Uma ocorrência de perturbação de sossego, dessas que a Polícia Militar de Santa Catarina (PM-SC) atende aos montes todo fim de semana, terminou em caso de repercussão nacional. Uma moradora reclamou do barulho em frente de casa. Exatamente o tipo de situação que, em geral, pode se resolver com uma conversa, sem desentendimento e, quem sabe, sem nem precisar da presença da polícia. Mas não foi o que aconteceu em Jaraguá do Sul, na noite deste sábado (12). O episódio gerou imagens de repercussão nacional, com a candidata a suplente do Senado Fernanda Klitzke (PT) denunciando ter sido alvo de violência policial. Além disso tornou-se um dos principais fatos políticos da eleição de 2026 em SC.
O vídeo mostra a atuação dos dois policiais militares que atenderam ao chamado, um homem e uma mulher. As imagens registradas por testemunhas mostram um comportamento, no mínimo, excessivo da dupla. Fernanda, segundo as gravações, foi derrubada após tentar conter o avanço dos policiais sobre ela e outra pessoa que estava perto. A candidata é advogada, e assim teria se colocado para tentar mediar a questão. Um dos policiais deu tiros de balas de borracha em direção a ela e ainda a chutou caída para tentar fazê-la soltar a perna dele. Os policiais, por sua vez, alegam que foram contidos ao tentarem agir e, portanto, teriam feito o uso da força para conter as pessoas.
As responsabilidades jurídicas cabem às apurações da própria corporação ou do Ministério Público. Mas já é lamentável que uma simples perturbação de sossego tenha terminado em violência, ainda mais sob suspeita de excesso policial. O episódio aconteceu em um momento já sensível: o eleitoral. Nas redes sociais o caso deixou de ser avaliado pela razão e passou a ganhar contornos políticos. O fato de Fernanda ser filiada ao PT e suplente ao Senado na chapa de Décio Lima (PT) virou o centro da maioria das análises.
Prefiro evitar esse caminho, mesmo sabendo que em outros espaços a leitura política é inevitável. Aqui o interesse é pelo fato em si, que poderia envolver uma candidata do PL ou de qualquer outra legenda ou um ser humano qualquer, e a discussão deveria ser a mesma. Não se trata de condenar ninguém, mas de analisar com base nas imagens e nos relatos disponíveis. E é preciso destacar que o episódio diz respeito à atitude de dois policiais militares, não da corporação como um todo. Por isso mesmo é fundamental que a PM seja rigorosa na apuração interna sobre os excessos.
Este é um caso, e este é um momento, em que os ânimos políticos não podem se sobrepor à razão. As narrativas que circulam nas últimas horas não buscam entender o que houve, apenas buscam um argumento que sirva de defesa para o ponto de vista já escolhido. Nesse processo, Fernanda deixou de ser uma mulher, uma advogada, para se tornar a “petista”. E ficou em segundo plano o fato mais simples de todos: tudo começou porque uma família reclamou do barulho na porta de casa.
Uma reclamação de vizinhança, das mais comuns e das mais banais, terminou em agressão, tiros de bala de borracha e, agora, disputa política. O episódio deveria servir para discutir o uso da força pelos agentes de segurança pública em situações semelhantes, um debate que interessa a qualquer cidadão, de qualquer partido. Em vez disso, virou munição para narrativas prontas, enquanto a pergunta mais simples segue sem resposta: como uma queixa de barulho termina assim?
