Vira-e-mexe alguém me diz, num misto de espanto e alegria: “Caramba, vi o Tim Maia falando de você no Jô Soares”. Envergonhado respondo: “Ih, essa é uma velha história, longa e um pouco divertida”. Vou tentar lembrá-la aqui, trinta anos depois.
Lá pelos idos de 1996, Tim Maia – um dos maiores artistas que este xexelento país já produziu – se apresentaria numa importante casa de show da Zona Sul do Rio de Janeiro. Tim foi, com a poderosa banda Vitória Régia. Alvíssaras, Tim foi mesmo. Tim cantou três ou quatro músicas. Tim reclamou de alguma coisa, provavelmente do som. Tim reclamou mais. Tim reclamou de novo. Tim virou as costas. Tim foi embora.
Enfurecida, a turba destruiu o teatro. Um prejuízo danado. Virou notícia. Como chefe da editoria Grande Rio do jornal “O Globo”, não tive saída: pedi uma reportagem sobre o fato, o que foi corretamente feito. Na manhã do dia da publicação, Tim Maia me ligou – uma, duas, três vezes. (Naqueles tempos falávamos diretamente com os craques das artes e dos esportes.)
1. No primeiro telefonema, Tim reclamou da reportagem, perguntou por que estávamos querendo prejudicá-lo. Respondi que jamais faríamos isso, que aprendi a amar música ouvindo “Gostava Tanto de Você”, “Azul da Cor do Mar”, “Sossego”, “Me Dê Motivo”, “Primavera”, “Um Dia de Domingo”, “Não Quero Dinheiro”. Pontuei que o nosso trabalho era apenas contar com precisão o que havia acontecido. Tim desligou tranquilo.
2. Logo veio o segundo telefonema. Ele cobrava mais explicações sobre a reportagem, repetia que queríamos atrapalhar a sua vida. Respondi: “Tim, quem somos nós para tentar destruir sua carreira? Tim, não somos nada perto de sua grandeza. Tim, não somos nada diante de seu tamanho para a cultura brasileira”. Ele desligou, tenso.
3. Mais alguns minutos e o derradeiro telefonema. Tim estava nervoso. Não havia clima para conversa, declarações de amor e explicações.
Meses depois, Tim foi ao programa de Jô Soares no SBT. Bem-humorado, com aquela risada e aquele vozeirão maravilhosos, contou a versão dele da história, na qual este ser-humano-sem-qualquer-importância-para-o-mundo foi citado. Ganhei, graças ao Tim, 30 segundos de fama. (Sem querer fazer autopropaganda, é fácil achar o vídeo no YouTube.)
Para ficar no óbvio ululante rodrigueano, Tim era uma força da natureza. A ótima biografia “Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia” (editora Objetiva, 2007), do jornalista, escritor e produtor cultural Nelson Motta, revela-se uma intensa crônica da vida deste gigante da MPB. “Nunca conheci uma pessoa tão livre quanto Tim Maia. Ele só fazia o que queria. E depois aguentava o tranco”, disse Motta em entrevista ao “Conversa com Bial”.
Com Tim, o soul e o funk ganharam sotaque carioca, conquistaram identidade nacional. Ah, por favor, não venham me dizer, raras leitores e poucos leitores, que nunca sacudiram o esqueleto com “Do Leme ao Pontal” ou “O Descobridor dos Sete Mares”. Por favor, me poupem.
Tim sempre viveu na tênue linha entre a genialidade e a autodestruição. Era a personificação do transcendental e do caos. Fez muita gente feliz. Fez muita gente infeliz. Fez muita gente sorrir. Fez muita gente perder dinheiro. Teve muitos amigos e muitos inimigos. Morreu cedo, aos 55 anos.
Tim era genial. Com uma frase nos mostrou a crueza e a beleza do mundo: “Na vida, a gente tem que entender que um nasce para sofrer enquanto o outro ri”.
Tim Maia era Tim Maia.
Saudades
Poucos anos depois perdi outro Tim, o Lopes. Jornalista brilhante, a sensibilidade, a criatividade e a generosidade em pessoa. Meu amigo foi assassinado por bandidos no Rio de Janeiro em 2002.
Sinto saudade da voz de Tim Maia.
Sinto saudade da gargalhada de Tim Lopes.
