O arquiteto, designer e artista Jader Almeida, catarinense que criou a grife brasileira mais valorizada, a JADERALMEIDA, revela que assumiu novos grandes projetos no segmento de arquitetura. Disse que está trabalhando nos projetos de um hotel e residencial cinco estrelas em São Paulo, que será construído por um grupo estrangeiro. Também revelou que vai assinar o design interior de um iate que está sendo fabricado em São Paulo.
Jader Almeida concedeu entrevista exclusiva para a coluna durante o ‘Re-imaginação Florianópolis’, evento no showroom da sua marca na cidade, onde apresentou peças para ambientes internos já consagradas e das novas coleções Living e Lighting. Ele disse também que apesar do tarifaço, seguirá investindo nos Estados Unidos. Abriu lojas em Nova York e Washington e, neste ano, vai inaugurar também a filial em Orlando.
Veja mais imagens sobre as criações de Jader Almeida no showroom em Florianópolis e outras:
Jader Almeida, que é o CEO da empresa que leva o seu nome, falou que ela concentra produção em SC, onde emprega diretamente mil pessoas. A qualidade de vida permite trabalhar com tranquilidade, avalia ele.
O êxito de Jader Almeida resulta da combinação de formação técnica, disciplina e criatividade. Nascido em Videira, no Oeste de Santa Catarina, ele mudou com a família para Chapecó aos 10 anos. Aos 12 anos perdeu o pai, que era comerciante. A mãe, professora de português, assumiu a família. Aos 15 anos ele começou a trabalhar e foi fazer três cursos técnicos no Senai: elétrica predial, torneiro mecânico e desenho mecânico. Neste ano, o arquiteto fará 45 anos e 30 anos de carteira assinada. Saiba mais sobre Jader Almeida na entrevista a seguir:
O senhor acaba de realizar a ‘re-imaginação’ do showroom da sua marca em Florianópolis. O que significa esse movimento?
– Reimaginar o espaço é um exercício muito interessante. Não queremos simplesmente transformar o showroom para apresentar novidades. Aliás, a palavra “novidade” caiu em desuso no nosso vocabulário, porque não acredito no novo como algo que deva existir em detrimento do anterior.
A nossa história é construída, de alguma maneira, a partir dessa mensagem de atemporalidade. Por isso, esses momentos representam quase uma reflexão sobre aquilo que somos, fazemos ou já fizemos, trazendo uma nova maneira de olhar para tudo isso.
Seria uma forma de reinventar aquilo que já existe?
– Sim. É lançar novos olhares sobre aquilo que já temos. É uma espécie de reinvenção constante dentro do mesmo universo. Evidentemente, isso ocorre com a adição de determinadas texturas, uma nova tipologia de produto ou um novo desenho, mas nunca com uma ênfase exagerada na palavra “novo”. O nosso portfólio constitui o contexto. Quando chega um novo produto, é como se acrescentássemos uma nova palavra ao nosso vocabulário.
Assim, criamos uma gramática material, formada por peças que contam histórias. Portanto, quando falamos na renovação do showroom, estamos falando de um novo capítulo da nossa história. O conceito deste momento é apresentar um olhar de 2026, acompanhado de uma reflexão sobre tudo o que foi realizado ao longo dos anos.
Aqui dentro existem peças desenhadas há 20 anos, outras há 15 ou dez anos, além de peças criadas neste ano. Todas coexistem de maneira muito natural, sem que uma se sobreponha à outra. Essa é a verdadeira essência desses momentos: continuar agregando pessoas e direcionando o olhar para um estilo de vida, e não apenas para o produto.
Como o senhor avalia o seu atual momento criativo e a fase vivida pela marca Jader Almeida, que hoje possui reconhecimento nacional e internacional como uma das grifes brasileiras mais diferenciadas?
– Esse reconhecimento é resultado de um trabalho consistente e de uma reputação construída ao longo do tempo. Cotidianamente, também refletimos sobre aquilo que fazemos. Nada é alcançado de maneira aleatória ou leviana. Se olharmos para trás, são mais de 20 anos de construção consistente e de busca permanente.
