Mãos aos livros

Confira a crônica se César Seabra sobre a importância da literatura

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"Descubro novos e velhos autores. Eles vêm de todas as partes do mundo, de todos os séculos, com seus estilos variados" (Arte: Ben Ami Scopinho, NSC Total)

Num mundo embrutecido em que se lê cada vez menos, faço parte da inextinguível trincheira dos leitores. Leio cada vez mais. Ganho novos amigos — eles surgem das páginas e de fora delas. Com os livros nunca me sinto só. Através deles tenho encontros inesperados. Causam frenesi, medo, alegria, encantamento, repulsa, conhecimento, a expansão da imaginação.

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Descubro novos e velhos autores. Eles vêm de todas as partes do mundo, de todos os séculos, com seus estilos variados. Gosto de muitos, desgosto de alguns. Mas me dedico de corpo e alma a eles. “Os livros abrem mundos dentro do mundo, vidas dentro da vida. É a máxima expansão da experiência de existir, pensar, imaginar e sonhar”, diz Ana Cecília Impellizieri Martins, diretora editorial da Bazar do Tempo.

Nas últimas semanas mergulhei em Paulliny Tort, Paloma Vidal, Gueorgui Gospodinov e Hermann Hesse. Eles são autores, respectivamente, de “Os Imortais” (Editora Fósforo), “O Lado de Lá” (Bazar do Tempo), “Refúgio do Tempo” (Estação Liberdade) e “Narciso e Goldmund” (Record). Quatro livros belíssimos que fazem tudo valer a pena.
“Ler é ir mais além, mais fundo. A leitura nos leva ao nosso mais recôndito mundo interno, a um lugar dentro de nós, um lugar que nem sabíamos que existia. A leitura faz nosso coração parar”, diz Zil Pimentel, livreira da Espelho, uma bonita livraria de São Paulo.

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Não saberia viver sem os conterrâneos Machado, Graciliano, Jorge, Clarice, Rachel, Lygia, Coralina, Carolina, Conceição, Cecília, Nélida, Guimarães, Drummond, Lobato, Hatoum. Não conseguiria resistir sem os mestres russos, sem McEwan, Coetzee, Cervantes, Borges, Gabo, Virginia, Simone, Jane, Cortázar, Bolaño, Fuentes, Carrère, Camus, William, Ernest, Barnes, Saramago, Pessoa, Valter Hugo, Florbela. Sem falar na maravilhosa safra de jovens escritoras do Brasil e da América Latina, como ficar sem elas?

Rabisco páginas, faço anotações. Registro em agendas o que li. No fim de cada ano, escrevo listas dos melhores de ficção brasileira, ficção estrangeira e não ficção. Um bálsamo de exercício.

Sempre dou livros de presente. Desde menino, sempre adorei receber livros de presente. Não sejam tímidos, quero ganhar mais livros de presente.

Venero as bibliotecas, as editoras, os livreiros. Passo horas e horas em livrarias e sebos, nas cidades por onde me perco. São horas e horas de puro êxtase.

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Cada livro puxa outro. Agora me deparo com “Manifesto pela Leitura”, pequena obra de Irene Vallejo, linda edição das editoras Dublinense e Seiva. É uma preciosidade. São quase 80 páginas dedicadas ao saboroso vício da leitura. “Ler é sair do chão”, diz Maurício Stycer, jornalista e escritor que acaba de lançar “Rotas de Fuga (editora Seja Breve).

Li “Manifesto pela Leitura” de uma só vez, numa noite, na cama, com contentamento. Acordei na manhã seguinte e reli “Manifesto pela Leitura”, ainda na cama, novamente com calma e fascinação. No livro, a espanhola Vallejo afirma: “A leitura continuará cuidando de nós se cuidarmos dela. Não pode desaparecer aquilo que nos salva”.
Um só spoiler: Irene Vallejo afirma que o ato de abrir um livro e se concentrar na leitura é uma revolução silenciosa contra a pressa e as distrações causadas pelo mundo moderno, com suas múltiplas telas e a crescente ignorância. Diz a escritora: “Sobretudo, é imprescindível cuidar de quem lê”.

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Minhas poucas leitoras e meus raros leitores, sejamos resistentes.

Minhas poucas leitoras e meus raros leitores, a imbecilidade não vencerá.

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Leiam, leiam mais, leiam cada vez mais, leiam sempre, estimulem a leitura.

“Quem gosta de ler não morre só”, disse Ariano Suassuna.

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Com os livros jamais estaremos sozinhos.

Portanto, camaradas, Mãos aos Livros!

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O inferno e o paraíso

Para o poeta americano Charles Bukowski, “sem a literatura, a vida é um inferno”. E o escritor argentino Jorge Luis Borges afirma: “Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria”.

Para refletir

“Uma livraria, por menor que seja, é o melhor refúgio para um cosmopolita”

Irene Vallejo,
filósofa espanhola

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“A leitura é talvez a última manifestação da imaginação. Sem imaginação não é possível ler literatura, nem compreender verdadeiramente a arte”

László Krasznahorkai,
escritor húngaro

“Se você perde a fé no progresso humano já está escrevendo o nosso fim”

Ian McEwan,
escritor britânico

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“Sempre que estiver farto da vida, comece a escrever: a tinta é o grande remédio para todos os males humanos”

C.S. Lewis,
escritor irlandês

“Reler um bom romance é como regressar após longos anos a um lugar onde fomos felizes, sabendo que a paisagem ainda é a mesma. Nós é que não. Nosso olhar se transformou”

José Eduardo Agualusa,
escritor angolano