“Não viemos por dinheiro, mas por convicção”, diz médico cubano em Navegantes

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Em 2013, Porfírio Duarte foi um dos primeiros médicos cubanos a desembarcar em Santa Catarina. Depois de passagens por Angola, Belize e Trinidad e Tobago, ele esperava ser enviado à floresta Amazônica pelo Programa Mais Médicos. Acabou em Navegantes, onde há cinco anos atende mais de 6 mil pacientes dos bairros Machados e Volta Grande, comunidade que sobrevive principalmente da pesca.

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Navegantes está entre as cidades de Santa Catarina que mais perderão com o fim do acordo entre Cuba e o Brasil _ tem, hoje, nove médicos cubanos atendendo em diversas unidades de saúde.

Duarte foi um dos primeiros profissionais cubanos entrevistados pelo DC, ainda em 2013. Na época, relatou a vida simples que adotou em Santa Catarina. Surpreendido pelo término do convênio, na semana passada, decidiu que vai ficar. Casou-se em 2016, e teve o contrato com o Ministério da Saúde prorrogado. Mesmo assim, vive dias de incerteza. Aos 47 anos, com 23 anos de profissão, ele fala de sua relação com a Medicina e da diferença entre o modelo brasileiro e o cubano de atenção primária.

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Ainda que decidido a ficar, pelo menos por enquanto, o médico diz ter se sentido desrespeitado pelas afirmações do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), e afirma que Cuba honrou seus compromissos com o Brasil: “não temos por que nos ajoelhar”.

Entrevista: Porfírio Duarte

Como chegou a notícia do fim do programa?

A notícia chegou pela nossa coordenação, de que Cuba tinha tomado a decisão de acabar com o programa pelos motivos que todo mundo conhece, as declarações do futuro presidente em relação ao nosso trabalho, questionando se os médicos cubanos eram médicos, questionando nosso trabalho de cinco anos no Brasil. Dia 14 a gente recebeu uma nota oficial do nosso Ministério, dizendo que o programa tinha acabado.

Como o senhor viu esse cancelamento?

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Foi uma grande surpresa para todo mundo, nunca acreditamos que o programa fosse terminar do jeito que terminou. Desde 2013 já fizemos em redor de 60 milhões de atendimentos pelo programa. Foi um impacto muito grande na saúde pública do Brasil, diminuímos o índice de mortalidade no país. (O cancelamento) foi uma notícia que chocou. A gente continua nos postos até o último momento, mas o trabalho não merecia ter esse tipo de desligamento.

O governo cubano se precipitou?

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Não acho que tenha se precipitado. Viemos com um contrato de trabalho que deveria ser respeitado por ambas as partes. Cuba sempre respeitou. Mas tem uma coisa, se você está trabalhando, e começam (os questionamentos) em torno de seu trabalho, que está sendo retribuído com dados oficiais do Ministério com a quantidade de atendimentos, com o grau de aceitação pela população… É um programa social, que está sendo investido na população, que está dando certo. Muitas crianças estão passando pelas mãos desses doutores que têm sido criticados pelo governo. Não pelo governo, mas por essa pessoa. É uma só a pessoa que está falando. Eu gostaria que a população fizesse uma classificação geral de como é o nosso trabalho. Elas sabem que o nosso trabalho é bom.

O senhor fica até quando no Brasil?

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Decidi ficar porque construí uma família. Continuarei pela minha população, aí fora, e porque meu país me deu a possibilidade de ficar aqui porque tinha me casado. Além disso o Ministério (da Saúde brasileiro) renovou meu contrato por 3 anos, até 2019. Até o ano que vem, por lei, eu teria que continuar trabalhando. Ainda falta mais um ano. Meu país decidiu que eu poderia ficar aqui com minha família e continuar o trabalho. Achei muito ruim essa decisão do senhor Bolsonaro de tirar os médicos por colocar cláusulas que ele colocou. Acho que teria que respeitar aquele contrato que foi assinado entre a Opas (Organização Panamericana de Saúde) e nosso país, e que foi aprovado pelo Supremo Tribunal de Justiça, é uma coisa legal. Nossos diplomas foram aprovados rigorosamente pelo Ministério, por todos os canais que deviam fazer, foram homologados. Inclusive foram fiscalizados pelas diferentes universidades do Brasil. Nada foi ilegal.

O senhor se sentiu desrespeitado?

