O obituário em vida

Crônica de César Seabra desta semana aborda a produção "As Últimas Palavras", da Netflix

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A produção carrega uma carga de morbidez. Mas é emocionante, tudo comandado com sensibilidade pelo americano Falchuk (Arte: Ben Ami Scopinho, NSC Total)

O ano chega à reta final, os sinos dobram, lojas e shoppings se preparam para o Natal, aquela correria detestável, e daqui a pouco começaremos a receber as listas das melhores e piores coisas de 2026. Me divirto com as listas, faço as minhas também – livros, filmes, peças, séries, jogos de futebol, exposições.

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Escrevo estas mal traçadas linhas agora, no fim da tarde de 14 de outubro, e posso assegurar sem medo de errar: em 2026 nada me impressionou e sensibilizou mais do que “As Últimas Palavras”, produção da Netflix apresentada por Brad Falchuk.

A premissa é simples: são entrevistas feitas com personagens icônicos que serão reveladas ao público somente depois da morte dos entrevistados. Já teriam sido gravadas sete entrevistas. Três já foram ao ar. É um obituário em vida.

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Não é fácil de ver.

Exige concentração, dedicação, entrega, respeito.

A produção carrega uma carga de morbidez. Mas é emocionante, tudo comandado com sensibilidade pelo americano Falchuk. Para que não haja vazamento – quem são os personagens convidados, nem o conteúdo das entrevistas -, as câmeras não têm operadores, são todas fixas. É tudo muito poderoso.

“Quando você morre, muita gente fala sobre você, pessoas que o conheceram e pessoas que não. E nós propusemos: ‘Você é a pessoa que deveria dizer quem realmente foi. Isso lhe parece interessante?’”, contou Falchuk sobre a produção.

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Jane Goodaal

A primeira entrevista a ir ao ar foi com a primatologista britânica Jane Goodaal. Leve, Jane está acompanhada por um “mascote”, bebe uísque e reflete sobre a humanidade e a natureza. Ela morreu dia 1 de outubro de 2025, aos 91 anos. Jane revelou ao mundo a enorme proximidade cognitiva e comportamental entre os chimpanzés e os seres humanos.

A segunda foi com o ator Eric Dane, que morreu dia 10 de fevereiro de 2026, aos 53 anos. Dane ficou famoso por papéis nas séries “Grey’s Anatomy” e “Euphoria”. Em abril de 2025, revelou que havia sido diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA), doença neurodegenerativa rara e progressiva que destrói os neurônios motores. Seu recado final, direcionado às duas filhas, é devastador e belo.

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E a terceira entrevista foi com a jornalista e escritora Gloria Steinem, que nos deixou em 2 de setembro de 2026, aos 92 anos. Gloria foi uma das mais importantes ativistas dos movimentos sociais nos Estados Unidos. Pioneira do feminismo, em 1963 ela se infiltrou na Playboy como garçonete para denunciar as condições de trabalho das mulheres, num mundo de misoginia e exploração.

“Ver essas pessoas tentando transmitir o conhecimento e a sabedoria que acumularam, enquanto ainda podem, é profundamente comovente”, escreveu o crítico Stuart Heritage, do jornal britânico “Guardian”.

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Experiência inesequecível

É realmente notável o olhar sobre a finitude. Os entrevistados desejam aproveitar o momento para fazer um acerto de contas? Um desabafo? Destilar algum rancor? Ou mesmo fazer apologia de seus feitos? “Independentemente de como reajam, que honra poder vê-los dessa maneira”, acrescenta o crítico Stuart Heritage. “As Últimas Palavras” lembra a arte dos obituários, de pessoas comuns ou famosas, feitos brilhantemente pelo jornal “New York Times” e pela revista “The Economist”. Mas vê-los na televisão, antes de deixar este mundo, é uma porrada na alma e no coração.

O apresentador Brad Falchuk disse: “Sinto uma enorme gratidão pelos convidados — tanto pela confiança quanto por toda a sabedoria que acabaram de compartilhar. É como se eu tivesse recebido a melhor aula magna de todas, só para mim”.

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“As Últimas Palavras” é uma experiência inesquecível.