Quando apresentamos uma produção, um pensamento ou uma intenção, temos a excelência como objetivo. Estamos sempre caminhando em direção a ela. Ao mesmo tempo, compreendemos que a excelência está sempre no horizonte.
Quando chegamos a determinado lugar, ela se afasta novamente. Essa busca constante permite que continuemos evoluindo nos mais diversos aspectos, seja no desenho, na materialidade, na confecção ou na construção de todo esse universo.
Marca JADER ALMEIDA na construção civil
Em meados de 2025, o senhor estreou em projetos para edifícios. Foi um residencial nos Jardins, em São Paulo. Pode contar mais sobre esse projeto?
– Esse projeto surgiu de uma joint venture com uma incorporadora com a qual eu já havia trabalhado anteriormente.Em 2020, fiz para eles todo o trabalho das áreas sociais de um empreendimento no Itaim, chamado Casa Brasileira. Foi muito bem-sucedido e acabou se tornando um case em São Paulo e também nacional, muito por conta da abordagem e da linha de pensamento adotadas.
Diferentemente daquela lógica de simplesmente chegar e decorar um espaço, no Casa Brasileira nós realmente criamos ambientes pensados para a convivência, para o wellness e para aquilo que efetivamente importa na vida das pessoas. Muitas unidades foram comercializadas com facilidade justamente por conta dessa abordagem.
E esse resultado acabou unindo vocês para um projeto maior?
– Sem dúvida. A velocidade de venda é, obviamente, o sonho de qualquer incorporador. Depois disso, tivemos alguns flertes para outros projetos, mas, por diferentes motivos, eu acabava declinando porque não faziam sentido. Até que eles adquiriram um terreno em São Paulo, depois de muitos anos de negociação. É um terreno privilegiadíssimo, nos Jardins, com cerca de 3.500 metros quadrados. Hoje, diante da escassez de terrenos naquela região, é algo praticamente impensável.
A partir daí surgiu a conversa para desenvolver esse empreendimento, denominado puro sangue, 100% residencial, de alto padrão. Foi, claro, um desafio substancial. Entramos em um período de muita discussão e construção porque arquitetura não é apenas criatividade. Existe legislação, financiamento, tecnologia, expectativa. A arquitetura está justamente na interseção de tudo isso.
Que conceitos vocês conseguiram incorporar ao projeto?
– Foi um trabalho contínuo e conseguimos inserir muitos conceitos interessantes de wellness e convivência. Criamos, por exemplo, galerias internas, como o Gallery Lobby, pensado para receber exposições itinerantes de arte; uma Wine Library, com diferentes tipos de vinho; uma Chef’s Kitchen; além de inúmeras outras situações e todo um conceito de spa.
Há uma área completa de wellness, com experiências de contraste, sauna de sal do Himalaia, sauna seca, sauna úmida, piscina, massagens. Ou seja, um sistema completo de bem-estar dentro do próprio edifício. Além disso, o projeto tem fachadas muito marcantes, localização privilegiada e amplitude.
Então, foi muito bem-sucedido tanto do ponto de vista arquitetônico quanto comercial. A velocidade das vendas e a maneira como o público recebeu o empreendimento foram impressionantes.
Foi também um trabalho realmente completo. Desde a arquitetura, a comunicação, o naming, toda a fotografia, até aquilo que eu costumo brincar: até a fechadura do outro lado da porta foi desenhada por nós, pelo escritório e pela marca Jader Almeida. Esse tipo de projeto é o que tem nos atraído: um trabalho integral, não apenas uma parte ou outra. É trazer valor para o espaço da mesma maneira como faço no design de produto.
Esse conceito de atuação integral passou então a ser aplicado também em outros empreendimentos?
– Sim. Mais recentemente, fizemos também as áreas sociais de um residencial de alto padrão ao lado do Parque do Povo, em São Paulo. Integramos tudo, desde o landscape até o desenho do corrimão. O resultado ficou incrível e trouxe uma valorização muito grande ao projeto. E não estou falando daquela valorização especulativa imobiliária, mas de uma valorização real para quem vai viver naquele espaço. É isso que a Jader Almeida busca.
