Julio Pio tinha 14 anos e voltava de uma “pelada” com os amigos, pela Avenida Brasil _ então Avenida dos Telégrafos _ quando ouviu uma notícia de rádio dizendo que o prefeito de Balneário Camboriú havia morrido. “O prefeito é meu pai!”, assustou-se. A vida da família nunca mais seria a mesma desde aquele 3 de março de 1969, quando Higino Pio, o primeiro prefeito de Balneário Camboriú, foi morto pela ditadura militar. O caso é alvo de uma denúncia do Ministério Público Federal, que entregou esta semana à Justiça documento em que responsabiliza seis pessoas pelo sequestro político do prefeito, e sua morte. Para a família Pio, é um passo além na busca por justiça.
A família acompanhou a denúncia?
A gente tinha certeza da inocência do meu pai. Entre os nomes que apareceram, já tínhamos certeza de alguns. Outros foram surpresa. Para nós foi um alívio, estamos tranquilos porque foi provado tanto que ele era inocente, quanto o falso enforcamento. A cidade merece que essa verdade apareça. Ele fez muito por Balneário, o que fizeram com ele não tem perdão.
O caso está bem resolvido para o senhor?
Muitos sabem de coisas que até hoje não falam para a gente, ainda têm medo. Mataram ele, isso não pode sair de graça. Vou procurar uma indenização. Nem os R$ 30 mil que foram pagos às famílias pela Anistia nós não recebemos, porque minha mãe já era falecida.
O senhor concorda com a proposta de indenização coletiva para Balneário Camboriú?
Concordo, mas acho que o dinheiro não deveria ser para fazer um museu (como proposto pelo MPF). A cidade já é o museu dele, tem praça, escola com o nome dele. Melhor seria investir em saúde, educação, que é o que ele faria.
Balneário Camboriú faz jus à memória de Higino Pio?
Eu queria que retirassem os nomes dos militares (de prédios e espaços públicos). Principalmente a Praça Almirante Tamandaré, porque foi na Marinha que mataram meu pai. Não precisam colocar o nome dele, mas homenagear pessoas que merecem.
O que a morte de seu pai retirou do senhor?
A nossa família. Ele morreu no dia do aniversário da minha mãe. Ela chegou às 8h da manhã na Marinha (Escola de Aprendizes Marinheiros, em Florianópolis), e pediu para dar um abraço nele. Os militares falaram que ele iria sair naquele dia, que ela não se preocupasse. Ele já tinha morrido no dia anterior. São coisas que quando vê, você não acredita. Quando ouço falar que querem que os militares voltem…
O que o senhor pensa sobre isso?
Temos que colocar pessoas decentes, que toquem o Brasil. Só falta administrar com seriedade. Falar em intervenção militar é um retrocesso.