O industrial Gilberto Seleme completou neste sábado(08) o seu primeiro ano de gestão à frente da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc). Desde essa data, sucedeu a Mario Cezar de Aguiar e passou a assinar as decisões da entidade, tendo a posse festiva em 22 do mesmo mês. Ao falar sobre como foi o primeiro ano, Seleme diz que passou muito rápido, mas a federação fez muito. Entre os fatos relevantes, estão investimentos elevados em educação por meio do Senai/SC e o Sesi/SC. A entidade está investindo entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,5 bilhão, informa ele.
Além disso, nesse primeiro ano, ele liderou decisões para apoiar a indústria no primeiro tarifaço dos Estados Unidos e agora o setor enfrenta o segundo tarifaço de lá.
Engenheiro civil, acionista e líder de várias indústrias sediadas na cidade de Caçador, Seleme, à frente da Fiesc, mantém foco na competitividade da indústria catarinense. Para isso, defende educação de qualidade, inovação e a reindustrialização do Brasil com muito mais automação. Ele afirma também que Santa Catarina precisa formar mais engenheiros. Leia a entrevista a seguir:
O senhor está completando o primeiro ano de gestão à frente da Fiesc. Como avalia esse período de trabalho na federação?
– Passou muito depressa. Esses dias fizemos uma retrospectiva, como aquelas do fim de ano, e percebemos a quantidade de ações que já realizamos aqui na Fiesc. Foi muita coisa.
Seu trabalho é de continuidade porque era vice-presidente na gestão anterior. Já imprimiu o seu ritmo?
– Eu sempre digo que isso aqui é uma corrida de bastão. Como eu já fazia parte da diretoria anterior, o Mario (Aguiar) me passou o bastão. Eu o recebi e imprimi a minha velocidade.
Significa que comecei em ritmo forte e pretendo continuar assim.
Imprimi o meu jeito de trabalhar, mas mantive o planejamento estratégico que a Fiesc sempre teve, adaptando-o ao cenário econômico. Logo que cheguei, enfrentamos a questão do tarifaço. Também trouxe para dentro da entidade a minha cultura, minhas qualidades, meus defeitos e a minha forma de administrar.
O que o senhor já incluiu na Fiesc considerando sua cultura?
– Uma das primeiras coisas que fiz foi olhar para as pessoas. Como sou do interior, aprendi que todos devem ser tratados da mesma forma. No interior, você encontra o funcionário, o vizinho, o prefeito e todos convivem naturalmente. Por isso, é preciso tratar todos com respeito e igualdade. Trouxe essa cultura de valorização das pessoas para a Fiesc.
Como essa visão se transforma em ações concretas?
– Nós trabalhamos com um conceito baseado em pessoas, ações e impacto. Eu costumava dizer que era preciso haver mais Santa Catarina e menos Florianópolis. A indústria está espalhada pelo Estado, principalmente depois da ponte. Sem desmerecer Florianópolis, levamos as ações para o interior, onde estão os polos industriais.
Quais foram as principais iniciativas nesse sentido?
O principal foi construir alianças. Eu costumo dizer: aliança, aliança e mais aliança. Fui aos sindicatos, trouxe os dirigentes para perto da Fiesc, porque eles são a nossa base, nossos acionistas e quem nos elegeu. Era fundamental aproximá-los da Federação.
Essas alianças geraram resultados concretos, que chamamos de impacto. Também implantamos uma gestão bastante compartilhada. Eu escuto muito. Criamos conselhos que discutem os temas e trazem as propostas para análise.
Como funciona esse modelo de gestão compartilhada?
– Um exemplo é o setor da construção civil. Temos 14 sindicatos que formam um conselho. Eles discutem os temas comuns e trazem as demandas para a Fiesc, que ajuda a encaminhar as soluções. Já as questões específicas de cada região continuam sendo resolvidas localmente, com o apoio dos nossos 16 vice-presidentes regionais.
Quais são as principais prioridades da Fiesc atualmente?
– Educação, inovação e tecnologia continuam sendo prioridades, como sempre foram. Estamos investindo fortemente para qualificar mão de obra para a indústria porque é muito difícil ouvir um empresário dizer que não consegue expandir sua empresa por falta de trabalhadores qualificados.
Estamos enfrentando no estado, principalmente, falta de mão de obra qualificada. Por isso, estamos desenvolvendo um projeto em parceria com o governo do estado para oferecer cursos técnicos gratuitos. Inicialmente serão 30 mil vagas, com a meta de chegar a 80 mil.
Esse programa com o estado soluciona essas demandas?
– Ele ameniza, mas não resolve completamente essa falta de pessoal. Por isso, pedimos aos empresários que nos avisem quando planejarem ampliar suas empresas. Assim, conseguimos preparar a formação desses profissionais com antecedência.