Hotel 5 estrelas ‘high luxury’ em São Paulo
A Jader Almeida está estreando na hotelaria com um projeto de alto padrão em São Paulo? O que o senhor pode antecipar sobre ele?
– Estamos trabalhando agora em um hotel e residencial cinco estrelas que chegará a São Paulo e será o primeiro da América do Sul dentro dessa proposta. O grau de exigência e a expectativa são absurdos. Estamos falando de algo que está no topo da pirâmide da hospitalidade high luxury mundial. Fomos comissionados para desenhar esse espaço justamente pelo resultado que a marca Jader Almeida consegue entregar. Não é apenas design pelo design, mas design aliado à qualidade e a uma perspectiva de longevidade.
O lançamento desses projetos está previsto para o ano que vem (2027) e, como acontece com qualquer empreendimento dessa natureza, a perspectiva é de cerca de cinco anos entre projeto e construção.
Essa característica do seu trabalho está chegando também ao setor náutico? Estará num iate?
– Sim. Estamos trabalhando também em um barco de 52 pés, que está entre os maiores que podem ser produzidos no Brasil dentro dessa categoria de iate. Acima desse tamanho é navio. Desenhamos todo o conceito e toda a parte interna para um cliente extremamente exclusivo. Essa embarcação está sendo feita em São Paulo.
Esses projetos, hoje, fazem parte do nosso dia a dia. Vamos desde os nossos produtos e objetos até projetos dessa dimensão. Isso tudo constitui a marca Jader Almeida.
No caso do hotel residencial, o trabalho de vocês será tão abrangente quanto o do edifício nos Jardins?
– Sim. Imagine que recebemos a estrutura praticamente como uma casca vazia, um shell, e precisamos preencher tudo: tapete, teto, iluminação, janela, tudo aquilo que está dentro. É aquilo que eu sempre brinco: você recebe um corpo e precisa colocar alma. Porque um corpo sem alma é um cadáver, e uma alma sem corpo é um fantasma.
Reconhecimentos da grife Jader Almeida
Em que momento Jader Almeida deixou de representar apenas produtos e passou a ser reconhecida como uma grife?
– Hoje, Jader Almeida deixou de ser apenas produto ou design e se transformou, como você mencionou, em uma grife, em um estilo de vida. É muito comum ouvirmos alguém dizer: “Eu comprei uma Jader Almeida”, referindo-se à marca.
Também recebemos, no Brasil e no exterior, manifestações de pessoas que não dizem simplesmente que desejam uma mesa, por exemplo. Elas afirmam que querem determinada peça para fazer parte do seu acervo material. Além do valor estético e funcional, as peças também podem ser consideradas um patrimônio.
A partir dos retornos que recebemos, percebemos que uma peça Jader Almeida funciona quase como um repositório de valor, porque se valoriza ao longo do tempo. A pessoa não está simplesmente gastando dinheiro, mas investindo.
Tudo o que constitui o produto, desde a narrativa e a forma até a confecção, é pensado para durar. Se observarmos as peças ao nosso redor, veremos que, não havendo um cataclismo ou um evento acidental, elas poderão durar 100, 200 ou 300 anos. Estamos falando de pedra, bronze, madeira maciça, metais e outros materiais que possuem a capacidade de atravessar o tempo e permanecer elegantes.
Esse padrão resume o momento atual da marca?
– Ele resume o momento atual, mas não necessariamente será o mesmo momento de amanhã. Como filosofia, costumo dizer que hoje precisa ser melhor do que ontem e não tão bom quanto amanhã.
Novamente, entramos na busca constante pela excelência, não apenas na parte física, mas também em tudo aquilo que não pode ser tocado, como a construção da reputação. E uma reputação não se constrói da noite para o dia. Ela é construída ao longo do tempo, com trabalho, dedicação e obstinação.
Evidentemente, existem erros e acertos, mas os acertos precisam superar os erros. É isso que faz com que o reconhecimento, os retornos recebidos e a expansão da marca aconteçam de maneira natural.
Como o senhor define o conceito de excelência?
