Na próxima sexta-feira, 10 de agosto, o presidente da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), Glauco José Côrte, passa o cargo da mais poderosa e influente entidade empresarial do Estado para seu sucessor Mario Cezar de Aguiar. Em sete anos à frente da federação, fez uma gestão marcada por atuação além dos interesses da indústria, como a criação do Movimento Santa Catarina pela Educação e a Aliança Saúde e Competitividade. O trabalho do advogado e industrial na entidade começou há mais de 25 anos, o que dá para dizer que teve uma ‘Era Glauco José Côrte” na Fiesc, que teve como ponto forte para a indústria o incentivo à inovação. A partir de outubro, o empresário, que gosta de estudar economia, será vice-presidente da CNI para a Região Sul. Mas se for sondado para um cargo público que requer seu perfil, é possível que aceite o desafio. Saiba mais na entrevista a seguir:
O senhor está encerrando sete anos à frente da entidade. Que balanço faz desse período?
Termina realmente um ciclo. Eu fui diretor-secretário da Fiesc durante 12 anos, nas gestões dos presidentes Osvaldo Moreira Douat e José Fernando Faraco, mais seis anos como primeiro vice-presidente na gestão de Alcântaro Corrêa e, agora, sete anos na presidência. São 25 anos em que eu tive uma atuação ativa. Na função de secretário, eu presidi a Câmara de Assuntos Legislativos e Tributários na entidade. Mas o período mais importante foi na presidência. Aí que eu tive uma visão ampla dos desafios da indústria. Nós temos uma diferença em relação as outras federações. O Sesi SC é um dos únicos do país com farmácias e oferta de refeições. Então, ao lado da educação, tecnologia, inovação e saúde temos essa parte comercial que na nossa estrutura é importante e nos torna a federação com o maior número de profissionais. Acho que tivemos, nessa gestão, iniciativas importantes. Nos últimos quatro anos, no Senai e no Sesi, tivemos quase 1,2 milhão de matrículas, cerca de 300 mil por ano. O que marca a gestão, em primeiro lugar é a educação. Demos uma grande ênfase para isso.
O título “Senhor Educação” pegou…
Esse título pegou (foi criado pelo jornalista Rafael Martini, então colunista do DC). Vou em muitos locais no Estado e a primeira coisa que as pessoas me perguntam é: Como está a educação? Não perguntam sobre emprego, sobre indústria. Essa parte da educação marca a nossa gestão. Tanto nossos diretores quanto as nossas unidades abraçaram essa causa. Medimos o resultado disso. No geral, no Estado, em quatro anos, saímos de 60% de trabalhadores com ensino básico completo para 70%. Na indústria, passamos de 49% para 59%. A conclusão a que cheguei é que não precisamos de 40 anos para mudar a face do país pela educação, como fez a Coreia do Sul. Nós, em cinco anos, conseguimos 10 pontos percentuais, não apenas pelo movimento, mas porque isso sensibilizou Santa Catarina. O comércio, os serviços, a agricultura e os transportes também aderiram. O governador Raimundo Colombo e o secretário de Educação Eduardo Deschamps apoiaram.
Outra iniciativa em educação da Fiesc foi o programa Novos Caminhos. Como está?
Essa foi uma iniciativa provocada pelo Tribunal de Justiça do Estado (TJSC). Ele informou que os jovens que saiam das casas de acolhimento com 18 anos não tinham perspectiva nenhuma. Aí nós criamos o programa Novos Caminhos em parceria com o TJSC e foi se ampliando. Entraram a OAB, o Ministério Público, a Fecomércio e a Associação Catarinense de Medicina. Oferecemos cursos para mais de 800 jovens. Atingimos todos a partir de 14 anos. Temos 203 desses jovens empregados na indústria. Falta outros setores da economia também contratar mais esses jovens.
A Fiesc, com apoio da CNI, instalou no Estado três institutos de inovação. Qual é o impacto econômico esperado?
Essa iniciativa é outra que faz um corte na atuação da Fiesc em 65 anos. Esse é um corte do Brasil. Temos que reconhecer a coragem do presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, de investir R$ 3 bilhões 25 institutos de inovação, três em SC: de internet industrial e laser em Joinville e tecnologias embarcadas em Florianópolis. Ano passado já tínhamos R$ 40 milhões em contratos com grandes empresas. Uma delas é a Petrobras. Estamos desenvolvendo o primeiro satélite que está sendo feito 100% pela indústria brasileira. Isso mostra o nível de preparo do nosso pessoal e a confiança que a empresa Visiona, uma joint venture entre Embraer e Telebras, fabricante do satélite, teve na nossa estrutura e na nossa equipe. Todos os nossos três institutos estão credenciados pela Embrapii. É uma iniciativa importante que deu certo.
Esses institutos tendem a criar novos setores econômicos no Estado?
Não apenas no Estado, mas também em nível de Brasil porque a atuação deles é nacional. Tivemos uma iniciativa pioneira de trazer a indústria para dentro dos nossos institutos. Nós – a Fiesc e as empresas Pollux e Embraco – fomos criadores da Associação Brasileira de Internet Industrial (ABII) com sede no nosso instituto em Joinville. Algumas empresas já estão lá. A Visiona é a primeira empresa a se instalar no instituto de Tecnologias Embarcadas. Além disso, oferecemos capacitação sobre indústria 4.0 em todo o Estado.
A Fiesc também foi além na área da saúde. Por que essa atenção?