Por que esse planejamento antecipado é tão importante?
– Porque formar um profissional leva tempo. Se uma empresa vai construir uma nova fábrica, normalmente leva cerca de dois anos para concluir a obra. O ideal é que, quando compra o terreno já comece também a investir na formação da mão de obra. Se deixar para procurar profissionais apenas quando a fábrica estiver pronta, terá de disputar trabalhadores que já estão empregados em outras empresas.
Como o Sistema Fiesc participa desse processo?
– Estamos mostrando ao empresário que somos parceiros. O Senai tem um papel fundamental nisso. Além da estrutura existente, estamos realizando um grande investimento em Joinville, superior a R$ 500 milhões, em parceria principalmente com a Petrobras.
Esse projeto será em Joinville porque temos na cidade o instituto Senai. Desse total, cerca de R$ 380 milhões vêm da Petrobras. Somando os investimentos em todo o Estado, estamos falando de algo entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,5 bilhão.
Esses investimentos de aproximadamente R$ 1,5 bilhão serão executados ao longo de quanto tempo?
– As obras já estão licitadas, então esses investimentos já estão garantidos. Estamos construindo ou ampliando unidades do Senai em Criciúma, Rio do Sul e Blumenau. Em Joinville, todo o complexo será inaugurado em breve. Também estamos investindo no Oeste do Estado e fortalecendo o Sesi, especialmente na área de educação, com escolas de referência.
Como funciona a integração entre o Sesi e o Senai nesse processo de formação?
O Sesi acompanha a formação da criança até determinado momento. Depois, o Senai assume essa preparação e forma profissionais para a indústria, inclusive oferecendo cursos superiores.
Muitos profissionais formados pelo Senai acabam se tornando professores da própria instituição. Outros vão para a indústria e depois retornam para dar aulas. Isso é importante porque precisamos de professores que estejam conectados com a realidade industrial, levando para a sala de aula a experiência prática adquirida nas empresas.
Como o senhor define o papel do Sistema Fiesc?
O Sesi tem a responsabilidade de cuidar da saúde, da educação e do bem-estar do trabalhador. Já o Senai atua na qualificação profissional, na inovação e no desenvolvimento tecnológico. Além disso, a Fiesc exerce um papel institucional muito importante, que é defender os interesses da indústria catarinense.
Quando o senhor assumiu a Fiesc, SC enfrentava o primeiro tarifaço dos Estados Unidos. Agora surgiu uma nova rodada de tarifas. Como a indústria enfrentou aquele primeiro momento e como vê esse novo cenário?
– O primeiro tarifaço gerou um grande impacto e muita insegurança. Ninguém sabia exatamente como agir. A Fiesc procurou amenizar os efeitos por meio de acordos com o Governo do Estado, da busca por linhas de crédito nacionais, especialmente junto ao BNDES, além do apoio do Sesi e Senai com programas de requalificação de mão de obra. Nossa equipe jurídica também orientou as empresas sobre medidas trabalhistas e administrativas que poderiam ser adotadas naquele momento.
O mercado externo conseguiu absorver perda de vendas nos EUA?
– O primeiro tarifaço machucou bastante a indústria. Quem conseguiu superar aquela fase enfrentou outra dificuldade: encontrar novos mercados. Na teoria parece fácil, mas, na prática, cada mercado já possui seus fornecedores. Para conquistar novos clientes é preciso oferecer competitividade, adaptar produtos, enviar lotes-piloto e construir uma relação comercial. Isso leva tempo.
E por que o segundo tarifaço preocupa ainda mais?
Porque os instrumentos utilizados na primeira crise já não têm o mesmo efeito. Muitas empresas recorreram a financiamentos, que agora começam a ser pagos. Ninguém quer assumir novas dívidas. O que a indústria precisa é recuperar mercado.
Nossos concorrentes pagam tarifas de 10% ou, em alguns casos, de 12,5%. O Brasil passou a enfrentar uma tarifa de 25%, além da tarifa geral (chegando a 37,5%). Isso nos coloca em desvantagem em relação aos demais países e dificulta muito a competição.
Há setores que escaparam dessas tarifas?
– Sim. Produtos considerados estratégicos para os Estados Unidos ficaram de fora. O suco de laranja é um exemplo: ou eles compram do Brasil ou ficam sem o produto. O mesmo ocorre com itens como café e alguns tipos de carne. Já em produtos em que há oferta de diversos países, o Brasil acabou sendo tarifado.
Qual é o impacto específico para Santa Catarina?
– Cerca de metade das exportações catarinenses destinadas aos Estados Unidos foi atingida pelas tarifas. Estudo da Fiesc apurou que esse segundo tarifaço atinge 54% da receita. É uma situação difícil de contornar.
