Eles são contemporâneos, durante anos dividem os holofotes e os troféus. Um, gênio do Barcelona. O outro, monstro do Real Madrid. Um tem 39 anos, 932 gols e joga hoje na Inter de Miami. O outro, 41 anos, já balançou as redes 979 vezes e defende as cores do saudita Al-Nassr. Um comandou a Argentina no terceiro título mundial. O outro levou a seleção portuguesa a conquistas importantes na Europa. Um, introvertido. O outro, vaidoso. Um representa a genialidade da liberdade criativa. O outro revela a genialidade da força de vontade. A rivalidade entre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo moldou a história do futebol moderno.
O Tromba, meu pai, dizia sempre: “Craque é craque e vice-versa”. Ele defendia que craques tinham que ser tratados de maneira diferente. “São esses caras que resolvem as partidas, que nos trazem títulos, que nos dão alegria, que nos emocionam, não esses barangos que correm para lá e para cá feito baratas tontas”, repetia o Tromba, meio ranzinza.
Lá atrás, sempre considerei importante encontrar o equilíbrio entre a libertação da criatividade e a exigência da responsabilidade coletiva. Hoje estou com o Tromba. Depois de ver tantos em campo — Pelé, Jairzinho, Gérson, Rivellino, Zico, Romário, Bebeto, Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo, Neymar, Cruyff, Beckenbauer, Maradona, Platini, Zidane, Iniesta, Messi, CR7, Kroos, Mbappé, Kane —, craques precisam realmente ser mimados, afagados, acarinhados, protegidos.
Foi tudo isso o que se viu na terça-feira (6/10), no jogo de despedida de Messi da seleção argentina, em Buenos Aires. Os adversários de Benin reverenciando o craque. Torcedores, crianças, jovens, pais e avôs, chorando sem parar. Companheiros de time derretendo-se em lágrimas. Uma festança emocionante. “Messi já é infinito. E eterno na memória de todos aqueles que tiveram o privilégio de vê-lo jogar”, escreveu o jornalista argentino Sebastián Fest. Um espetáculo da gratidão.
Tudo completamente diferente do que acontece com Cristiano Ronaldo e o selecionado português. Com CR7, Portugal ganhou uma Eurocopa e duas Ligas das Nações da Uefa. Muita coisa para quem não alcançava nada de importante. Mesmo assim, no ocaso de sua brilhante carreira, a relação entre o maior ídolo do país e o também vaidoso técnico Jorge Jesus colapsou publicamente. Uma crise desnecessária.
Que sorte poder testemunhar o talento de dois gênios, cada um ao seu jeito. Tenho o meu preferido, mas é reducionista demais ter de escolher um lado. Sentiremos saudade de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo (e vamos festejar o novo, vamos festejar Yamal, Olise, Bellingham, Estevão, Nico Paz). Talvez, como se diz naquele filme famoso, “todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva”. Ou não.
Supercraques das letrinhas
Por falar em gênios, o cronista Rubem Alves escreveu: “Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade”. Outro craque das letrinhas, o poeta Mario Quintana decretou: “A modéstia é a vaidade escondida atrás da porta”.
