Decisão da Argentina de deixar Mercosul está ligada à pressão do Brasil, diz Maitê Bustamante 

Compartilhe:

Brasil dá sinais que também quer deixar o Mercosul, diz Maitê Bustamante Foto:Rodrigo Philipps, Agencia RBS)

O pano de fundo da decisão da Argentina de não participar mais de acordos do Mercosul é a pressão que o Brasil vem fazendo para iniciar a negociação de um acordo de livre comércio com os Estados Unidos, o que não interessa nem um pouco o governo argentino. Essa avaliação é da economista e presidente da Câmara de Comércio Exterior da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), Maria Teresa Bustamante, a Maitê. Ela foi negociadora de acordos internacionais pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) e é uma das principais especialistas brasileiras sobre acordos comerciais.

Continua após a publicidade

Segundo Maitê Bustamante, diferente da Argentina, o Uruguai e o Paraguai, que integram o tratado de Assunção que deu origem ao Mercosul, são totalmente a favor do acordo com os Estados Unidos. Então, ela avalia que diante do impasse colocado pelo maior parceiro do Brasil no bloco, resta ao governo brasileiro duas alternativas.

– Uma alternativa é o Brasil partir sozinho para uma negociação de acordo de livre comércio com os EUA, que é a pretensão desde o início do governo e implica em sair do Tratado de Assunção, como fez a Argentina. E a outra alternativa é se associar ao Paraguai e Uruguai e seguirem juntos para a negociação de um acordo com os EUA – avalia a especialista.

Continua após a publicidade

Sobre os negócios que acontecem hoje entre os países do Mercosul, Maitê Bustamante afirma que não mudam com a decisão da Argentina. Todos seguem seu curso. Ela explica que isso é possível porque o Tratado de Assunção é um tratado e que o acordo comercial do Mercosul também não é Mercosul. É um acordo entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai como países independentes embaixo do guarda-chuva da Associação Latino-Americana de Integração (Aladi). Significa também que a entrada e saída de mercadorias que existe hoje vai ser mantida nos quatro países do bloco.


Sinais nas compras para enfrentar a Covid-19

Entre as demonstrações indiretas do governo brasileiro de sair do Tratado de Assunção estão as recentes compras para enfrentar a pandemia da Covid, conclui a economista.

– As resoluções que foram divulgadas pelo governo brasileiro para isenção de imposto de importação de produtos vinculados ao combate ao covid-19 estão todas tramitando no âmbito da Aladi. O país não acessou qualquer instrumento acordado no âmbito das decisões do Mercosul, que também são internalizadas no Brasil por decreto. Isso é uma demonstração legítima de que o Brasil segue no plano de querer se excluir de todas as negociações feitas no âmbito do Mercosul – explica.

Continua após a publicidade

Caso a opção do Brasil seja por busca de acordo com os EUA junto com o Uruguai e o Paraguai, ela observa que será uma grande negociação com peculiaridades. As principais são do Paraguai, que tem um acordo com Taiwan, o que significa abertura especial com os asiáticos e, também, com os EUA, que o reconhecem como um país pequeno, em desenvolvimento. Mas o mais importante para os países é negociar produtos, tarifas e acesso a mercados, afirma ela.


Negócios com a Argentina

Continua após a publicidade

A Câmara de Comércio Exterior da Fiesc realiza reunião virtual dia 28 deste mês com a participação do presidente da federação Mario Cezar de Aguiar e o diretor da Confederação Nacional da Indústria (CNI0, Carlos Abijiaodi. O objetivo é apresentar estudo que mostra impactos nos negócios com o Mercosul caso o Brasil decida sair do bloco.

Segundo Maitê Bustamante, a intenção é mostrar uma estimativa do impacto nos negócios do país caso o governo opte pela exclusão do Mercosul. O evento será às 14h, em telereunião pelo youtube, com participação gratuita.