Existe alguma saída para esse impasse?
– Na nossa avaliação, a solução passa por um entendimento entre os presidentes dos dois países. Do ponto de vista técnico, nós já fizemos o que era possível.
Demonstramos que Santa Catarina possui produção sustentável, que nossas empresas madeireiras são certificadas, que a indústria não utiliza trabalho escravo e que seguimos rigorosamente a legislação trabalhista.
Nossa indústria é moderna, organizada e exporta para o mundo inteiro. O problema é que determinados produtos são fabricados especificamente para o mercado americano.
O senhor acredita que esse segundo tarifaço terá efeitos mais severos?
– Sim. Ele tende a ser mais prejudicial do que o primeiro justamente porque as medidas adotadas anteriormente perderam eficácia. Parcelamentos, prorrogações de pagamentos e linhas de crédito ajudaram naquele momento, mas hoje o que realmente faz diferença é recuperar o mercado perdido.
A CNI e a Fiesc atuam de forma coordenada. Também mobilizamos setores específicos, como móveis, madeira e celulose. Nessas negociações contamos, inclusive, com o apoio dos próprios clientes americanos. Mostramos nas audiências públicas que muitas empresas americanas dependem dos produtos brasileiros. Sem esse fornecimento, setores como a construção civil, por exemplo, terão aumento de custos. Esse argumento ajuda a demonstrar que as tarifas também prejudicam empresas e consumidores dos Estados Unidos.
Além das tarifas, que outros fatores estão pressionando a indústria?
– Tivemos também aumento do frete internacional, impulsionado pelos custos do petróleo, e elevação do frete interno em razão da tabela do transporte rodoviário. A nova lei nacional do frete estabelece valores mínimos para a contratação do transporte.
Em algumas situações, o preço definido fica acima daquele praticado pelo mercado. Por exemplo, se um caminhão retorna vazio e poderia fazer um frete por um valor menor, isso deixa de ser possível porque existe um piso estabelecido. Isso reduz a flexibilidade das negociações e aumenta os custos para a indústria.
O cenário ainda é de muita incerteza?
– Vivemos uma grande insegurança comercial. Os Estados Unidos têm enorme poder de negociação e compram de quem desejam. Há empresas catarinenses cuja produção é voltada quase integralmente para o mercado americano, o que torna esse cenário ainda mais delicado. Em alguns segmentos mais tecnológicos, eles dependem de produtos fabricados no Brasil e não conseguem substituí-los facilmente.
Já nas commodities é diferente porque existem outros fornecedores. O problema é que os países asiáticos são extremamente rápidos. Eles conseguem copiar uma peça produzida aqui e, em pouco tempo, passam a fabricá-la com custo menor.
Por isso, o Brasil precisa de uma política de reindustrialização. Caso contrário, corremos o risco de sucatear nosso parque industrial. Hoje, o custo para produzir no Brasil é muito elevado, inclusive para colocar novas máquinas em operação.
O senhor defende uma reindustrialização do país. Quais seriam as prioridades?
– Precisamos recuperar a competitividade da indústria brasileira. Hoje é muito caro investir em tecnologia. Para automatizar uma fábrica, é necessário importar robôs e equipamentos, que chegam ao país carregados de tributos. Ao mesmo tempo, sem automação perdemos competitividade no mercado internacional.
O governo deveria reduzir a carga tributária para quem investe no setor produtivo. Precisamos incentivar investimentos que gerem emprego, riqueza e competitividade. Quando comparamos nossas empresas com as asiáticas, vemos que elas possuem dezenas de vezes mais robôs e equipamentos automatizados do que nós.
A automação ameaça os empregos?
– Não. A indústria precisa inovar e automatizar para produzir mais, com melhor qualidade e menor custo. O robô não elimina empregos; ele aumenta a produtividade. Com uma produção maior, a empresa também precisa contratar mais pessoas para áreas como almoxarifado, expedição, logística e manutenção.
Diante da dificuldade de encontrar trabalhadores qualificados, a automação ajuda a ampliar a produção sem reduzir postos de trabalho. Por isso, precisamos construir uma política nacional de reindustrialização.
O que a Fiesc tem defendido junto ao governo federal?
– Existem algumas linhas do BNDES, mas são muito específicas. O Brasil precisa de um grande programa de financiamento de longo prazo, que permita às empresas investir em máquinas e equipamentos e pagar esses investimentos com o retorno proporcionado pelo aumento da produtividade.
Existe também um problema de imagem do Brasil no exterior?
– Existe. Muitas vezes os Estados Unidos enxergam o Brasil como uma realidade única. Quando falam de desmatamento ou de trabalho escravo, utilizam exemplos ocorridos em outras regiões do país e generalizam essa situação para toda a indústria brasileira, inclusive para Santa Catarina, que possui uma realidade completamente diferente.
