No dia 12 de abril de 2019 publiquei, neste espaço, a coluna intitulada “VAR, Brasil!”, na qual filosofava e sonhava: “Bem usado, o VAR poderia tirar a máscara de muita gente. O militante de esquerda que critica a direita, mas suborna em troca de favores; o militante de direita que defende seus direitos com o ‘sabe com quem você está falando?’; o jovem que se queixa da sujeira política, mas não recolhe seu lixo das areias da praia; a dona de casa que reclama dos governantes mas fura a fila do supermercado. Precisamos do VAR em nosso cotidiano mais ordinário”.
Era mesmo uma filosofia barata, uma nuvem passageira, um sonho mequetrefe, são essas as conclusões sete anos e alguns meses depois.
Assim como o VAR é diariamente bombardeado no mundo do futebol (pelo excesso de intervenção na interpretação humana, por ter se tornado uma bengala para árbitros e bandeirinhas incompetentes, pelas falhas de protocolo, pela quebra da dinâmica do jogo), é impossível imaginar que ele fosse resolver nossos problemas diários. Não há tecnologia ou inteligência artificial que consiga amenizar idiossincrasias, paradoxos, excentricidades, insensibilidades, narcisismo, egocentrismo.
A cada dia a humanidade se mostra um projeto fracassado. Ausência de ética, desrespeito, indiferença, indelicadeza, egoísmo coletivo, destruição dos recursos naturais do planeta, pilantragem política, ditadores, tiranos, déspotas, misoginia, feminicídios, racismo, xenofobia, homofobia, intolerância religiosa, crueldade, brutalidade, perversidade, hipocrisia, cinismo. A morte da imaginação. A violência. O ódio. A fome. As guerras. A barbárie. A desumanização.
“O mundo pode ser um palco. Mas o elenco é um horror”, escreveu o irlandês Oscar Wilde.
Daquela coluna de 2019 guardo um afago na alma feito pelo escritor Mario Prata, que viveu em Florianópolis até alguns anos atrás. “Lucidez, texto gostoso, liso. O VAR resolveria todos os problemas do nosso país”, ele escreveu.
Parece que o genial Prata e eu nutríamos um mesmo sonho, alguma esperança que resistia e voava desamparada pelo ar. Talvez estivéssemos equivocados. Millôr Fernandes, outro craque, já dizia que o homem é um “animal inviável”.
Minhas poucas leitoras e meus raros leitores dirão que estou muito cético e pessimista. Deve ser da idade. Sei lá, mil coisas.
Noite dessas sonhei que conversava com Tostão, craque da bola e das letrinhas, com sua bonita coluna da “Folha de S.Paulo”. Eu perguntava como era jogar com Pelé, Rivellino, Gérson, Jairzinho, Carlos Alberto Torres, Clodoaldo. Tostão respondia timidamente: “Era como um sonho…” Eu perguntava o que ele achava do mundo. Com doçura, Tostão respondia: “A ausência de lembranças é um triste vazio. A memória é o elo entre o passado e o presente, entre o corpo e a alma, entre o vivido e o sonhado.”
Naquela manhã acordei muito feliz.
Foi apenas um sonho. Mas naquela manhã voltei a acreditar um pouquinho no VAR e na humanidade.