– Não existe um padrão único ou universal de excelência. Essa pergunta me fez lembrar de uma fala de Clóvis de Barros Filho. Ao discorrer sobre a excelência, ele cita o atacante do Botafogo de Ribeirão Preto, time para o qual torce. Aquele jogador buscava a excelência e fazia o seu melhor. Messi também faz o seu melhor no contexto em que está inserido. Portanto, ambos podem ser excelentes dentro das respectivas realidades.
Uma definição possível de excelência é fazer o melhor com aquilo que temos em mãos, naquele momento, naquele contexto e com os recursos disponíveis. Não posso compreender ou comparar a excelência como se ela fosse universal. Preciso me cercar do máximo possível de ferramentas e subsídios para trabalhar e alcançar o melhor resultado dentro daquela realidade. O futebol, nesse sentido, é sempre uma boa comparação.
“Somos uma ‘design company“
Eu gostaria que o senhor falasse da sua trajetória. Como chegou a essa série de produtos, incluindo edifícios e joias. Como foi essa evolução?
– É uma trajetória que ainda está sendo construída. É aquilo que eu digo: nós não nascemos prontos, vamos nos fazendo ao longo do tempo. Pode parecer uma brincadeira, mas, na verdade, é exatamente isso: das coisas nascem outras coisas dentro desse ecossistema. É claro que, quando se tem um olhar e se muda o mindset diante de determinadas situações, muda-se totalmente o contexto das coisas.
Nós nunca nos enxergamos, enquanto Jader Almeida, apenas como fabricantes de móveis. Antes de tudo, somos uma design company. O nosso drive é o design no sentido mais amplo da palavra. Podemos desenhar desde a tipografia de uma letra até uma cidade. Esse também era um dos princípios da Bauhaus, onde não existiam divisões rígidas, onde artistas lecionavam arquitetura e os mecanismos do modo de vida se fundiam, confundiam, conformavam e compunham.
Então essa ausência de fronteiras entre as diferentes disciplinas está na essência da marca?
– Sim. Porque, se compartimentarmos determinadas situações (arte é arte, arquitetura é arquitetura, moda é moda), qual é o objetivo final dessas disciplinas? É o ser humano. Quando colocamos o ser humano como objetivo, todos esses demais drivers, de alguma maneira, convergem para ele.
Com esse mindset de pensar um estilo de vida, as coisas vão acontecendo naturalmente: o mobiliário, as texturas, os objetos, a iluminação, os tecidos, a arquitetura e os espaços. Criamos espaços para convivência, hotéis, spas, restaurantes. Pensamos em como as pessoas convivem e em criar lugares nos quais elas vão construir momentos.
É um pouco de tudo o que estamos vivenciando exatamente agora. Este espaço (o showroom de Florianópolis) pode ser chamado de showroom, loja, templo, destino, seja qual for a denominação. Algumas pessoas vão dizer que é uma loja; outras, que é um showroom, um templo ou um destino. Tudo isso está certo, dependendo do ponto de vista e da capacidade de compreender aquilo.
O que une projetos tão diferentes?
– Todos convergem para o mesmo objetivo: fazer algo realmente memorável. E há uma pergunta básica que fazemos nas escolhas da Jader Almeida e que talvez defina muito bem a nossa filosofia: essa escolha de hoje estará melhor daqui a 20, 30 ou 50 anos? Se a resposta for “não” ou “não sei”, ela é automaticamente eliminada.
É a mesma coisa quando você chega a qualquer espaço projetado pela Jader Almeida. Parece que ele sempre esteve ali. Tenho absoluta certeza de que, quando você pisou aqui, alguma coisa lhe pareceu familiar. Tudo é diferente, mas, ao mesmo tempo, tudo parece que sempre esteve aqui.
Essa é uma filosofia de não buscar aquele efeito “uau”, aquela ruptura. A trajetória da Jader Almeida foi construída exatamente dessa maneira, sem rupturas, sem rompantes, sem nada que faça com que a pessoa deixe de reconhecer a identidade.
E como você define essa identidade em um mercado no qual referências, inspirações e até cópias são tão frequentes?
– É uma identidade construída ao longo do tempo. Por isso sempre digo, quando as pessoas perguntam sobre quem imita, quem se inspira ou quem copia: o mundo é assim. Mas entre a cópia e a inspiração existe um território silencioso, que é a identidade. Isso não há como tirar. É algo construído e que as pessoas identificam.
