Palácio de 2.800 anos na África tinha paredes capazes de sustentar 19 andares

Palácio de Yeha surpreende pesquisadores: simulações indicam que paredes reforçadas com madeira poderiam sustentar até 19 andares na época antiga

Compartilhe:
palácio

Palácio de Yeha surpreende pesquisadores: simulações indicam que paredes reforçadas com madeira poderiam sustentar até 19 andares na época antiga. (Foto: Imagem gerada por IA)

Um palácio construído há cerca de 2.800 anos na antiga cidade de Yeha, no norte da Etiópia, tinha paredes estruturalmente capazes de sustentar um edifício de 16 andares. A conclusão é de uma análise de pesquisadores do Instituto Arqueológico Alemão e da Universidade Técnica de Cottbus-Senftenberg, que reconstruíram digitalmente partes do Grat Be’al Gibri para testar os limites da engenharia da construção.

Continua após a publicidade

Hoje restam apenas trechos do piso térreo, do pódio, escadas e alguns elementos de pedra. O edifício foi destruído por um incêndio na Antiguidade, o que dificulta saber como era a configuração original. Ainda assim, os vestígios preservados permitiram estudar o modo como as paredes foram erguidas.

Para que o palácio era usado

O Grat Be’al Gibri provavelmente funcionava como centro administrativo e residência da elite governante de Yeha. Pesquisadores do Instituto Arqueológico Alemão identificaram características que o aproximam de complexos palacianos da Arábia do Sul, usados para funções administrativas e residenciais.

Continua após a publicidade

A construção também tinha espaços de armazenamento, onde mercadorias valiosas eram guardadas. Algumas portas desses ambientes aparentemente eram seladas, indício de que o controle sobre os produtos fazia parte da função do complexo.

O edifício ainda pode ter servido como espaço de representação de poder. A dimensão, a entrada monumental com pilares de pedra de cerca de 10 metros e a localização próxima ao Grande Templo indicam importância muito além de uma residência comum. A Unesco considera que a arquitetura do palácio fornece evidências de uma sociedade altamente centralizada em Yeha durante o primeiro milênio antes de Cristo.

O segredo estava na combinação de pedra e madeira

A estrutura usava pedra de pedreira e argamassa de argila, reforçadas por vigas de madeira dispostas horizontalmente dentro das paredes, em camadas. A técnica funcionava como sistema de reforço e aumentava a capacidade de suportar carga.

As paredes do pódio têm cerca de 2,2 metros de espessura, e as do térreo, cerca de 1,9 metro.

Continua após a publicidade

Para entender o comportamento dessas paredes, os pesquisadores mediram trechos preservados, entre eles uma esquina e uma área de entrada, e transformaram as informações em modelos tridimensionais. Depois simularam o aumento gradual da altura até encontrar o ponto em que a construção perderia estabilidade.

O que os números dizem, e o que não dizem

Os resultados variam conforme as propriedades atribuídas aos materiais.

Continua após a publicidade

Com valores de material fixos, o modelo de esquina suportou carga equivalente a cerca de 48 andares, e o de porta, cerca de 56. No cenário mais desfavorável, com cargas pesadas e materiais fracos, os fatores caíram para 19 e 23, respectivamente.

Aplicado o fator de segurança, os pesquisadores chegaram ao número que resume o estudo: as paredes sustentariam 16 andares, o dobro da reconstrução computacional anterior, que trabalhava com oito, sendo cinco pavimentos completos e três níveis menores.

Continua após a publicidade

Os autores fazem questão de marcar o limite dessa leitura. Os números indicam a capacidade de carga remanescente dos trechos de parede testados, não a altura real do edifício. Andares superiores provavelmente teriam paredes mais finas, o que deixaria ainda mais folga estrutural.

Um dado chamou atenção: a fragilidade da argamassa de argila pesou mais nos resultados do que a madeira.

Continua após a publicidade

O estudo é assinado por Martin Drieschner e Mike Schnelle e foi publicado na revista científica Heritage em 2026.

O palácio realmente tinha 16 andares?

Não há evidência arqueológica de que o Grat Be’al Gibri tenha sido construído com essa altura. O que a análise mostra é que a estrutura poderia, em determinadas condições, suportar uma construção dessa dimensão.

Continua após a publicidade

Mesmo a reconstrução mais conservadora, de cerca de oito andares, já representaria uma construção extraordinária para o período, por volta de 800 antes de Cristo.

Há ainda uma consequência interessante nos resultados. Como as cargas normais de uma construção dificilmente derrubariam aquelas paredes, a destruição do palácio exigiu um evento externo de grande porte, compatível com o incêndio registrado no sítio.

Continua após a publicidade

O que a descoberta revela sobre a engenharia antiga

O caso de Yeha mostra que construções monumentais não dependiam de aço ou concreto para alcançar vários pavimentos. O conhecimento sobre pedra, madeira, distribuição de cargas e estabilidade já permitia soluções sofisticadas.

Relatos históricos e representações da África Oriental e do sul da Arábia já indicavam a existência de construções muito altas, mas faltavam análises estruturais capazes de testar a viabilidade dessas descrições.

Continua após a publicidade

A próxima etapa das pesquisas deve analisar também pisos, coberturas e a geometria do edifício, para tentar reconstruir com mais precisão a aparência original.

Por Juliana Matias