O segredo vermelho que resistiu a 2 mil anos: pinturas rupestres podem esconder receita de tinta com sangue

Pesquisadores investigam como antigas pinturas em paredões da China mantiveram sua cor intensa por séculos, e uma possível resposta está em um ingrediente surpreendente

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Análises encontraram proteínas que levantam a hipótese de que sangue humano e animal tenha sido usado na preparação da tinta, embora a origem exata ainda seja debatida (Foto: Rolfmueller / Wikimedia Commons)

Análises encontraram proteínas que levantam a hipótese de que sangue humano e animal tenha sido usado na preparação da tinta, embora a origem exata ainda seja debatida (Foto: Rolfmueller / Wikimedia Commons)

Por quase dois mil anos, a cor vermelha de pinturas feitas em paredões de pedra no sul da China permaneceu viva. Chuva, calor, vento e umidade não conseguiram apagar completamente as imagens.

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Agora, pesquisadores acreditam ter encontrado uma pista para explicar tamanha resistência: o sangue pode ter feito parte da antiga receita da tinta.

As pinturas pertencem ao conjunto conhecido como Paisagem Cultural de Arte Rupestre de Zuojiang Huashan, localizado no vale do rio Zuojiang, próximo à fronteira da China com o Vietña.

As obras estão espalhadas por mais de 80 locais ao longo de aproximadamente 260 quilômetros.

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Uma pintura que resistiu ao tempo

As imagens foram produzidas sobre paredões de calcário e mostram tambores, sinos, armas, animais e figuras humanas.

Arqueólogos acreditam que elas tenham sido criadas entre o século 5 a.C. e o século 2 d.C. pelos Luoyue, uma sociedade de caçadores, pescadores e coletores liderada por mulheres e que seguia uma organização matrilinear.

O que chama atenção é o estado de conservação. Mesmo expostas durante séculos às condições do ambiente, muitas das pinturas continuam apresentando um vermelho intenso e brilhante.

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Foi justamente essa durabilidade que levou pesquisadores a investigar do que era feita a tinta.

O sangue pode estar na antiga receita

Para tentar descobrir o segredo, os pesquisadores analisaram cinco fragmentos que haviam se desprendido das pinturas em três locais diferentes.

As amostras passaram por diferentes técnicas, incluindo análises com luz infravermelha, observação em microscópio de alta potência e identificação das proteínas presentes no material.

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Os resultados indicaram que os artistas podem ter preparado a pintura em duas etapas.

Primeiro, eles teriam reunido ossos de animais ou fezes de aves, calcário ou conchas. Esses materiais eram aquecidos para produzir uma mistura contendo fosfato de cálcio e cal virgem.

Depois, água e sangue eram acrescentados, formando uma espécie de emulsão. Essa mistura funcionaria como uma camada de preparação aplicada diretamente sobre a rocha.

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Como a tinta conseguiu ficar presa à pedra

Depois que a primeira camada secava parcialmente, os artistas aplicavam por cima uma solução feita com água e argila vermelha local rica em óxido de ferro.

O processo químico teria ajudado a criar uma ligação extremamente forte entre o pigmento e o calcário.

Segundo a pesquisa, as proteínas do sangue ajudavam na formação de carbonato de cálcio enquanto a cal reagia com o dióxido de carbono presente no ar.

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O resultado foi uma pintura tão bem aderida à superfície que, séculos depois, pesquisadores precisaram usar uma furadeira elétrica para separar as camadas de tinta da rocha.

Mas de quem era o sangue?

Em uma das áreas analisadas, cerca de 97% das proteínas identificadas no sangue tinha origem humana. O restante vinha de animais como vacas, antílopes, ovelhas e cabras.

Em uma amostra de outro local, as proteínas apresentaram proporções aproximadamente iguais entre sangue humano e animal.

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Os pesquisadores também encontraram duas proteínas, prolactin-inducible protein e lactotransferrina, que aparecem em concentrações elevadas no sangue de mulheres grávidas.

A partir disso, levantaram uma hipótese: parte do sangue utilizado na pintura poderia ter sido coletada durante ou depois do parto.

A possibilidade ganhou força porque algumas das próprias pinturas representam mulheres grávidas, relações sexuais e homens com os órgãos genitais destacados.

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Uma hipótese que ainda divide especialistas

Apesar de intrigante, a ideia de que sangue relacionado ao parto fazia parte da receita ainda não é uma certeza.

Matthew Collins, arqueólogo da Universidade de Cambridge que não participou do estudo, considerou a pesquisa interessante, mas levantou a possibilidade de contaminação das amostras em laboratório.

Segundo ele, os sinais de sangue humano eram fracos, e os resultados podem ter sido interpretados além do que os dados permitem.

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Outro pesquisador, José Miguel Perez-Gomez, também observou que as duas proteínas encontradas não são exclusivas de pessoas grávidas.

Ele destacou ainda que o estudo analisou apenas um pequeno número de amostras e não encontrou DNA humano antigo, o que impede determinar exatamente de quem era o sangue usado.