Hoje, para aqueles que conhecem a Jader Almeida, e concordo em gênero e grau com você que não são todos, também não é minha intenção fazer esse spread, gritar. Até porque, se fosse, eu não estaria na Trindade (bairro de Florianópolis), em uma casa que não tem vitrine, não tem nome, não tem número. É um destino.É uma filosofia. Não é excludente, é exclusiva. Excludente seria excluir pessoas. Nós agregamos pessoas que têm essa mesma convergência de olhar. Então, é uma construção ao longo do tempo, e essa construção do todo é o que está formando a marca Jader Almeida.
Jader Almeida no Brasil e exterior
Como a marca está posicionada hoje no Brasil? Quantos espaços vocês têm e em quais cidades?
– Vamos lá. Nós estamos com dez pontos de venda exclusivos nessa configuração no Brasil. São três em Santa Catarina: dois pontos em Balneário Camboriú e um em Florianópolis. Temos outros três na cidade de São Paulo, além de Campinas, Ribeirão Preto, Belo Horizonte e Brasília.
Portanto, são 10 pontos de venda exclusivos que podem, de alguma maneira, ser denominados flagships. Ou seja, são lugares que carregam exclusivamente a bandeira Jader Almeida e nos quais toda a experiência é desenhada. Além desses, temos mais dez pontos de venda nas principais capitais, que são pontos multibrand stores, nos quais temos uma presença expressiva dentro desses espaços.
E fora do Brasil, onde a Jader Almeida está presente?
– Na América Latina, não vou conseguir precisar rapidamente quantos pontos são, mas estamos no Uruguai, Argentina, Peru, Bolívia e Chile. Temos presença também na América Central em mercados como Porto Rico, Panamá, Costa Rica e México, além dos Estados Unidos e Canadá.
E os Estados Unidos se tornaram uma nova frente de expansão?
– Os Estados Unidos são a nossa mais nova fronteira, agora com a filosofia de abrir nossas próprias lojas, nossas flagships. Começamos em Nova York, em 2025; em 2026, Washington; e, em 2027, será Miami. Para 2028, 2029 e 2030, já temos outras cidades mapeadas, que ainda não convém comentar. É uma expansão nos mesmos moldes do que aconteceu no Brasil. E, aqui no país, também teremos mais três cidades: Porto Alegre, Curitiba e uma terceira que ainda não posso revelar.
A marca vai manter o plano de expansão dos EUA, apesar do tarifaço?
– Como falei, estamos no início de uma operação. Talvez fosse muito diferente se já estivéssemos estabelecidos, com uma rede de clientes operante. Nesse caso, talvez tivéssemos outro tipo de impacto.
Como estamos em um momento ainda incipiente, criando essa cultura, e pelo fato de o nosso produto não ser uma necessidade, mas um desejo, isso muda totalmente o viés. Porque esse percentual, para esse tipo de ticket e de cliente, não vai fazer uma diferença absurda. Não existe um comparativo.
Quando a pessoa olha para uma peça, a JEN, por exemplo, que é uma peça icônica nos Estados Unidos, ela olha para aquilo e não compara com nada. Não pensa: “Essa peça custa X e aquela outra custa Y”. Como ela não tem um comparativo e é um objeto análogo ao artístico, único, colecionável, torna-se, de alguma maneira, menos difícil driblar a percepção dessa sobretaxa.
Então a sobretaxa não chega a comprometer os negócios?
– Não. Estamos conseguindo superar, fechar contratos e manter aquilo que já está em curso nos projetos. É muito parecido com o Brasil. Uma venda não é imediata, ela é consultiva. Existe um período de montagem do projeto, orçamento, especificações, até chegar ao fechamento.
É um período relativamente longo e não estamos tendo muitos problemas por conta dessa taxa, porque as pessoas, de alguma maneira, conseguem absorvê-la. Se pensarmos no nosso cliente high net worth, estamos falando de alguém que compra um imóvel de US$ 25 milhões a US$ 40 milhões de dólares. É para esse tipo de casa que vendemos os nossos produtos.