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Eu sim, porque não têm nada a ver aquelas palavras (de Bolsonaro), que eu poderia classificar como ignorantes. Minha pergunta é muito simples: será que alguns deles foram alguma vez atendidos por um médico do SUS? Ninguém. Nenhum deles. Não sabem como é o funcionamento do SUS. Aqui é uma coisa simples, mas a gente sempre dá um jeito, trata com carinho as pessoas. Não somos só um jaleco branco, temos uma formação muito legal. Cuba está entre os três países do mundo com melhor assistência médica, temos prevenção, promoção e assistência médica de qualidade. De primeiro mundo. Temos vacina contra o câncer de próstata, vacina para prevenir que a mãe com HIV passe o vírus para a criança. Um monte de avanços que não são reconhecidos porque ninguém fala deles. Mas não temos por que nos humilharmos, nos ajoelharmos diante de uma pessoa, se são 200 milhões de brasileiros que concordam com nosso trabalho no Brasil. Isso fortalece a nossa missão aqui, que é ajudar aquele que precisa, para quem foi feito o programa.

Como o senhor avalia a afirmação de que os médicos cubanos são “escravos”?

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Deixa explicar uma coisa. Quando saímos de Cuba assinamos um contrato, um termo de compromisso, que dizia o valor real que a gente ia receber aqui. Nesse termo estava esse valor de R$ 3 mil, e o resto para sustentar os programas sociais de Cuba. A gente se formou em uma saúde que é pública, em que não se precisa pagar nada. Nosso governo investe na formação de novos médicos, em reformar hospitais, fornecer vacinas, porque também temos um bloqueio, um embargo dos EUA contra nós. Temos que nos ajudar. Nós assinamos que seria desse jeito. Quem paga (o salário) não é o Brasil, é Cuba. Pela Opas, pelo convênio. O Brasil paga Cuba pelo serviço prestado através da Opas, e Cuba repassa para nós em custo de moradia, para pagar aluguel, alimentação. Eu recebo meu pagamento íntegro em Cuba. Nenhum médico pode reclamar porque assinamos um contrato assim. Também tem uma coisa, a gente trabalha não para receber dinheiro, que é uma coisa que todos deveriam entender, e às vezes não entendem. Todo mundo precisa de dinheiro. Mas quanta gente tem muito dinheiro e não consegue dar um sorriso, está sempre preocupada, doente, não tem amigos porque não sabe se os amigos se aproximam pelo dinheiro. A gente não veio por dinheiro, veio por convicção. Por vontade de ajudar o próximo. O paciente não é mercado. Ganhamos mais recebendo um sorriso de um paciente que diz _ médico, você me salvou. Para mim, não tem maior tesouro. E como eu, a maioria de nossos colegas tenho certeza de que é assim. Não temos nenhuma ocorrência de alguém que reclamou de nosso atendimento. Inclusive os médicos brasileiros.

O senhor tem uma boa relação com os médicos do Brasil?

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Sempre tive, desde início não tive problema com nenhum. Nem com hospital, nem com a Secretaria de Saúde. Nunca tivemos divergência. Por isso o trabalho foi (bem), é difícil trabalhar sob pressão. Outros podem ter tido, mas no meu caso nunca aconteceu.

Por que o modelo de atendimento do médico cubano é diferente do brasileiro?

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Isso tem a ver com formação. 90% do diagnóstico é comunicação, um interrogatório entre você e o médico, mas para isso você (o médico) tem que transmitir confiança. Está faltando muito a relação médico-paciente. Outra questão são os complementares, os exames, às vezes a gente precisa fazer um exame de urgência e demora um pouquinho, e a saúde não pode demorar. É uma questão de planejamento, porque o SUS funciona. É um programa social que muitos países desenvolvidos têm. Mas tem que ser um complemento, ministério, prefeitura, Secretaria de Saúde e postos de saúde, todos se ajudando.

O senhor vai ficar, mas como será o contrato?

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Dia 24 de dezembro encerram as atividades laborativas no posto. A maioria não vai ter mais médicos do programa no Brasil. Eu fico, mas essa é a minha preocupação, como todos que queremos continuar no Brasil: quem vai nos sustentar, se vai ser respeitada essa renovação de contrato (até 2019), que ainda não está cancelada, ou como vamos ficar. Minha condição é continuar trabalhando.

Vida em Navegantes

Em dezembro de 2013, o médico Porfírio Duarte foi entrevistado pelo repórter Ângela Bastos, do Diário Catarinense, sobre a rotina dele no Brasil. O resultado do trabalho foi manchete do DC.

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Na conversa, 50 dias após desembarcar no Brasil, o médico falou de sua relação com os pacientes, sobre Cuba e o programa Mais Médicos. A íntegra da entrevista está no site do DC.

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