Quis o destino que eu começasse a carreira profissional nas eleições de 1982 — agora, cá estamos em 2026. Lá atrás, cobrindo a vitória de Leonel Brizola para o governo do Estado do Rio como freelancer do finado “Jornal do Brasil”. Agora, participando da cobertura das eleições majoritárias pela NSC. Lá atrás, uma eleição ainda na ditadura. Agora, uma eleição em plena democracia. Lá atrás, eu tinha 21 anos, cabelos encaracolados, muitos sonhos. Agora aos 65 anos, proeminentes entradas no couro cabeludo, ainda mantenho sonhos do menino que fui.
Como diria o Rei Roberto Carlos, são muitas eleições, entende… A grande maioria aqui, duas nos Estados Unidos – a reeleição de George Bush Filho em 2004 e a primeira e histórica vitória de Barack Obama, em 2008.
Vi de tudo um pouco no Brasil, para ficar nas eleições presidenciais. A escolha e o impeachment do “Caçador de Marajás”. As duas vitórias de FHC e, depois, as duas do “Sapo Barbudo”. A reeleição e o impeachment de Dilma. A chegada de Bolsonaro ao Palácio do Planalto e a volta de Lula ao poder. E em 2026 a disputa nacional contaminada pelo furdunço no monstrengo institucional chamado Supremo Tribunal Federal.
Uma bagunça que se transforma num espetáculo de luz e cor para os candidatos que não têm projetos. Afinal, hoje não se discute o país e suas principais preocupações. Não se fala de economia, saúde, transportes, mudanças climáticas, facções criminosas, violência contra as mulheres, o crescimento da população de rua, educação, habitação. O mundo das ideias, que já era de uma escassez atroz, se perde na ladainha, na desfaçatez política, na algazarra estrelada pelos distintos ministros do STF.
A curtição agora é lacrar, engajar nas redes antissociais — “a cracolândia digital”, como disse brilhantemente o filósofo Eduardo Gianetti.
O bacana agora é investir na pós-verdade, em que cada um acredita na maluquice que quiser — como a visita de extraterrestres uniformizados com o manto sagrado do Botafogo para nos libertar do caos.
O maneiro agora é discursar para as bolhas, focar nos confrontos. Para que entrevistas, para que debates? Cadê as propostas profundas e inovadoras? Onde elas se escondem?
Tudo isso ganha mais vigor quando se tem uma geração de políticos oportunistas, vulgares, ideologicamente analfabetos, com o nível de substância abaixo de zero.
O mundo gira, a caravana passa, as folham caem, os cães ladram, o sol se põe, a vida segue — e “a estupidez insiste sempre”, como escreveu o franco-argelino Albert Camus.
“A Batalha do Chile”
Morreu esta semana, aos 85 anos, Patricio Guzmán, um dos principais documentaristas da América Latina. Ele é o diretor da espetacular e imperdível trilogia “A Batalha do Chile”, na qual mostra, em tempo real, a derrocada da democracia, a derrubada de Salvador Allende e o golpe que pôs o general Augusto Pinochet no poder.
“Um país que não tem cinema documental é como uma família sem álbum de família”, dizia o diretor chileno.