Então, de uma maneira simplista, talvez a situação não seja tão complexa quanto para uma empresa que está competindo por margem. Há muitas empresas aqui em Santa Catarina, por exemplo, que vendem aberturas e outros produtos para grandes magazines, aos milhares, cotidianamente. A margem é muito apertada. Nesse caso, uma oscilação de 25% pode inviabilizar o negócio. Para nós, dificulta, mas não inviabiliza.
Além das Américas, vocês exportam também para outros países?
– Sim. Europa, Rússia, Ásia, enfim, em tese, estamos nos cinco continentes, incluindo a Austrália e Nova Zelândia. Hoje, se formos configurar, basicamente 25% da nossa produção é destinada à exportação. Obviamente, esses números talvez possam crescer ou se estabilizar com essa expansão nos Estados Unidos.
Isso porque a nossa filosofia enquanto marca é diminuir a presença em multibrand stores e ter cada vez mais presença em nossas próprias flagships.Então talvez haja um equilíbrio. Mas por que digo “talvez”? Porque não há como mensurar isso precisamente no tempo. É uma expansão feita de apertos e acertos, que vai sendo calibrada ao longo dos anos.
A cesta de investimentos precisa se manter equilibrada. Os investimentos dos pontos de vista comercial e operacional devem estar sempre em um equilíbrio muito coerente, para não haver discrepâncias ou uma desestabilização.
Vendas no atual cenário econômio
Estamos numa fase de oscilações tanto na economia brasileira quanto na internacional. Como estão as vendas da marca?
– Nós tivemos um crescimento de mais de 20% no primeiro semestre em relação a 2025.É um crescimento exponencial e consistente que temos mantido ao longo dos anos, mas isso se deve, obviamente, a várias frentes de trabalho.
Não há dúvidas de que a oscilação do mercado e a grande carga tributária são desafios. E agora não apenas no Brasil, mas também nos Estados Unidos, justamente neste momento de expansão, com uma sobrecarga de 25%. É claro que isso é demasiadamente desafiador. Não é fácil, nem um pouco.
Como uma empresa consegue crescer diante desses desafios?
– Não podemos olhar apenas para o problema. Há um problema para mim e para todos. Então precisamos encontrar maneiras de mitigar esses problemas e desafios para continuar avançando. É um trabalho consistente de equipes, pessoas e estudo. Quando colocamos tudo isso dentro de uma mesma convergência, as coisas começam, de alguma maneira, a melhorar, reduzindo os impactos.
É claro que os desafios acontecem. E, quando eu falo assim, pode parecer: “Nossa, nada tem problema, nada nos atinge”. É justamente o contrário. Acredito que, quanto mais preparados estivermos para todos esses problemas, menores talvez sejam os impactos. O futuro nos preocupa enquanto negócio devido a toda essa oscilação do mundo, não apenas do Brasil.
Então, é claro que cautela, cuidado e estudo drenam muito tempo. Muitas vezes, tiram aquele momento que poderia ser dedicado à criatividade, à expansão e a outras situações para que possamos realmente estudar a mitigação de riscos. Mas, quando olhamos os resultados, graças a Deus e a todos esses mecanismos, existe crescimento dentro desse período.
Além de diretor criativo, o senhor também é o CEO da marca. Como é administrar tudo?
– Cuido dos três pilares: vendas, operação e financeiro. Esses três pilares estruturam todo o negócio. Se não houver venda, não há operação. Se a operação estiver ruim, não vamos vender. E, se venda e operação estiverem bem, mas o financeiro estiver ruim, ele não vai comportar tudo isso. Então, quando esses três mecanismos são bem compreendidos e estruturados dentro dessas verticais, as coisas tendem a ficar mais claras. Estou simplificando bastante, mas o equilíbrio de todas essas pontas é vital para a saúde dos negócios.
Produção da grife é centrada em Santa Catarina
Como está estruturada hoje a produção da Jader Almeida? Quantos empregos gera em SC?
– Hoje, considerando todo o nosso ecossistema: indústria, processamento, matéria-prima, logística, depósitos, back office, lojas, entrega, tudo isso, na última contagem eram 998 pessoas. Então vou arredondar para cerca de mil empregos diretos.
