Por 35 anos, a Coreia viveu sob o domínio do Império Japonês. Em 22 de agosto de 1910, um tratado transferiu oficialmente a soberania da península para o Japão, dando início a um período marcado por censura, exploração econômica e tentativas de enfraquecer a identidade coreana.
Para entender como isso aconteceu, porém, é preciso voltar algumas décadas.
A Coreia entre China e Japão
Durante séculos, a Coreia esteve inserida em uma ordem regional organizada em torno da China.
A dinastia Joseon, que governou a península entre 1392 e 1910, mantinha uma relação tributária com os impérios chineses Ming e Qing. Isso não significava que a Coreia fosse uma província chinesa, mas colocava o território dentro da esfera de influência política e diplomática de Pequim.
No século 19, esse cenário começou a mudar.
A China Qing enfrentava rebeliões internas, dificuldades econômicas e a pressão das potências ocidentais, especialmente após as Guerras do Ópio.
Enquanto isso, o Japão passava por uma transformação acelerada.
Japão se transforma em potência
Após um longo período de restrição ao contato estrangeiro durante o xogunato Tokugawa, o Japão abriu seus portos diante da pressão ocidental.
Em 1868, começou a Restauração Meiji, que centralizou o poder em torno do imperador e promoveu reformas militares, econômicas e administrativas.
Em poucas décadas, o país havia se transformado em uma potência industrial e militar. Nesse contexto, a Coreia ganhou importância estratégica para os japoneses.
Em 1875, um navio japonês provocou um incidente próximo à Ilha Ganghwa. O episódio foi usado para pressionar o governo coreano a assinar, em 1876, o Tratado de Ganghwa.
O acordo abriu os portos coreanos ao comércio japonês e concedeu direitos extraterritoriais aos cidadãos japoneses. A Coreia também foi declarada um Estado independente, medida que enfraquecia sua tradicional relação com a China.
Guerras aumentam a influência japonesa
A disputa pela influência sobre a península cresceu até a Primeira Guerra Sino-Japonesa, entre 1894 e 1895. O Japão venceu e enfraqueceu a posição chinesa na região, desmantelando a antiga relação tributária da Coreia com a China.
No ano seguinte, em outubro de 1895, agentes japoneses assassinaram a rainha Min, posteriormente conhecida como Imperatriz Myeongseong, uma das principais figuras contrárias à influência japonesa.
O rei Gojong buscou proteção na legação russa e, em 1897, proclamou o Grande Império Coreano. A tentativa de reafirmar a soberania, entretanto, não impediu a expansão japonesa.
Durante a Guerra Russo-Japonesa, entre 1904 e 1905, a Coreia declarou neutralidade, mas foi obrigada a permitir a utilização de seu território pelas forças japonesas.
A vitória do Japão sobre a Rússia consolidou o país como a principal potência estrangeira na região e abriu caminho para transformar a Coreia em protetorado japonês.
A anexação de 1910
Em 1907, Gojong tentou chamar a atenção internacional para a situação coreana ao enviar representantes à Conferência de Paz de Haia. A iniciativa fracassou e provocou uma reação ainda mais dura de Tóquio.
Gojong foi forçado a abdicar, o exército coreano foi dissolvido e a autonomia restante foi progressivamente eliminada. Três anos depois, em 22 de agosto de 1910, veio a anexação formal.
Censura e exploração
Sob administração japonesa, os coreanos perderam direitos políticos fundamentais, como liberdade de reunião, imprensa e expressão.
O sistema educacional também foi alterado. Escolas particulares que não seguiam os padrões coloniais eram fechadas, enquanto o ensino da língua japonesa ganhava espaço. A língua e a história coreanas foram retiradas de partes importantes do currículo.
A posse da terra também foi afetada.
Uma lei de levantamento fundiário obrigava proprietários a registrar suas terras. Quem não cumprisse as exigências poderia perdê-las. Terras pertencentes coletivamente a vilas ou clãs também foram apropriadas.
Muitas acabaram vendidas a preços baixos para japoneses, fazendo com que diversos agricultores coreanos perdessem seus meios de subsistência e migrassem para a Manchúria, o Japão e outras regiões.
O Movimento Primeiro de Março
A resistência ao domínio japonês continuou.
Em 1º de março de 1919, poucas semanas após a morte de Gojong, coreanos de diferentes partes da península participaram de manifestações pela independência em Seul.
O movimento ficou conhecido como Movimento Primeiro de Março e teria reunido cerca de dois milhões de pessoas.
A resposta japonesa foi violenta. Cerca de 47 mil coreanos foram presos, aproximadamente 10.500 foram formalmente indiciados e milhares morreram ou ficaram feridos.
Ainda em 1919, líderes coreanos estabeleceram em Xangai um governo provisório, que passou a coordenar parte da resistência no exílio.
A exploração durante a guerra
A partir da década de 1930, a exploração econômica se intensificou.
A Coreia passou a fornecer alimentos e recursos para sustentar as guerras japonesas. Muitos agricultores foram pressionados a aumentar a produção de arroz, enquanto os coreanos precisavam consumir cereais de qualidade inferior importados da Manchúria.
A partir de 1937, a tentativa de apagar a identidade coreana também se intensificou. Coreanos foram obrigados a adotar nomes japoneses, participar de práticas religiosas associadas ao xintoísmo e ficaram privados de instituições dedicadas aos estudos coreanos.
Centenas de milhares de homens e mulheres foram mobilizados para trabalhar em minas, fábricas e instalações militares ou servir nas forças japonesas. Muitas coreanas também foram exploradas sexualmente e ficaram conhecidas como “mulheres de conforto”.
Em 1941, o Governo Provisório Coreano, então transferido de Xangai para Chongqing, declarou guerra ao Japão e organizou o Exército de Restauração Coreano, que participou dos combates ao lado dos Aliados na China.
Em agosto de 1945, o Japão se rendeu.