A saúde também é um eixo importante do nosso planejamento estratégico. O Sesi tinha ações muito difusas, desde o incentivo ao futebol até ginástica e eventos. Vimos que precisávamos de um foco. Escolhemos a saúde do trabalhador e a segurança nos ambientes de trabalho, que ajudem o trabalhador a cuidar melhor da sua saúde. Trouxemos para Santa Catarina a terceira edição do congresso Aliança Global pela Saúde em 2015. Em 2016 fomos apresentar nosso trabalho em Washington e criamos a Aliança Saúde e Competitividade, que envolve o setor privado e o público, mostrando que a saúde precisa estar na pauta dos líderes das empresas porque, segundo estudos internacionais, de cada US$ 1 investido em prevenção, o retorno é de US$ 6. Avaliamos em Santa Catarina e concluímos que de cada afastamento no setor de construção, o custo é de R$ 169 mil em função dos custos vinculados ao seguro de acidente e outros.
Como foi o trabalho na área institucional?
Foi muito importante. Nós conseguimos manter Santa Catarina sem aumento da alíquota de ICMS há 16 anos. Foi uma iniciativa que tivemos aqui na Fiesc na campanha de 2002. Cobramos essa promessa dos candidatos e os eleitos cumpriram: os ex-governadores Luiz Henrique e Raimundo Colombo. Isso continua com o governador Eduardo Moreira e vamos cobrar também dos candidatos deste ano. Não cabe mais aumento de imposto no orçamento das empresas. O governo prometeu reduzir o ICMS da indústria, não conseguiu. Estamos trabalhando para que isso aconteça.
O que, na sua gestão, não avançou como gostaria?
Deveríamos ter trabalhado mais na internacionalização das pequenas e médias empresas. É um programa que temos, mas deveríamos ter começado antes e dado mais ênfase. Essa é uma possibilidade de consolidar a inserção das pequenas e médias empresas no mercado internacional. A Alemanha tem muito disso. É um exemplo.
A Fiesc pressionou muito pela melhora da logística do Estado. Por que isso pouco avançou?
Isso é algo que não está sob nosso domínio. Trabalhamos muito junto com o Fórum Parlamentar Catarinense para melhorar a infraestrutura, mas os avanços foram pequenos em sete anos. Em termos de eixos estruturais avançamos pouco. As BRs 470 e 280 não foram duplicadas ainda, não conseguimos projetos para ferrovias. Talvez este seja o nosso principal gargalo.Temos o risco de, aos poucos, perder densidade na agroindústria que vai se colocar mais próximas dos centros produtores de insumos e matérias-primas. Isso precisa ser atacado logo através de concessão, privatização porque o governo não tem dinheiro.
Como avalia o planejamento estratégico PDIC e a Investe SC?
A última vez que se fez um planejamento nesse sentido foi com o presidente Celso Ramos (que fundou a Fiesc e depois foi governador de SC). Passamos 60 anos para reeditar o PDIC e fizemos consultas às 16 regiões do Estado para identificar os setores mais relevantes para a indústria. Temos hoje um planejamento setorial e regional. Sabemos quais são as vocações de cada região, as suas potencialidades. Foi a partir desse programa, com a identificação de elos faltantes na economia de SC, que sugerimos, junto com o governo do Estado, a criação da Investe SC, a agência de atração de investimentos do Estado. Fazemos um trabalho conjunto, até agora 21 projetos foram implantados, somando R$ 2 bilhões de investimentos e mais de 1,5 mil empregos gerados.
Como será seu trabalho na vice-presidência da CNI para a Região Sul?
Minha base será em Florianópolis. Tivemos uma reunião com o presidente Robson Andrade, da CNI, que pediu sugestões. Será uma função de representação nos três Estados e também nacional.
O senhor ganhou projeção pelo trabalho na Fiesc, foi sondado para cargos eletivos. Pode aceitar algum convite para ministério ou secretaria?
Acho que dependendo da área para a qual eu eventualmente possa ser sondado, eu deveria pensar porque é uma oportunidade para continuar contribuindo com o Estado ou o país.
Deu algum conselho específico de trabalho para o seu sucessor, Mario Aguiar?
Nós fomos bons companheiros e nos tornamos amigos. Além de leal, o Mario sempre foi muito discreto e eficiente. Ele conduziu a Câmara de Infraestrutura com um desempenho muito efetivo. Hoje, a Fiesc é a entidade que mais tem dados sobre infraestrutura. Tenho certeza que ele será um grande presidente da federação.
Sua agenda era intensiva. Agora vai tirar férias?
Eu transmito o cargo para o Mario Aguiar na sexta e no sábado vou, numa missão da CNI, aos Estados Unidos. No final do outro mês, vou com a CNI para Israel. Faremos uma imersão. Acredito que depois vou ter mais tempo para me dedicar à família e a mim do que tinha aqui. A Fiesc exige uma presença permanente. Mas eu saio daqui agradecido pelo privilégio que tive de presidir a Fiesc. Aprendi a respeitar ainda mais a indústria catarinense pelo espírito vital dos nossos empresários. Eles não se abatem, se têm uma dificuldade eles buscam forma de superação. Foi um privilégio conhecer bem a indústria e os industriais. Agradeço também a equipe da Fiesc, que está em condição de igualdade com as das melhores empresas do Brasil. Então, os sete anos à frente da Fiesc foram leves. Não reclamo. Acho que passaram rápido e saio muito feliz pelo privilégio de ter sido o presidente da federação.