção ao oeste, seguido de contatos entre populações.

Isso não significa que os cientistas tenham reconstituído uma viagem ou identificado o caminho percorrido por uma pessoa específica. O que o estudo encontrou foi um sinal de mistura genética que ajuda a compreender relações estabelecidas ao longo de gerações.

Por que isso surpreendeu

Na época em que essa mulher viveu, a Europa abrigava comunidades ligadas à cultura gravetiana, presente no continente entre aproximadamente 34 mil e 25 mil anos atrás.

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Esses grupos deixaram vestígios arqueológicos, como ferramentas e pequenas estatuetas humanas conhecidas como Vênus. Objetos semelhantes encontrados em diferentes regiões já apontavam para possíveis contatos culturais entre comunidades distantes.

A genética, entretanto, oferecia uma visão mais dividida. Antes da nova análise, os especialistas dispunham de DNA obtido de cerca de duas dezenas de esqueletos associados ao período. Com esse conjunto limitado, a interpretação predominante era a de que as populações do leste e do oeste mantinham pouca mistura genética.

A amostra de Isturitz acrescenta uma informação que faltava: a existência de conexões biológicas entre esses grupos, mesmo que conservassem características genéticas próprias em diferentes partes da Europa.

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O papel da caverna

A localização de Isturitz também ajuda a explicar o interesse dos pesquisadores. Situada em uma passagem entre o interior do continente e a Península Ibérica, a caverna pode ter funcionado como ponto de encontro de comunidades pré-históricas.

O lugar guarda vestígios de diferentes períodos de ocupação. Neandertais passaram pelo local muito antes da mulher estudada, enquanto materiais de épocas posteriores também foram recuperados no sítio, incluindo recipientes feitos de crânios humanos.

Por isso, a caverna não oferece apenas um registro individual. Seu histórico arqueológico permite relacionar o DNA analisado a uma paisagem que recebeu diferentes grupos humanos durante milhares de anos.