Mas, se pensarmos nos indiretos, é algo gigantesco. Imagine todos os fornecedores, prestadores de serviços e aqueles que estão próximos da nossa operação. Em uma loja em São Paulo, por exemplo, tenho pessoal fixo, equipe de limpeza, pessoas externas, fornecedores de flores, paisagismo, segurança e manutenção.
Ou seja, para uma loja funcionar, tenho pelo menos mais cinco empresas totalmente conectadas a ela. Fora todos os outros serviços, como ar-condicionado e toda sorte de situações que podemos ter. Então, cada emprego gerado dentro dessa economia criativa na qual estamos inseridos se multiplica várias vezes. É um número expressivo.
Então a marca Jader Almeida gera um impacto social relevante direta e indiretamente?
– A nossa atuação nesse aspecto social é muito forte. Vemos, por exemplo, várias empresas das quais falávamos anteriormente, como as big techs, que instalam data centers gigantescos, investem milhões e milhões, mas que, no final do dia, geram relativamente pouco impacto para a comunidade e para o social.
Quando pensamos no que fazemos, nessa economia de transformação, da criatividade e da cultura, isso tem um impacto absurdo na vida real das pessoas e das famílias. Como digo, são mais de mil famílias diretamente ligadas a isso, e esse impacto se expande para muitas outras. É um ecossistema que realmente contribui muito para o desenvolvimento de todas as pessoas ligadas a ele.
A maioria dessas vagas é em Santa Catarina. Talvez 70%. A indústria concentra o maior número de pessoas e nossas unidades estão sediadas em Chapecó e Princesa, no Oeste e no Extremo-Oeste de Santa Catarina.
É curioso imaginar produtos com esse grau de sofisticação sendo produzidos justamente nesses locais, longe dos grandes centros…
– Ainda bem que são feitos nesses lugares. Isso é análogo àquilo que sempre dizem sobre o terroir de uma uva, de um café ou de um azeite. Há determinadas situações que só acontecem porque estão em determinados lugares.
Imagine o contexto: como alguém consegue se dedicar integralmente a uma produção estando em uma metrópole como São Paulo? A pessoa despende três horas entre metrô, ônibus, trânsito absurdo, buzinas… No meu trajeto de casa até o escritório, que leva 20 minutos, às vezes já chego com um pico de cortisol absurdo.
Como alguém consegue se dedicar integralmente ao trabalho no dia a dia nessas condições? Estando em um lugar como esse, o Oeste de SC, onde as pessoas têm, talvez, a sua própria subsistência, tudo é mais natural. O próprio ambiente é saudável. Isso faz com que elas consigam se dedicar com muito mais naturalidade.
A pessoa não está trabalhando dentro da indústria preocupada com o filho que está em uma escola ou em uma creche, ou pensando se ele está seguro em algum lugar. Ela sabe que tem saúde, segurança, educação, suporte, tudo aquilo que uma comunidade oferece.
Então esse senso de comunidade acaba influenciando positivamente o trabalho?
– Esse senso de comunidade, do local, faz toda a diferença. Quando as pessoas falam: “Nossa, quem imaginaria?”, eu penso justamente o contrário: “Nossa, quem não imaginaria isso?”. A história mostra isso. Onde são feitos os melhores relógios do planeta? Na Suíça.Por quê? Porque as pessoas ficam boa parte do tempo concentradas dentro de suas casas, inclusive porque o clima é propício para isso.
São coisas que, quando analisamos com um olhar mais amplo, conseguimos perceber. E aquilo que antes poderia parecer um desafio passa a ser a nossa maior fortaleza. Estar em locais que propiciam essas condições faz com que consigamos atingir esse nível de sofisticação. Não é segredo nem novidade, mas é algo que realmente faz uma diferença absurda.
Formação técnica, foco e criatividade
A base do seu trabalho inclui formação técnica importante. Fez cursos no Senai e graduação em arquitetura. Além disso, teve um desafio de administrar uma indústria de móveis quando era jovem. Quanto esse contexto ajudou a moldar o profissional Jader Almeida?
