Um palácio construído há cerca de 2.800 anos na antiga cidade de Yeha, no norte da Etiópia, tinha paredes estruturalmente capazes de sustentar um edifício de 16 andares. A conclusão é de uma análise de pesquisadores do Instituto Arqueológico Alemão e da Universidade Técnica de Cottbus-Senftenberg, que reconstruíram digitalmente partes do Grat Be’al Gibri para testar os limites da engenharia da construção.
Hoje restam apenas trechos do piso térreo, do pódio, escadas e alguns elementos de pedra. O edifício foi destruído por um incêndio na Antiguidade, o que dificulta saber como era a configuração original. Ainda assim, os vestígios preservados permitiram estudar o modo como as paredes foram erguidas.
Para que o palácio era usado
O Grat Be’al Gibri provavelmente funcionava como centro administrativo e residência da elite governante de Yeha. Pesquisadores do Instituto Arqueológico Alemão identificaram características que o aproximam de complexos palacianos da Arábia do Sul, usados para funções administrativas e residenciais.
A construção também tinha espaços de armazenamento, onde mercadorias valiosas eram guardadas. Algumas portas desses ambientes aparentemente eram seladas, indício de que o controle sobre os produtos fazia parte da função do complexo.
O edifício ainda pode ter servido como espaço de representação de poder. A dimensão, a entrada monumental com pilares de pedra de cerca de 10 metros e a localização próxima ao Grande Templo indicam importância muito além de uma residência comum. A Unesco considera que a arquitetura do palácio fornece evidências de uma sociedade altamente centralizada em Yeha durante o primeiro milênio antes de Cristo.
O segredo estava na combinação de pedra e madeira
A estrutura usava pedra de pedreira e argamassa de argila, reforçadas por vigas de madeira dispostas horizontalmente dentro das paredes, em camadas. A técnica funcionava como sistema de reforço e aumentava a capacidade de suportar carga.
As paredes do pódio têm cerca de 2,2 metros de espessura, e as do térreo, cerca de 1,9 metro.
Para entender o comportamento dessas paredes, os pesquisadores mediram trechos preservados, entre eles uma esquina e uma área de entrada, e transformaram as informações em modelos tridimensionais. Depois simularam o aumento gradual da altura até encontrar o ponto em que a construção perderia estabilidade.
O que os números dizem, e o que não dizem
Os resultados variam conforme as propriedades atribuídas aos materiais.
Com valores de material fixos, o modelo de esquina suportou carga equivalente a cerca de 48 andares, e o de porta, cerca de 56. No cenário mais desfavorável, com cargas pesadas e materiais fracos, os fatores caíram para 19 e 23, respectivamente.
Aplicado o fator de segurança, os pesquisadores chegaram ao número que resume o estudo: as paredes sustentariam 16 andares, o dobro da reconstrução computacional anterior, que trabalhava com oito, sendo cinco pavimentos completos e três níveis menores.
Os autores fazem questão de marcar o limite dessa leitura. Os números indicam a capacidade de carga remanescente dos trechos de parede testados, não a altura real do edifício. Andares superiores provavelmente teriam paredes mais finas, o que deixaria ainda mais folga estrutural.
Um dado chamou atenção: a fragilidade da argamassa de argila pesou mais nos resultados do que a madeira.
O estudo é assinado por Martin Drieschner e Mike Schnelle e foi publicado na revista científica Heritage em 2026.
O palácio realmente tinha 16 andares?
Não há evidência arqueológica de que o Grat Be’al Gibri tenha sido construído com essa altura. O que a análise mostra é que a estrutura poderia, em determinadas condições, suportar uma construção dessa dimensão.
Mesmo a reconstrução mais conservadora, de cerca de oito andares, já representaria uma construção extraordinária para o período, por volta de 800 antes de Cristo.
Há ainda uma consequência interessante nos resultados. Como as cargas normais de uma construção dificilmente derrubariam aquelas paredes, a destruição do palácio exigiu um evento externo de grande porte, compatível com o incêndio registrado no sítio.
O que a descoberta revela sobre a engenharia antiga
O caso de Yeha mostra que construções monumentais não dependiam de aço ou concreto para alcançar vários pavimentos. O conhecimento sobre pedra, madeira, distribuição de cargas e estabilidade já permitia soluções sofisticadas.
Relatos históricos e representações da África Oriental e do sul da Arábia já indicavam a existência de construções muito altas, mas faltavam análises estruturais capazes de testar a viabilidade dessas descrições.
A próxima etapa das pesquisas deve analisar também pisos, coberturas e a geometria do edifício, para tentar reconstruir com mais precisão a aparência original.
Por Juliana Matias