Trabalhamos tecnicamente, com dados e certificações, muitas vezes em conjunto com empresas americanas que compram nossos produtos. Procuramos demonstrar que a indústria catarinense é organizada, sustentável e segue padrões internacionais.
E quando a discussão deixa de ser técnica e passa a ser política?
– Nesse momento, nossas possibilidades de atuação diminuem bastante. Por isso, mantemos diálogo permanente com o governo federal. Nosso principal interlocutor é o vice-presidente Geraldo Alckmin, que também é ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. É por meio desse canal que buscamos construir uma solução e defender que o diálogo entre os governos brasileiro e americano avance.
A Fiesc está defendendo que o presidente Lula volte a conversar diretamente com o presidente Donald Trump?
– Sim. Estamos defendendo isso por meio do vice-presidente Geraldo Alckmin, que é o nosso principal interlocutor junto ao governo federal.
O senhor acredita que essa conversa ainda pode acontecer antes das eleições?
– Nós gostaríamos que acontecesse o quanto antes, de preferência imediatamente. Mas acreditamos que isso seja difícil. Se ocorrer antes da eleição, pode haver influência no cenário eleitoral. Mas independente de quem ganhar a eleição, será preciso deixar diferenças ideológicas de lado e pensar nos interesses do Brasil. O objetivo deve ser negociar a retirada dessas tarifas.
O presidente Trump pode ampliar esse tipo de medida para outros países?
– Pode. Ele já anunciou novas tarifas sobre produtos de outros países, como o Canadá. No entanto, boa parte desses produtos não compete diretamente com os brasileiros.
Na sua avaliação, qual é a estratégia adotada pelos Estados Unidos?
– O presidente Trump utiliza as tarifas como instrumento de negociação. Ele impõe a taxação para levar os países à mesa de negociação. Diversos países fizeram isso. O Brasil também procurou esse diálogo, mas ainda não houve um acordo.
Mudando de assunto, quais são as prioridades da Fiesc para o próximo governo de Santa Catarina?
– A principal delas é não aumentar impostos. Esse deve ser um compromisso de qualquer governador. A carga tributária já é elevada. Se o estado quiser aumentar a arrecadação, deve ampliar a base econômica, estimular investimentos e reduzir custos da máquina pública.
Além da questão tributária, quais são as maiores demandas da indústria?
– Infraestrutura. Santa Catarina possui uma economia muito forte, mas enfrenta custos logísticos elevados. Temos um dos fretes mais caros do país para levar a produção das indústrias até os portos. Apesar do aumento da capacidade portuária, continuamos enfrentando gargalos em praticamente todas as rodovias federais.
Embora muitas dessas obras dependam do governo federal, qual é o papel do estado?
– O governo do estado precisa atuar em parceria, apoiar projetos como a Via Mar e defender essas obras junto à União. São investimentos que levam tempo para serem executados, mas a necessidade da indústria é imediata.
Que outras áreas exigem atenção do próximo governo estadual?
– O novo governo estadual precisaria investir em segurança pública, investir fortemente em educação, qualificação profissional e infraestrutura. Esses são pilares fundamentais para manter a competitividade da indústria catarinense.
A parceria entre o governo do estado e o Sistema Fiesc na educação profissional já tem apresentado resultados?
– Sim. Além do Senai, o estado tem parceria com o Senac e outras que oferecem cursos em áreas que não atendemos diretamente, como enfermagem. O programa Universidade Gratuita também contribui para formar técnicos e engenheiros, profissionais fundamentais para o desenvolvimento da indústria.
O senhor considera que Santa Catarina ainda precisa formar mais engenheiros?
– Sem dúvida. O Brasil possui um número reduzido de engenheiros por habitante, e Santa Catarina acompanha essa realidade. A engenharia é essencial para incorporar tecnologia, inovação e aumentar a competitividade da indústria, especialmente em um estado cuja economia é fortemente baseada na manufatura.
Além disso, tem mais algum pleito importante da Fiesc ao futuro governo estadual?
– Sim. Não aumentar impostos e procurar entender por que algumas indústrias estão deixando Santa Catarina e adotar políticas que mantenham esses investimentos e esses empregos no estado. Mas o governo atual do estado tem dialogado com o setor produtivo, está bem alinhado.
O senhor gostaria de transmitir uma mensagem especial sobre o seu primeiro ano de gestão na Fiesc?
– Eu quero agradecer esse primeiro ano que nós passamos aqui, agradecer o apoio que tive principalmente dos sindicatos, do setor empresarial e dessa equipe da Fiesc que faz acontecer. Nós temos uma direção orientada pelo mercado, pelos empresários. Eu sou o comandante, mas quem está remando são eles.