– Eu não sei exatamente o que moldou o Jader, mas acredito que, sem sombra de dúvidas, o contexto muda muita coisa. É aquela velha história: em 1975, Bill Gates tinha 17 anos. Era um entre milhões de jovens de 17 anos no planeta, mas estava em uma escola que tinha acesso a um computador passível de programação. Isso porque o diretor era um aficionado por tecnologia e conseguiu arrecadar fundos para adquirir aquele equipamento. E, por acaso, tudo convergiu para aquilo: Bill Gates estava naquela escola, naquele lugar e naquele contexto.
Por outro lado, mais ou menos na mesma época, no Vale do Silício, Steve Jobs queria montar um computador. Procurou na lista telefônica e encontrou a HP, que era uma das empresas mais proeminentes daquele momento. Ele fez uma ligação, entrou em contato com a empresa, apresentou a ideia e conseguiu as peças necessárias para montar o computador.
Então, o senhor acredita que contexto, momento e lugar podem ser tão importantes quanto a própria iniciativa?
– Contexto, timing, local e, obviamente, atitude. Mas aquela mesma atitude poderia existir em alguém na Índia e talvez essa pessoa não tivesse conseguido. A mesma genialidade, ou até maior, poderia estar em uma pessoa na África. Trazendo isso para a nossa realidade, aquilo que sempre digo: o contexto de estar no interior de Santa Catarina pode ter feito a diferença. A pessoa pode ser criativa, genial, ter uma capacidade extraordinária, mas talvez não tenha o contexto favorável.
Quando estamos em um local onde as coisas propiciam determinadas possibilidades, eu não diria que se torna necessariamente mais fácil. Mas, quando a atitude encontra essas possibilidades, grandes coisas podem acontecer. Estar no Oeste de Santa Catarina, em um lugar onde o empreendedorismo é visto como algo muito positivo, muda todo o paradigma.
E esse espírito empreendedor já estava presente quando você era adolescente?
– Na minha época, pelo menos, isso era muito presente. Não posso falar pelos jovens de hoje. Estamos falando de 25, quase 30 anos atrás. Eu sempre brinco: no ano que vem vou completar 30 anos da minha primeira carteira assinada. Foi em fevereiro de 1997. Esse contexto fazia com que uma pessoa de 15 anos já quisesse ter seu próprio carro, sua independência, sua própria trajetória.
Existia essa vontade de fazer alguma coisa.É claro que isso me moldou de maneira positiva. Não é determinante, porque existem pessoas brilhantes em todos os lugares e cada um tem a sua história. Mas a minha trajetória foi basicamente moldada por essa construção da curiosidade, da vontade de fazer.
Como avalia o grau de exigência dos cursos que você fez no Senai e a faculdade de Arquitetura?
– Quando você fala da faculdade de Arquitetura, eu fui da primeira turma da UnoChapecó. Era uma grade com uma carga absurda de cálculos, muito técnica. Obviamente foi difícil, mas, sem sombra de dúvidas, muito proveitoso, porque realmente aprendíamos. E os professores eram pessoas que vivenciavam a profissão. Não estou fazendo uma qualificação de um modelo em relação a outro, mas eram profissionais que atuavam no mercado. Então, além de lecionarem, traziam para a sala de aula a vida profissional, a vivência, aquilo que acontecia no dia a dia. Isso foi muito proveitoso para nós.
O Senai também teve um papel muito importante. Era quase uma disciplina militar. Nós aprendíamos organização, limpeza, o 5S vivido na prática. Isso, naturalmente, vai moldando uma percepção. Eu fiz no Senai os cursos técnicos de elétrica predial, torneiro mecânico e desenho mecânico.
Além disso, também fui escoteiro durante muitos anos e havia uma disciplina muito forte. Fiz judô dos seis aos 13 anos e era a mesma coisa: muita disciplina. Na aula de música também. Lembro que tínhamos um maestro que era temido. Quando ele chegava, os alunos praticamente congelavam. A exigência era muito alta. Tudo isso, de alguma maneira, vai formando as pessoas. Eu não acredito em uma construção sólida sem dedicação. Tudo e todos que constroem algo e conseguem chegar a algum lugar o fazem com muita dedicação.







