No fim da semana passada, ao escrever sobre o poder que a poesia exerce em momentos delicados do cotidiano, fui atacado por alguns fanáticos. Não darei nomes, nem reproduzirei os xingamentos de direitistas e esquerdistas. Para ser sucinto, de forma odiosa questionavam como, num momento tão polarizado e às vésperas do segundo turno das eleições, tinha coragem de escrever sobre poetas e poesia.
A resposta é simples: uso a liberdade para escrever sobre o que sentir vontade na hora que desejar. Além do mais, falar de Neruda, Lorca, Florbela, Gullar, Maiakovski é falar de política. Declamar um poema é e sempre será um ato político e de resistência.
Neste momento, por exemplo, poderia estar filosofando sobre a virada de Lula nas urnas, a fuga do derrotado golpista, mais uma confusão aprontada pelo Menino Ney, o novo vexame do Botafogo. Ou mesmo sobre a disputa que travamos diariamente entre civilização e barbárie. (Tenho lado definido, sempre com a ciência, a cultura, a educação, as artes, a vida, a diversidade, a pluralidade, o respeito, o amor.)
Para a extrema alegria de abrutalhados e abestalhados, hoje seguimos no campo da literatura, para falar de um livro espetacular: “Um Homem Bom” (editora Companhia das Letras), do baiano Waldomiro J. Silva Filho, professor do departamento de Filosofia da Universidade Federal da Bahia. A dica veio de dois craques: o jornalista Pedro Bial e o escritor Milton Hatoum. Sem chances para o erro.
Numa quase-mistura de ficção e ensaios, cheio de referências a Nabokov, Sebald, Jean Améry, Primo Levi, Belchior e Gilberto Gil, o narrador de “Um Homem Bom” tenta encontrar um propósito de vida depois de ter sido capturado e torturado pela ditadura militar. Mas ele está destruído por ser sobrevivente, ele não consegue se libertar da culpa da sobrevivência.
“Meu narrador-personagem não tem coisa alguma. Resta-lhe contar, tentar contar, uma história”, escreveu Waldomiro no blog da Companhia das Letras. Numa mensagem a este colunista, Waldomiro acrescenta: “Quando autografo o livro, quase sempre escrevo: ‘Este é meu modo de dizer que toda violência é inaceitável’”. Pedro Bial, torcedor do Fluminense como o escritor, afirma: “Que livro de humanidade desconcertante. Waldomiro é o homem bom”.
“Um Homem Bom” é certamente um dos melhores livros lançados em 2026. Direto ao ponto: é uma das obras mais profundas e perturbadoras da nova literatura brasileira sobre os traumas deixados pela desumanização e pelos horrores da ditadura.
O assombro
A força do estranhamento, do belo e de alguma esperança estão em “Um Homem Bom”, como mostram os trechos abaixo do belíssimo livro de Waldomiro J. Silva Filho.
- “Eu me acostumei ao assombro. Passei a cultivar um olhar que via em qualquer coisa, o pão cortado ao meio, um avião decolando, as mãos de uma pessoa, as cores dos carros, coisas raras, ver pela primeira vez, como se fosse a primeira vez, e novamente, e novamente se espantar com isso. Passei a carregar comigo, alojado nos meus olhos míopes, o assombro”.
- “Talvez eu tenha uma gota de prazer com episódios singelos da vida, beber água fria do pote, o gorjear de um pássaro, os sons que escapam inadvertidamente de tudo, a capa de um livro que não irei ler, a conversa sem especulações com o velho da padaria sobre a onda de calor, sobre o resultado do futebol (…)”
